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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensPortuguêsMédio

Questão 10ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia

Autobiografia de José Saramago

Nasci numa família de camponeses sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do Rio Almonda, a uns cem quilômetros a nordeste de Lisboa. Meus pais chamavam-se José de Sousa e Maria da Piedade. José de Sousa teria sido também o meu nome se o funcionário do Registro Civil, por sua própria iniciativa, não lhe tivesse acrescentado a alcunha por que a família de meu pai era conhecida na aldeia: Saramago. (Cabe esclarecer que saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres.) Só aos sete anos, quando tive de apresentar na escola primária um documento de identificação, é que se veio a saber que o meu nome completo era José de Sousa Saramago… Não foi este, porém, o único problema de identidade com que fui fadado no berço. Embora tivesse vindo ao mundo no dia 16 de novembro de 1922, os meus documentos oficiais referem que nasci dois dias depois, a 18: foi graças a esta pequena fraude que a família escapou ao pagamento da multa por falta de declaração do nascimento no prazo legal.

Disponível em: www.josesaramago.org. Acesso em: 7 dez. 2017 (adaptado).

No texto, o autor discute o poder que os documentos oficiais exercem sobre a vida das pessoas. Qual fato torna isso evidente?

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de Texto (leitura de narrativa autobiográfica em 1ª pessoa)
  • ⚡ Nível: Médio — exige identificar, dentre cinco fatos citados no texto, aquele que sintetiza o tema central (o poder dos documentos sobre a identidade), e não apenas um detalhe periférico
  • 🎯 Tema/Habilidade: Localização e hierarquização de informações no texto — reconhecer qual fato funciona como evidência central de uma tese apresentada pelo autor (Competência de Área 1/Habilidade H1 da Matriz de Referência de Linguagens)
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Dos fatos narrados por Saramago, qual comprova que documentos oficiais têm poder sobre a vida das pessoas?"
  • Palavras-chave decisivas: poder dos documentos, evidência, fato
  • Armadilha típica: confundir um detalhe secundário ou pitoresco do texto (como a origem do sobrenome ou o local de nascimento) com o fato que efetivamente demonstra a tese central sobre o poder documental
  • O que a resposta precisa demonstrar: a alternativa correta precisa apontar um fato em que um documento (ou sua ausência/alteração) interfere diretamente na identidade ou na vida do autor — não basta citar qualquer informação presente no texto

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Texto autobiográfico: narrativa em 1ª pessoa em que o autor reconstrói fatos de sua própria vida, selecionando episódios que sustentam uma reflexão ou tese pessoal — aqui, a reflexão sobre a força dos registros civis.
  • Tese/ideia central do fragmento: os documentos oficiais (registro de nascimento, certidão civil) não apenas retratam a realidade, mas a constroem e alteram — Saramago não escolheu seu nome nem a data "oficial" de seu nascimento.
  • Evidência x detalhe ilustrativo: evidência é o fato que sustenta diretamente a tese defendida; detalhe ilustrativo é uma informação de contexto (curiosidade etimológica, local de nascimento) que não prova, por si, a tese.
  • Fadado no berço: expressão-chave do texto — indica que o "problema de identidade" já nasceu com o autor, isto é, os documentos moldaram sua identidade desde o início da vida, antes mesmo de ele poder intervir.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "José de Sousa teria sido também o meu nome se o funcionário do Registro Civil, por sua própria iniciativa, não lhe tivesse acrescentado a alcunha (...) Saramago" → mostra que um funcionário, por decisão unilateral, definiu o nome que acompanharia o autor a vida toda — o documento criou uma identidade que não era a "natural".
  • Evidência 2: "Não foi este, porém, o único problema de identidade com que fui fadado no berço" → o próprio autor nomeia o fenômeno como "problema de identidade" e afirma que ele já existia desde o nascimento ("no berço"), amarrando nome e data de nascimento como duas faces do mesmo poder documental.
  • Evidência 3: "os meus documentos oficiais referem que nasci dois dias depois (...) foi graças a esta pequena fraude que a família escapou ao pagamento da multa" → a data de nascimento registrada não corresponde à data real, mostrando que o documento pode divergir do fato e ainda assim prevalecer como verdade oficial.
  • Síntese: o texto narra dois episódios (nome alterado por terceiro e data de nascimento fraudada) e o próprio Saramago os agrupa sob o rótulo "problema de identidade (...) fadado no berço" — é essa síntese, e não cada episódio isolado, que evidencia o poder dos documentos sobre a vida das pessoas.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar a tese do autor

O comando afirma que "o autor discute o poder que os documentos oficiais exercem sobre a vida das pessoas". É preciso primeiro localizar, no texto, onde essa discussão fica explícita. Saramago relata dois episódios envolvendo documentos: (1) o funcionário do Registro Civil que, por conta própria, acrescentou "Saramago" ao nome que seus pais escolheriam; e (2) a data de nascimento registrada como 18 de novembro, quando na verdade ele nasceu em 16 de novembro — alteração feita para evitar multa por atraso na declaração.

Subpasso 4.2 — Encontrar a frase-síntese

O próprio texto fornece a chave de leitura: "Não foi este, porém, o único problema de identidade com que fui fadado no berço." Essa frase costura os dois episódios (nome e data) sob um único conceito — "problema de identidade" nascido "no berço", ou seja, desde o início da vida do autor, por ação de terceiros e de registros oficiais. É essa formulação que expressa, de modo mais completo e direto, a tese pedida pelo comando: os documentos têm poder sobre a vida das pessoas porque moldam sua identidade antes mesmo de elas poderem consentir ou intervir.

Subpasso 4.3 — Verificação

Ao comparar essa síntese com as cinco alternativas, apenas a opção C reproduz exatamente esse fato-núcleo: "o problema de identidade originado desde o berço". As demais alternativas (escola aos sete anos, planta no sobrenome, isenção da multa, nascimento em aldeia de camponeses) são detalhes do relato — verdadeiros, mas periféricos —, não a evidência central da tese sobre o poder documental. A alternativa C confirma-se como gabarito.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) A sua entrada na escola aos sete anos de idade.

❌ Incorreta: esse é apenas o momento em que o autor descobriu seu nome completo ao precisar apresentar um documento — é a ocasião da descoberta, não o fato que evidencia o poder dos documentos em si. A escola é cenário, não causa da alteração de identidade.

B) A alusão a uma planta no nome da família.

❌ Incorreta: a explicação sobre "saramago" ser uma planta herbácea usada como alimento dos pobres é uma curiosidade etimológica sobre a origem da alcunha, mas não demonstra que o documento tenha poder sobre a vida do autor — é uma nota de contexto cultural, não uma evidência do tema pedido.

C) O problema de identidade originado desde o berço.

✅ Correta: é exatamente essa a expressão usada pelo próprio Saramago para unificar os dois episódios documentais (nome imposto pelo funcionário e data de nascimento fraudada). Ao afirmar que o "problema de identidade" o acompanha "desde o berço", o autor evidencia que os registros oficiais determinaram, sem seu consentimento, quem ele era oficialmente — a prova mais direta e completa do poder dos documentos sobre a vida das pessoas.

D) A isenção da multa por falta de declaração do nascimento.

❌ Incorreta: é apenas a consequência prática da fraude na data — um efeito colateral (economia da família), não o fato que evidencia, em si, o poder do documento sobre a identidade do autor.

E) O seu nascimento em uma aldeia de camponeses.

❌ Incorreta: essa informação situa social e geograficamente o autor, mas não tem qualquer relação com documentos oficiais ou com o tema da questão.

🏆 Gabarito: C — o "problema de identidade originado desde o berço" é a formulação do próprio texto que sintetiza os dois episódios documentais (nome e data de nascimento alterados por terceiros), sendo a evidência mais direta do poder dos documentos oficiais sobre a vida das pessoas.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa C reproduz a síntese que o próprio autor oferece no texto ("problema de identidade... fadado no berço"), unificando os dois exemplos de interferência documental citados — por isso é a única alternativa que responde à pergunta sobre o poder dos documentos, e não apenas sobre um detalhe do relato.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente pede que o candidato distinga, dentro de um texto, o fato-evidência (que sustenta uma tese) de fatos-detalhe (que apenas ilustram ou contextualizam) — é um teste de hierarquização de informações, não de memorização de detalhes.
  • Generalização: quando o comando pergunta "qual fato evidencia [uma ideia/tese]", procure no texto a frase em que o próprio autor nomeia ou resume essa ideia; a alternativa correta tende a parafrasear exatamente essa frase-síntese, enquanto as demais reproduzem informações verdadeiras, porém periféricas.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de imediato as alternativas que citam informações "decorativas" do texto (curiosidades, cenários, consequências secundárias) e busque a que reflete a ideia central anunciada no próprio comando da questão.
  • Conexões: esse padrão de questão aparece também em textos jornalísticos e memorialísticos sobre burocracia e identidade civil, além de crônicas que discutem a relação entre indivíduo e registros do Estado — vale revisar questões sobre gêneros autobiográficos e sobre "vozes do texto" (discurso direto/indireto do narrador).

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