Mapa de questões · 1º dia
Questão 51 — ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia
Por força da industrialização da cultura, desde o começo do filme já se sabe como ele termina, quem é recompensado e, ao escutar a música, o ouvido treinado é perfeitamente capaz, desde os primeiros compassos, de adivinhar o desenvolvimento do tema e sente-se feliz quando ele tem lugar como previsto.
ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.
A crítica ao tipo de criação mencionada no texto teve como alvo, no campo da arte, a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Escola de Frankfurt e crítica à indústria cultural
- ⚡ Nível: Médio — o texto de Adorno e Horkheimer traz vocabulário filosófico denso, mas o próprio trecho fornece as pistas necessárias para localizar o alvo da crítica
- 🎯 Tema/Habilidade: Crítica da Teoria Crítica (Escola de Frankfurt) à indústria cultural / compreender processos sociais decorrentes da relação entre cultura de massa e produção industrial
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que, na produção artística, foi alvo da crítica de Adorno e Horkheimer ao descreverem obras previsíveis desde o início?"
- Palavras-chave decisivas: industrialização da cultura, já se sabe como termina, adivinhar o desenvolvimento
- Armadilha típica: confundir o alvo da crítica com a distribuição das obras (cinema, rádio, indústria fonográfica como aparato administrativo) em vez do modo de criação delas — daí o risco de marcar a alternativa A.
- O que a resposta precisa demonstrar: entender que a previsibilidade descrita (do filme, da música) resulta de fórmulas repetidas na hora de compor a obra, não de equipamentos, estilos abstratos ou formas de veiculação.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Escola de Frankfurt: grupo de filósofos e sociólogos (Adorno, Horkheimer, Marcuse, Benjamin) que, a partir da Teoria Crítica, analisaram como a razão instrumental e o capitalismo moldam a cultura e a subjetividade no século XX.
- Indústria cultural: conceito criado por Adorno e Horkheimer em Dialética do Esclarecimento para nomear a produção de bens culturais (cinema, música popular, rádio, TV) segundo a lógica de uma linha de produção industrial — em série, padronizada e voltada ao consumo em massa.
- Padronização: repetição sistemática de fórmulas, esquemas narrativos e estruturas harmônicas testadas e aprovadas comercialmente, que tornam cada novo produto cultural previsível e de fácil digestão pelo público.
- Pseudoindividualização: artifício da indústria cultural que disfarça essa padronização, dando a cada produto uma aparência de originalidade (um detalhe, um toque "novo") enquanto mantém intacta a fórmula de base.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "força da industrialização da cultura" → afirma explicitamente que a produção artística passou a seguir uma lógica industrial, e não mais uma lógica de criação autoral e singular.
- Evidência 2: "desde o começo do filme já se sabe como ele termina, quem é recompensado" → mostra que o roteiro segue um esquema fixo e reconhecível, repetido de obra para obra.
- Evidência 3: "o ouvido treinado é perfeitamente capaz [...] de adivinhar o desenvolvimento do tema" → estende o mesmo raciocínio à música: a estrutura harmônica e melódica segue convenções tão repetidas que se tornam previsíveis a quem já as ouviu antes.
- Síntese: as três evidências convergem para um único ponto — não é o suporte, nem a tecnologia, nem o modo de distribuição que geram a previsibilidade, mas o próprio processo de composição, reduzido a fórmulas fixas e repetíveis. É exatamente isso que os autores criticam: a padronização das técnicas usadas para compor filmes e músicas.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o fenômeno descrito no texto
Adorno e Horkheimer descrevem um efeito muito específico: o espectador ou ouvinte, mesmo sem ainda ter visto o final do filme ou ouvido o resto da música, já consegue prevê-lo. Isso só é possível porque a obra foi composta segundo um molde reconhecível — um roteiro-tipo de Hollywood, uma progressão harmônica convencional da música popular. O fenômeno não está no aparelho de reprodução (rádio, projetor) nem no canal de venda, mas na fórmula usada para criar a obra.
Subpasso 4.2 — Relacionar previsibilidade à padronização das técnicas de composição
Para os frankfurtianos, a indústria cultural funciona como uma fábrica: assim como produtos industriais seguem um padrão de montagem para reduzir custo e garantir resultado, as obras culturais passam a seguir "padrões de composição" — esquemas de roteiro, clichês musicais, fórmulas de efeito garantido — que asseguram sucesso comercial e consumo fácil. O "ouvido treinado" do texto é justamente o público condicionado a reconhecer esses padrões, prova de que eles se repetem seguidamente. Essa é a crítica central: a arte deixa de ser experimentação única para se tornar produção em série de fórmulas.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando esse raciocínio com as alternativas, apenas a opção que fala em "padronização das técnicas de composição" nomeia com precisão o que o texto descreve: a repetição de esquemas fixos na criação de filmes e músicas, que torna o desfecho previsível. As demais alternativas deslocam o foco para outros elementos (distribuição, estilo abstrato, tecnologia, experimentação) que não aparecem no trecho.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) burocratização do processo de difusão.
❌ Incorreta: o texto não trata de como as obras são distribuídas ou administradas (difusão), mas de como elas são criadas — o roteiro do filme e a estrutura da música. Burocratização remeteria a órgãos, contratos e canais de veiculação, tema ausente do trecho.
B) valorização da representação abstrata.
❌ Incorreta: a indústria cultural criticada por Adorno e Horkheimer opera exatamente ao contrário — produz arte figurativa, de fácil compreensão e apelo popular (cinema comercial, canção popular), e não formas abstratas ou de vanguarda, que exigiriam do público um esforço interpretativo incompatível com o consumo passivo descrito no texto.
C) padronização das técnicas de composição.
✅ Correta: a previsibilidade do enredo do filme e do desenvolvimento musical só existe porque ambos foram compostos segundo fórmulas repetidas e testadas — exatamente o que os autores chamam de padronização. É o alvo direto da crítica: a arte reduzida a esquema de produção em série.
D) sofisticação dos equipamentos disponíveis.
❌ Incorreta: o trecho nada diz sobre avanços técnicos de câmeras, projetores ou instrumentos de gravação. A crítica recai sobre o conteúdo previsível da obra, não sobre a qualidade ou complexidade do maquinário usado para produzi-la.
E) ampliação dos campos de experimentação.
❌ Incorreta: o texto descreve o oposto de experimentação — trata-se de repetição de fórmulas conhecidas, que elimina o risco criativo e a inovação. Quanto mais previsível a obra, menor a experimentação artística envolvida em sua composição.
🏆 Gabarito: C — a crítica de Adorno e Horkheimer mira exatamente a padronização das técnicas de composição: filmes e músicas passam a seguir fórmulas fixas e repetidas, o que torna seu desenvolvimento previsível ao público já condicionado por esse padrão.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C nomeia o processo descrito no texto — a repetição de fórmulas de criação (roteiro, harmonia) que torna a obra previsível; nenhuma outra alternativa trata do modo de composição da obra.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorre com frequência a trechos de Adorno e Horkheimer sobre indústria cultural, sempre destacando a padronização, a serialização e a mercantilização de produtos culturais (cinema, música, TV, propaganda) como estratégias de manutenção do consumo passivo das massas.
- Generalização: sempre que um enunciado citar autores da Escola de Frankfurt e descrever obras "previsíveis", "repetitivas" ou "fáceis de antecipar", a resposta correta gira em torno da padronização/serialização da produção cultural, não de tecnologia, estilo artístico ou distribuição.
- Dica de eliminação rápida: elimine de imediato alternativas que fogem do núcleo "processo de criação" — termos como "equipamentos", "difusão" e "abstração" tratam de outras dimensões (tecnologia, logística, estética de vanguarda) e não do que o texto realmente descreve.
- Conexões: o tema dialoga com os conceitos de alienação cultural, semiformação (Halbbildung) e fetichismo da mercadoria (Marx), todos explorando como a lógica capitalista transforma a cultura em produto padronizado de consumo em massa.
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