Mapa de questões · 1º dia
Questão 67 — ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia
Há outras razões fortes para promover a participação da população em eleições. Grande parte dela, particularmente os mais pobres, esteve sempre alijada do processo eleitoral no Brasil, não somente nos períodos ditatoriais, mas também nos democráticos. Na eleição de 1933, por exemplo, apenas 3,3% da população do país votaram. Em 1945, com a volta da democracia, foram parcos 13,4%. Em 1962, só 20% dos brasileiros foram às urnas.
KERCHE, F.; FERES JR., J. Um nobre dever. Revista de História da Biblioteca Nacional, n. 109, out. 2014.
O baixo índice de participação popular em eleições nos períodos mencionados ocorria em função da
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Cidadania e direitos políticos na República brasileira
- ⚡ Nível: Médio — exige cruzar as datas das eleições citadas com a legislação eleitoral vigente em cada momento, sem se confundir com distratores plausíveis
- 🎯 Tema/Habilidade: Restrições históricas ao direito de voto no Brasil; competência ligada à análise de processos de conquista e negação de direitos políticos
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual mecanismo legal explica por que tão poucas pessoas votaram no Brasil em 1933, 1945 e 1962?"
- Palavras-chave decisivas: 1933, volta da democracia (1945), 1962, alijada do processo eleitoral
- Armadilha típica: confundir a causa estrutural/legal da exclusão eleitoral com causas de manipulação política (coronelismo, voto de cabresto), que atuam sobre eleitores já alistados e não explicam o tamanho reduzido do eleitorado.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar a barreira jurídica que impedia grande parcela da população pobre de se tornar eleitora e que permaneceu ativa tanto em regimes ditatoriais quanto democráticos entre 1933 e 1962.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Voto censitário: exigência de renda mínima para votar, típica do período imperial; foi extinta pela Lei Saraiva (1881) e definitivamente abolida pela Constituição republicana de 1891.
- Exclusão dos analfabetos: as Constituições de 1891, 1934, 1937 e 1946 vedavam expressamente o alistamento eleitoral de quem não soubesse ler e escrever; essa proibição só foi revogada pela Constituição de 1988, que tornou o voto do analfabeto facultativo.
- Sufrágio feminino no Brasil: garantido pelo Código Eleitoral de 1932 e confirmado pela Constituição de 1934 — ou seja, já vigorava antes das três eleições citadas no texto.
- Voto obrigatório x facultativo: desde 1932 o voto é obrigatório para quem está alistado; o voto facultativo generalizado não existiu nesse período.
- Coronelismo e oligarquias: distorciam o resultado das eleições por meio de fraude e do "voto de cabresto", mas não impediam formalmente o alistamento — atuavam sobre um eleitorado já restrito, não sobre o tamanho da população apta a votar.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "particularmente os mais pobres, esteve sempre alijada do processo eleitoral" → aponta para uma exclusão associada à condição socioeconômica, que no Brasil se traduzia historicamente em baixíssimos índices de escolarização.
- Evidência 2: "não somente nos períodos ditatoriais, mas também nos democráticos" → exige uma causa contínua, presente tanto no Estado Novo (1933 foi eleição para a Assembleia Constituinte sob Vargas) quanto na democracia liberal de 1946-1964 (eleições de 1945 e 1962), descartando explicações ligadas a um decreto pontual de um único regime.
- Síntese: a explicação correta precisa ser uma regra jurídica permanente, mantida por sucessivas Constituições, que atingisse de forma desproporcional a população pobre — e essa regra era a exigência de alfabetização para votar.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Localizar a regra constitucional vigente no período
Desde a Constituição de 1891, o Brasil aboliu o voto censitário do Império, mas substituiu essa barreira por outra: a exigência de alfabetização. Analfabetos ficaram formalmente proibidos de se alistar como eleitores. Essa vedação foi repetida na Constituição de 1934 (que também instituiu o voto feminino), mantida na Carta autoritária de 1937 e reafirmada na Constituição de 1946 — exatamente a "volta da democracia" mencionada no texto. Somente a Constituição de 1988 (art. 14, §1º, II) tornou o voto do analfabeto facultativo, encerrando mais de um século de exclusão.
Subpasso 4.2 — Cruzar a lei com os dados de alfabetização da época
Entre as décadas de 1930 e 1960, o Brasil era um país majoritariamente rural e pobre, com índices de analfabetismo altíssimos: em 1940, cerca de 56% da população com 15 anos ou mais não sabia ler; em 1950, ainda em torno de 50%. Como os analfabetos estavam legalmente impedidos de votar, uma fatia enorme da população — justamente "os mais pobres" citados no texto — permanecia fora do eleitorado antes mesmo de qualquer manipulação política nas urnas.
Subpasso 4.3 — Verificação
Esse mecanismo explica coerentemente os três números do texto: em 1933 (Assembleia Constituinte, sob Vargas), em 1945 (redemocratização pós-Estado Novo) e em 1962 (eleições legislativas da democracia de 1946), a legislação eleitoral vedava o voto de quem não soubesse ler e escrever, e a maior parte da população pobre do país era analfabeta. Confrontando com as alternativas, apenas a opção que trata da proibição do voto de analfabetos é compatível com a persistência do fenômeno em regimes tão diferentes — o que confirma a alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) adoção do voto facultativo.
❌ Incorreta: o voto no Brasil era obrigatório para os cidadãos alistados desde o Código Eleitoral de 1932. O voto facultativo só passou a existir, de forma restrita, com a Constituição de 1988 (para analfabetos e jovens de 16 e 17 anos) — e mesmo assim não reduz o eleitorado, pois soma-se a ele; a facultatividade nunca foi a regra geral que explicaria eleitorados tão pequenos.
B) exclusão do sufrágio feminino.
❌ Incorreta: as mulheres conquistaram o direito de voto no Brasil em 1932, com o Código Eleitoral, direito confirmado pela Constituição de 1934. Assim, elas já podiam votar nas eleições de 1933, 1945 e 1962, o que torna essa alternativa incapaz de explicar a baixíssima participação nos três momentos citados.
C) interdição das pessoas analfabetas.
✅ Correta: as Constituições de 1891, 1934, 1937 e 1946 proibiam expressamente o alistamento eleitoral de analfabetos. Como a maioria da população pobre brasileira nessas décadas não sabia ler nem escrever, essa exigência excluía legalmente parcela imensa do povo do processo eleitoral, tanto em contexto ditatorial quanto democrático — exatamente o padrão descrito no texto de Kerche e Feres Jr.
D) exigência da comprovação de renda.
❌ Incorreta: o voto censitário (exigência de renda mínima) vigorou no período imperial e foi extinto pela Lei Saraiva, de 1881, sendo definitivamente abolido pela Constituição republicana de 1891, que passou a usar a alfabetização como critério de exclusão. Não havia mais exigência formal de renda nas eleições de 1933, 1945 e 1962.
E) influência dos interesses das oligarquias.
❌ Incorreta: o coronelismo e o "voto de cabresto" distorciam o resultado das eleições por meio de fraude, coação e manipulação de eleitores já alistados, mas não reduziam formalmente o tamanho do eleitorado. A explicação estatística para índices de comparecimento tão baixos (3,3%, 13,4%, 20%) é jurídica — a exclusão legal do analfabeto — e não apenas política.
🏆 Gabarito: C — a interdição constitucional do voto de analfabetos, somada às altíssimas taxas de analfabetismo entre a população pobre, é a única explicação compatível com a baixa participação eleitoral em 1933, 1945 e 1962, atravessando tanto regimes ditatoriais quanto democráticos.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a exclusão legal do voto de analfabetos, mantida por sucessivas Constituições até 1988, explica por que a baixa participação eleitoral persistiu independentemente do regime político e atingia desproporcionalmente os mais pobres.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra a evolução do direito de voto no Brasil — do voto censitário à exigência de alfabetização, passando pela conquista do sufrágio feminino em 1932 e chegando ao voto do analfabeto e dos jovens de 16 e 17 anos em 1988 — como eixo central de questões sobre cidadania e direitos políticos.
- Generalização: quando uma questão de história do voto no Brasil apresentar dados de baixa participação por várias décadas e sob regimes políticos diferentes, procure sempre uma barreira legal permanente, não um evento pontual associado a um único governo.
- Dica de eliminação rápida: verifique se a alternativa trata de um direito já conquistado antes do período citado (sufrágio feminino desde 1932, o que elimina B); lembre que o voto censitário terminou em 1881/1891 (eliminando D); e diferencie manipulação eleitoral, que não reduz o número de eleitores alistados, de exclusão legal, que reduz (eliminando E).
- Conexões: Lei Saraiva (1881) e o fim do voto censitário; Constituição de 1988 e a conquista do voto facultativo para analfabetos e jovens de 16-17 anos; conquista do sufrágio feminino no Brasil em 1932.
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