Mapa de questões · 2º dia
Questão 92 — ENEM 2020 Digital
Metais são contaminantes encontrados em efluentes oriundos de diversas atividades antrópicas. Dentre esses, o mercúrio (Hg) é aquele que apresenta a maior toxicidade e o único metal que reconhecidamente causou óbitos em humanos em razão de contaminação pela via ambiental, particularmente pela ingestão de organismos aquáticos contaminados. Considere que, em um ecossistema aquático cujas águas foram contaminadas por mercúrio, esse metal será incorporado pelos organismos integrantes de toda a cadeia alimentar nos diferentes níveis tróficos.
LACERDA, L. D.; MALM, O. Contaminação por mercúrio em ecossistemas aquáticos: uma análise das áreas críticas.
Estudos Avançados , n. 63, 2008 (adaptado).
Na situação apresentada, as concentrações relativas de mercúrio encontradas nos organismos serão
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Biologia → Ecologia (cadeias alimentares e magnificação trófica)
- ⚡ Nível: Médio — exige distinguir bioacumulação de biomagnificação e interpretar uma alternativa escrita "de trás para frente"
- 🎯 Tema/Habilidade: Concentração de poluentes ao longo dos níveis tróficos de um ecossistema aquático; compreender interações entre organismos e impactos ambientais na saúde humana
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Como a concentração de mercúrio se distribui entre os diferentes níveis tróficos de uma cadeia alimentar aquática contaminada?"
- Palavras-chave decisivas: incorporado, toda a cadeia alimentar, diferentes níveis tróficos
- Armadilha típica: inverter o sentido do acúmulo — achar que a concentração diminui do topo para a base, ou supor que ela é a mesma em todos os elos da cadeia
- O que a resposta precisa demonstrar: que a concentração de mercúrio cresce progressivamente à medida que se sobe na cadeia alimentar, dos produtores até os consumidores de maior nível trófico
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Bioacumulação: processo pelo qual um organismo absorve uma substância tóxica em ritmo mais rápido do que consegue eliminá-la, acumulando-a progressivamente em seus tecidos ao longo da vida.
- Biomagnificação (magnificação trófica): aumento da concentração de uma substância tóxica a cada nível trófico da cadeia alimentar, porque cada predador consome muitas presas contaminadas e retém a maior parte do poluente ingerido.
- Metilmercúrio: bactérias presentes nos sedimentos aquáticos convertem o mercúrio inorgânico despejado por efluentes em metilmercúrio, forma orgânica lipossolúvel que se liga a proteínas e gorduras dos tecidos e é pouco excretada — por isso tende a se acumular e se magnificar.
- Níveis tróficos da cadeia aquática: produtores (fitoplâncton, algas) → consumidores primários (zooplâncton, peixes herbívoros) → consumidores secundários (peixes carnívoros) → consumidores terciários (peixes de topo, aves piscívoras e, eventualmente, o ser humano).
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "esse metal será incorporado pelos organismos integrantes de toda a cadeia alimentar nos diferentes níveis tróficos" → mostra que o mercúrio não fica restrito a um único elo; ele passa de presa para predador através das relações alimentares.
- Evidência 2: "o único metal que reconhecidamente causou óbitos em humanos... pela ingestão de organismos aquáticos contaminados" → os humanos, ao consumir peixes de níveis tróficos elevados, são os mais intoxicados, o que só faz sentido se a concentração for maior justamente nos consumidores de topo.
- Síntese: a questão pede a relação entre concentração de mercúrio e posição na cadeia trófica. A lógica ecológica correta é a da biomagnificação: quanto mais alto o nível trófico, maior a concentração acumulada no organismo.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — A entrada do mercúrio no ecossistema aquático
O mercúrio lançado em efluentes industriais ou de garimpo se deposita nos sedimentos do corpo d'água. Ali, bactérias anaeróbias o metabolizam e o transformam em metilmercúrio, composto lipossolúvel que penetra facilmente nas membranas celulares. Os produtores primários (fitoplâncton e algas) absorvem esse metilmercúrio diretamente da água, incorporando pequenas quantidades em seus tecidos — o primeiro elo da cadeia contaminada.
Subpasso 4.2 — Transferência e amplificação ao longo dos níveis tróficos
Os consumidores primários se alimentam de grande quantidade de produtores contaminados. Como o metilmercúrio é pouco excretado, ele não é eliminado na mesma velocidade em que é ingerido, e passa a se acumular nos tecidos do consumidor em concentração maior do que a de um produtor isolado. Esse padrão se repete a cada elo seguinte: o consumidor secundário precisa comer muitos consumidores primários contaminados para se alimentar, e o consumidor terciário precisa comer muitos secundários. Como cada predador consome, ao longo da vida, uma biomassa de presas muito maior do que seu próprio peso corporal, ele concentra em si todo o mercúrio presente nessas presas. O resultado é um efeito cumulativo: a cada nível trófico, a concentração de mercúrio por unidade de massa corporal aumenta — é o fenômeno da biomagnificação (ou magnificação trófica).
Subpasso 4.3 — Verificação
Se a concentração cresce dos produtores para os consumidores de maior ordem, então os organismos de níveis tróficos mais baixos apresentam concentrações mais baixas de mercúrio do que os organismos de níveis tróficos mais altos. Essa é exatamente a relação descrita — de forma invertida, começando pelo termo "mais baixas" — na alternativa E, e é coerente com o relato do texto-base de que humanos (consumidores de topo) foram os únicos a morrer por contaminação ambiental via ingestão de peixes.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) mais altas nos produtores do que nos decompositores.
❌ Incorreta: a questão trata da progressão de concentração ao longo da cadeia de predação (produtores → consumidores), e não de uma comparação com decompositores. Além disso, essa afirmação nega o próprio sentido da biomagnificação, que é de aumento — e não de redução — da concentração à medida que se avança pelos níveis tróficos consumidores.
B) iguais para todos nos diferentes níveis tróficos da cadeia alimentar.
❌ Incorreta: nega diretamente o fenômeno da biomagnificação. Se as concentrações fossem iguais em todos os níveis, não haveria explicação para o próprio texto afirmar que os organismos de topo da cadeia (incluindo humanos, via ingestão de peixes) são os mais gravemente intoxicados por mercúrio.
C) mais baixas nos consumidores secundários e terciários do que nos produtores.
❌ Incorreta: inverte completamente a lógica da magnificação trófica, descrevendo uma diluição do poluente à medida que se sobe na cadeia, quando na realidade ocorre justamente o oposto — concentração crescente nos níveis mais altos.
D) mais altas nos consumidores primários do que nos consumidores de maior ordem.
❌ Incorreta: também inverte a tendência real. Por essa lógica, o nível mais baixo entre os consumidores teria mais mercúrio do que os predadores de topo, contrariando o princípio de que a concentração aumenta a cada elo da cadeia alimentar.
E) mais baixas nos de níveis tróficos de menor ordem do que nos de níveis tróficos mais altos.
✅ Correta: descreve com precisão a biomagnificação — a concentração de mercúrio é menor nos produtores e consumidores primários (níveis tróficos de menor ordem) e maior nos consumidores secundários e terciários (níveis tróficos mais altos), explicando por que os organismos de topo da cadeia, inclusive humanos, sofrem os efeitos mais graves da contaminação.
🏆 Gabarito: E — é a única alternativa que descreve corretamente o aumento progressivo da concentração de mercúrio conforme se avança pelos níveis tróficos, fenômeno da biomagnificação.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a letra E é a única alternativa compatível com a biomagnificação, processo pelo qual poluentes lipossolúveis e pouco excretáveis se concentram cada vez mais nos organismos à medida que sobem na cadeia alimentar.
- Padrão de cobrança: o ENEM explora recorrentemente bioacumulação e biomagnificação em contextos de poluição aquática (mercúrio, agrotóxicos como o DDT, metais pesados em geral), sempre relacionando o fenômeno ecológico a impactos na saúde humana.
- Generalização: sempre que um poluente lipossolúvel e de baixa taxa de excreção entra em uma cadeia alimentar, sua concentração tende a aumentar nos níveis tróficos superiores — essa é a regra geral da biomagnificação, aplicável a qualquer questão semelhante.
- Dica de eliminação rápida: descarte imediatamente qualquer alternativa que afirme concentrações "iguais" em todos os níveis (nega o fenômeno) ou que inverta a ordem, dizendo que produtores ou consumidores primários têm mais poluente do que predadores de topo — a lógica ecológica real é sempre crescente, da base para o topo da cadeia.
- Conexões: a doença de Minamata (Japão, intoxicação histórica em massa por mercúrio despejado em baía costeira) e o efeito do DDT no afinamento da casca de ovos de aves de rapina são exemplos clássicos de biomagnificação frequentemente cobrados junto a esse tema.
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