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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 87ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia

Em escala, o negro é o negro retinto, o mulato já é o pardo e como tal meio branco, e se a pele é um pouco mais clara, já passa a incorporar a comunidade branca. A forma desse racismo no Brasil decorre de uma situação em que a mestiçagem não é punida, mas louvada. Com efeito, as uniões inter-raciais, aqui, nunca foram tidas como crime ou pecado. Nós surgimos, efetivamente, do cruzamento de uns poucos brancos com multidões de mulheres índias e negras.

RIBEIRO, D. O povo brasileiro: formação e sentido do Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 2004 (adaptado).

Considerando o argumento apresentado, a discriminação racial no Brasil tem como origem

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → relações raciais e racismo no Brasil
  • ⚡ Nível: Médio — exige articular um texto teórico denso (Darcy Ribeiro) com um conceito sociológico específico, sem que esse conceito esteja nomeado no enunciado
  • 🎯 Tema/Habilidade: Racismo à brasileira (racismo de marca) — competência de leitura e interpretação de texto sociológico aplicada à análise das relações étnico-raciais brasileiras
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "De acordo com o texto de Darcy Ribeiro, qual é a base sobre a qual se constrói a discriminação racial no Brasil?"
  • Palavras-chave decisivas: em escala, pele um pouco mais clara, mestiçagem não é punida
  • Armadilha típica: o candidato lê "uniões inter-raciais nunca foram tidas como crime" e conclui, por associação apressada, que a discriminação nasceria do próprio ato de se casar entre raças diferentes (alternativa C) — quando o texto diz exatamente o oposto: essas uniões não geram punição.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato entendeu que o texto descreve uma classificação racial gradual e visual, baseada na aparência física do indivíduo, e não em critérios legais, territoriais, profissionais ou de parentesco.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Racismo de marca (Oracy Nogueira): modelo de discriminação racial em que a pessoa é classificada e discriminada conforme a aparência física que ela ostenta no momento — cor da pele, textura do cabelo, formato do nariz e dos lábios. É um preconceito de "marca", isto é, de sinal visível no corpo.
  • Racismo de origem (modelo norte-americano): modelo oposto, em que a pessoa é classificada como "negra" a partir de sua ascendência conhecida (a chamada regra da "uma gota de sangue"), mesmo que sua aparência física seja predominantemente branca. Ali, o critério é genealógico, não visual.
  • Mestiçagem brasileira: processo histórico de cruzamento entre europeus, indígenas e africanos que, segundo Darcy Ribeiro, não foi condenado moral ou juridicamente no Brasil — ao contrário de outros países colonizados —, o que produziu um contínuo de tons de pele em vez de uma fronteira rígida entre "brancos" e "negros".
  • Democracia racial (mito): ideia, hoje amplamente criticada pela Sociologia, de que a miscigenação teria eliminado o racismo no Brasil. O texto de Darcy Ribeiro desmonta essa ideia ao mostrar que a mestiçagem convive perfeitamente com uma hierarquia racial baseada na tonalidade da pele.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "o negro é o negro retinto, o mulato já é o pardo e como tal meio branco, e se a pele é um pouco mais clara, já passa a incorporar a comunidade branca" → o texto descreve uma escala contínua de classificação racial organizada exclusivamente pelo grau de escurecimento ou clareamento da pele — ou seja, pela aparência física observável.
  • Evidência 2: "as uniões inter-raciais, aqui, nunca foram tidas como crime ou pecado" → elimina de saída a hipótese de que o casamento entre raças (vínculo matrimonial) seja a origem da discriminação, pois o texto afirma explicitamente que tal união nunca foi criminalizada nem moralmente condenada.
  • Síntese: o argumento de Darcy Ribeiro constrói uma escala de pertencimento racial (do "negro retinto" ao "branco") cujo único critério mencionado é o tom da pele, isto é, o traço fenotípico. É esse traço visível — não a lei, não o território, não a profissão, não o casamento — que determina o grau de inclusão ou exclusão social do indivíduo no Brasil descrito pelo autor.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo do argumento

O trecho abre com a expressão "em escala", sinalizando que Darcy Ribeiro não está descrevendo uma divisão binária (negro × branco), mas um espectro gradual. Esse espectro é construído por categorias intermediárias — "negro retinto", "mulato", "pardo" — que se organizam em função de um único critério explícito no texto: o quanto a pele de uma pessoa se aproxima do branco. Quanto mais clara a pele, maior a proximidade simbólica com a "comunidade branca".

Subpasso 4.2 — Eliminar as causas alternativas mencionadas no texto

O autor cita, de forma deliberada, dois elementos que não explicam a discriminação: (1) as uniões inter-raciais nunca foram crime ou pecado — logo, o vínculo matrimonial não é a origem do racismo, é o próprio processo que gerou a mestiçagem; (2) o "cruzamento de uns poucos brancos com multidões de mulheres índias e negras" explica a origem histórica da população mestiça, mas não é apresentado como a causa da discriminação em si — é o pano de fundo demográfico sobre o qual a escala de cor voltou a operar.

Subpasso 4.3 — Verificação

Voltando à pergunta — "a discriminação racial no Brasil tem como origem..." — e à evidência central do texto (a escala de tons de pele determinando quem "incorpora a comunidade branca"), a única alternativa compatível é a que nomeia o critério físico e visível usado nessa escala: os traços fenotípicos (cor da pele, e por extensão cabelo, feições). Esse resultado corresponde exatamente à alternativa D, confirmando a leitura.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) identidades regionais.

❌ Incorreta: o texto de Darcy Ribeiro não menciona região, estado ou localidade geográfica em nenhum momento; a escala descrita é racial/fenotípica, aplicável ao Brasil como um todo, não um recorte regional.

B) segregação oficial.

❌ Incorreta: o texto não fala em leis, decretos ou políticas de Estado que separem oficialmente grupos raciais (como o apartheid ou as leis Jim Crow); pelo contrário, afirma que as uniões inter-raciais nunca foram criminalizadas, o que é incompatível com a ideia de segregação institucionalizada.

C) vínculos matrimoniais.

❌ Incorreta: essa é a armadilha central da questão. O texto diz textualmente que as uniões inter-raciais "nunca foram tidas como crime ou pecado" — ou seja, o casamento/união entre raças é apresentado como algo socialmente aceito, e não como a origem da discriminação. Confundir a causa da mestiçagem (as uniões) com a causa da discriminação é o erro de leitura mais comum nessa questão.

D) traços fenotípicos.

✅ Correta: a escala descrita — "negro retinto" → "mulato/pardo" → "pele mais clara" → "comunidade branca" — usa exclusivamente características físicas visíveis (cor da pele, e por extensão traços do rosto e do cabelo) como critério de classificação e hierarquização racial. É exatamente o mecanismo que a Sociologia brasileira chama de "racismo de marca": discrimina-se pela aparência, não pela ascendência declarada ou por documentos.

E) status ocupacional.

❌ Incorreta: o texto não relaciona a discriminação a profissão, renda ou posição de trabalho; nenhuma passagem do fragmento associa cargo ou ocupação ao lugar do indivíduo na escala de cor descrita.

🏆 Gabarito: D — o texto de Darcy Ribeiro descreve a discriminação racial brasileira como um sistema graduado que classifica as pessoas conforme o tom de pele e demais traços físicos visíveis, e não conforme leis, casamentos, região ou profissão.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a letra D nomeia o critério que o próprio texto descreve em detalhe — a escala de cor da pele ("negro retinto", "mulato/pardo", "pele mais clara") como régua de inclusão ou exclusão social, o que caracteriza discriminação por aparência física, isto é, por traços fenotípicos.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra o contraste entre o "racismo de marca" brasileiro (baseado na aparência) e o "racismo de origem" de outros países (baseado na ascendência declarada), sempre a partir de textos de autores como Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre ou Florestan Fernandes, sem citar nominalmente o conceito sociológico — cabe ao estudante reconhecê-lo pela descrição.
  • Generalização: em textos sobre relações raciais no Brasil, sempre que o autor descrever uma "escala" ou "gradiente" de cor determinando o pertencimento social, a resposta remete a critérios fenotípicos/físicos, não a critérios jurídicos, territoriais ou de parentesco.
  • Dica de eliminação rápida: releia a frase-chave do texto e pergunte "o que está sendo medido nessa escala?" — se a resposta for cor de pele/aparência, elimine imediatamente qualquer alternativa que fale de lei (segregação oficial), casamento (vínculos matrimoniais), local (identidades regionais) ou trabalho (status ocupacional): sobra só o traço físico.
  • Conexões: o mito da "democracia racial" (Gilberto Freyre) e o conceito de "racismo estrutural" (Silvio Almeida) são temas correlatos frequentemente cobrados em conjunto com essa discussão sobre a formação étnico-racial brasileira.

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