Mapa de questões · 1º dia
Questão 86 — ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia
Com a retração do binômio taylorismo/fordismo, vem ocorrendo uma redução do proletariado industrial, fabril, tradicional, manual, estável e especializado, herdeiro da era da indústria verticalizada do tipo taylorista e fordista. Esse proletariado vem diminuindo com a reestruturação produtiva do capital, dando lugar a formas mais desregulamentadas de trabalho, reduzindo fortemente o conjunto de trabalhadores estáveis por meio de empregos formais.
ANTUNES, R. O caracol e sua concha: ensaio sobre a nova morfologia do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2005.
Uma nova característica dos trabalhadores requerida pelas mudanças apresentadas no texto é o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Mundo do trabalho, reestruturação produtiva e flexibilização laboral
- ⚡ Nível: Fácil — o texto de Ricardo Antunes já entrega, de forma explícita, a chave da resposta ("formas mais desregulamentadas de trabalho"), bastando ao candidato traduzir esse conceito para a alternativa correspondente
- 🎯 Tema/Habilidade: Transformações no mundo do trabalho com a crise do taylorismo/fordismo e ascensão do toyotismo — Competência de Área 6 (H26/H27) de Ciências Humanas: compreender processos sociais e transformações do trabalho na sociedade contemporânea
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Diante da crise do modelo taylorista/fordista de produção, qual nova exigência passou a ser feita aos trabalhadores?"
- Palavras-chave decisivas: retração do taylorismo/fordismo, reestruturação produtiva, formas desregulamentadas de trabalho
- Armadilha típica: confundir "novas exigências do mercado de trabalho contemporâneo" com credenciais formais e estáveis (diploma, registro sindical, comprovação de experiência), que na verdade são características do modelo antigo, rígido e regulamentado — exatamente o que o texto diz estar em retração
- O que a resposta precisa demonstrar: a compreensão de que a reestruturação produtiva substitui a estabilidade e a especialização rígida por relações de trabalho mais fluidas, versáteis e adaptáveis, exigindo do trabalhador a capacidade de se ajustar a diferentes funções e contextos
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Taylorismo/fordismo: modelo de organização industrial do século XX baseado na produção em massa, na linha de montagem, na hiperespecialização de funções (cada operário executa uma tarefa fixa e repetitiva) e em vínculos empregatícios estáveis, com carteira assinada e carreira previsível dentro da mesma fábrica.
- Reestruturação produtiva: processo, iniciado a partir das décadas de 1970-1980, de reorganização do capitalismo diante de suas crises, marcado pela automação, pela terceirização, pela informatização e pela adoção de modelos mais enxutos de produção (como o toyotismo), que reduzem a necessidade de grandes contingentes de operários fixos.
- Flexibilização do trabalho: consequência direta da reestruturação produtiva; trabalhadores passam a exercer múltiplas funções, migrar entre setores e ocupações, aceitar contratos temporários, terceirizados ou informais, e se adaptar constantemente a novas demandas do mercado — é o oposto da estabilidade e da especialização única do modelo fordista.
- Precarização e informalidade: efeito social da flexibilização, em que direitos trabalhistas, estabilidade e proteção social se enfraquecem; o texto de Antunes é justamente uma crítica a esse cenário, denunciado no conceito de "nova morfologia do trabalho".
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "vem ocorrendo uma redução do proletariado industrial, fabril, tradicional, manual, estável e especializado" → mostra que o perfil antigo de trabalhador — fixo em uma função, com emprego duradouro — está em declínio.
- Evidência 2: "dando lugar a formas mais desregulamentadas de trabalho, reduzindo fortemente o conjunto de trabalhadores estáveis por meio de empregos formais" → indica diretamente que o novo cenário é marcado pela ausência de regras fixas, ou seja, por relações de trabalho variáveis, temporárias e adaptáveis, não mais amarradas a um único posto ou função.
- Síntese: o texto descreve uma transição de um modelo rígido (estável, especializado, regulamentado) para um modelo desregulamentado (instável, multifuncional, sem garantias formais). A "nova característica requerida" dos trabalhadores é, portanto, justamente a capacidade de se adaptar a essa instabilidade — a flexibilidade.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o eixo da mudança descrita no texto
Ricardo Antunes contrapõe dois modelos de organização do trabalho. De um lado, o proletariado "tradicional, manual, estável e especializado" da era taylorista/fordista, que ocupava um posto fixo, executava uma função específica ao longo de toda a carreira e contava com vínculo empregatício formal e protegido. De outro, o cenário que emerge da reestruturação produtiva do capital: "formas mais desregulamentadas de trabalho", com redução dos "trabalhadores estáveis por meio de empregos formais". O eixo da mudança é claro: de rigidez e especialização única para desregulamentação e variabilidade.
Subpasso 4.2 — Traduzir a mudança estrutural em exigência sobre o trabalhador
Se o mercado de trabalho deixa de oferecer postos fixos e especializados, o trabalhador precisa, para se manter empregável, ser capaz de circular entre diferentes funções, setores e formas de contratação (temporária, terceirizada, por projeto, informal). Essa capacidade de se adaptar a múltiplas ocupações e contextos de trabalho — em vez de dominar apenas uma tarefa fixa por décadas, como no fordismo — é precisamente o que se entende por flexibilidade no exercício da ocupação. É esse traço, e não credenciais formais (diploma, registro sindical, experiência comprovada em uma função específica), que a reestruturação produtiva passa a exigir.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando a conclusão com as cinco alternativas: formação em nível superior, registro sindical, experiência comprovada e obediência a normas de segurança são exigências ligadas à formalização, à regulamentação e à especialização — exatamente o que o texto diz estar em retração. Apenas "flexibilidade no exercício da ocupação" (alternativa D) espelha o conceito central do trecho: a desregulamentação das relações de trabalho, que impõe ao trabalhador versatilidade e capacidade de adaptação a funções e vínculos variáveis. A resposta converge, sem ambiguidade, para a alternativa D.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) formação em nível superior.
❌ Incorreta: o texto não trata de qualificação acadêmica ou escolaridade, mas de relações de trabalho e vínculos empregatícios. Exigir formação superior é uma lógica de credencialismo formal, que pouco tem a ver com a desregulamentação descrita por Antunes — aliás, muitos dos empregos precarizados e informais criados pela reestruturação produtiva não exigem ensino superior.
B) registro em organização sindical.
❌ Incorreta: o sindicalismo é uma instituição típica do modelo fordista de trabalho estável e regulamentado, justamente o modelo que está em retração segundo o texto. A desregulamentação tende a enfraquecer, e não fortalecer, a filiação sindical, pois o trabalho informal e temporário dificulta a organização coletiva dos trabalhadores.
C) experiência profissional comprovada.
❌ Incorreta: comprovar experiência em uma função é uma lógica de especialização e continuidade de carreira — exatamente o perfil do "proletariado tradicional, manual, estável e especializado" que o texto afirma estar diminuindo. A nova morfologia do trabalho valoriza a versatilidade, não o acúmulo de experiência especializada em uma única ocupação.
D) flexibilidade no exercício da ocupação.
✅ Correta: é a tradução direta do conceito de "formas mais desregulamentadas de trabalho" apresentado no texto. Com a redução dos empregos formais e estáveis, o trabalhador passa a precisar se adaptar a múltiplas funções, contratos variáveis e mudanças constantes de ocupação — a flexibilidade se torna a característica central exigida pelo novo regime de acumulação capitalista.
E) obediência às normas de segurança laboral.
❌ Incorreta: normas de segurança do trabalho fazem parte do arcabouço regulatório e protetivo típico do emprego formal, que o texto descreve como estando em declínio. A desregulamentação tende, inclusive, a fragilizar esse tipo de proteção, e não a reforçá-la como exigência central do novo trabalhador.
🏆 Gabarito: D — a flexibilidade no exercício da ocupação é a resposta direta do trabalhador à desregulamentação e à instabilidade impostas pela reestruturação produtiva do capital, substituindo a estabilidade e a especialização única do modelo taylorista/fordista.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a flexibilidade dialoga diretamente com o conceito de "formas desregulamentadas de trabalho" citado no texto; as demais alternativas descrevem exigências de estabilidade, formalização ou especialização, contrárias ao que Antunes descreve.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa trechos de sociólogos do trabalho (Ricardo Antunes é um dos mais citados) para cobrar a compreensão da transição do fordismo para modelos flexíveis de acumulação (toyotismo, terceirização, uberização), sempre associando esse processo à precarização e à perda de direitos trabalhistas.
- Generalização: sempre que um texto descrever a "crise", "retração" ou "reestruturação" do modelo fordista/taylorista, a resposta esperada gira em torno de conceitos como flexibilização, desregulamentação, precarização, terceirização e polivalência — nunca em torno de estabilidade, especialização rígida ou formalização.
- Dica de eliminação rápida: leia as alternativas procurando palavras que remetam a "fixação" (formação específica, registro, comprovação de experiência, normas fixas) — elas tendem a estar erradas em questões sobre reestruturação produtiva, pois representam o modelo antigo; a alternativa correta costuma trazer termos como "flexibilidade", "adaptação" ou "polivalência".
- Conexões: toyotismo e produção enxuta (just-in-time); uberização e economia de plataformas como desdobramento contemporâneo da flexibilização do trabalho.
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