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Mapa de questões · 2º dia
NaturezaBiologiaMédio

Questão 100ENEM 2020 Digital

Os frutos da pupunha têm cerca de 1 g em populações silvestres no Acre, mas chegam a 70 g em plantas domesticadas por populações indígenas. No princípio, porém, a domesticação não era intencional. Os grupos humanos apenas identificavam vegetais mais saborosos ou úteis, e sua propagação se dava pelo descarte de sementes para perto dos sítios habitados.

DÓRIA, C. A.; VIEIRA, I. C. G. Iguarias da floresta. Ciência Hoje , n. 310, dez. 2013.

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Biologia → Genética de Populações e Evolução (seleção artificial)
  • ⚡ Nível: Médio — exige conectar um relato etnobotânico com o conceito abstrato de frequência alélica em uma população.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Domesticação de plantas como forma de seleção artificial que altera a composição genética das populações ao longo de gerações.
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que acontece, geneticamente, quando humanos escolhem sementes de frutos mais saborosos/úteis e as replantam perto de onde vivem, geração após geração?"
  • Palavras-chave decisivas: descarte seletivo de sementes, mais saborosos ou úteis, domesticação não intencional
  • Armadilha típica: confundir "seleção de características desejáveis" com "criação de genes novos" (alternativa A) ou com "resistência a doenças" (alternativa E), temas que não aparecem no texto-base.
  • O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a seleção artificial atua sobre a variabilidade genética já existente na população, favorecendo a reprodução diferencial dos indivíduos com o alelo de interesse — não criando genes nem introduzindo material genético externo.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Seleção artificial: processo pelo qual o ser humano, consciente ou inconscientemente, escolhe reprodutores (ou sementes) com características desejadas, aumentando a chance de essas características passarem às gerações seguintes. É análoga à seleção natural, mas o "agente selecionador" é humano, não o ambiente.
  • Frequência alélica: proporção de um determinado alelo em relação ao total de alelos daquele gene numa população. Ela muda ao longo do tempo quando há reprodução diferencial — indivíduos com certo alelo deixam, proporcionalmente, mais descendentes que os demais.
  • Domesticação: processo evolutivo de longo prazo em que populações selvagens são moldadas, por seleção (natural e/ou artificial), para viver em associação com humanos, geralmente com perda de características selvagens e ganho de traços úteis ao homem (aqui, frutos maiores).
  • Reprodução diferencial: mecanismo central da evolução por seleção — não é o ambiente (ou o humano) que "cria" a variação genética; ele apenas favorece a multiplicação de variantes já existentes na população.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "os frutos da pupunha têm cerca de 1 g em populações silvestres [...] mas chegam a 70 g em plantas domesticadas" → mostra o resultado final da seleção: uma característica quantitativa (massa do fruto) foi drasticamente amplificada na população cultivada em relação à silvestre.
  • Evidência 2: "os grupos humanos apenas identificavam vegetais mais saborosos ou úteis, e sua propagação se dava pelo descarte de sementes para perto dos sítios habitados" → revela o mecanismo: humanos escolhiam (mesmo sem intenção consciente de "melhorar geneticamente" a planta) sementes de indivíduos com o fenótipo desejado e as replantavam preferencialmente, repetindo esse ciclo por gerações.
  • Síntese: ao descartar de forma recorrente sementes de plantas com frutos maiores/mais saborosos perto das aldeias, os indígenas favoreceram a germinação e a reprodução dessas plantas específicas. Isso é, por definição, reprodução diferencial dirigida pelo homem — ou seja, seleção artificial —, cujo efeito genético é aumentar, geração após geração, a frequência dos alelos responsáveis pelo fenótipo "fruto grande/saboroso" na população cultivada.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o tipo de processo evolutivo descrito

O texto narra uma domesticação: uma população selvagem (pupunha do Acre, frutos ~1 g) dá origem, ao longo de gerações, a uma população cultivada com fenótipo muito diferente (frutos de até 70 g). Não há qualquer menção a cruzamento com outra espécie, radiação, mutágenos ou engenharia genética — apenas escolha humana de sementes e replantio perto das habitações. Isso classifica o processo como seleção artificial, um caso particular de seleção (assim como a seleção natural), em que o agente selecionador é o comportamento humano de escolher e propagar certos indivíduos.

Subpasso 4.2 — Traduzir o processo em termos de genética de populações

Toda população selvagem já apresenta variabilidade genética: existiam, entre as pupunheiras do Acre, indivíduos com alelos que geravam frutos ligeiramente maiores ou mais saborosos que a média, mesmo antes de qualquer intervenção humana (variação ao acaso, produto de mutação e recombinação prévias). Ao identificar esses vegetais "mais saborosos ou úteis" e descartar suas sementes perto dos sítios habitados, os grupos indígenas aumentavam sistematicamente as chances de germinação e reprodução justamente dos indivíduos portadores desses alelos favoráveis — enquanto plantas com frutos pequenos e sem interesse não recebiam esse "transporte preferencial" de sementes. Repetido por muitas gerações, esse viés de reprodução desloca a proporção de alelos na população: os alelos ligados a frutos maiores tornam-se cada vez mais frequentes, até dominarem a população cultivada. Esse é exatamente o significado de aumento da frequência de alelos de interesse.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando com o resultado descrito (frutos passando de ~1 g para ~70 g), o modelo bate perfeitamente: um efeito fenotípico tão intenso e direcionado só é explicado por várias gerações de reprodução diferencial acumulando os mesmos alelos favoráveis, ou seja, por mudança na frequência alélica da população — não por introdução de genes novos, nem por perda de mutação, nem por maior diversidade genética (pelo contrário: a seleção tende a reduzir a diversidade, concentrando os alelos "de interesse"). Isso confirma a alternativa D.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) introdução de novos genes.

❌ Incorreta: o texto não descreve nenhum mecanismo capaz de introduzir genes novos na população (como mutação induzida, hibridização com outra espécie ou transgenia). O que ocorre é a seleção de alelos que já existiam na variabilidade natural da população silvestre — a domesticação atua sobre genes preexistentes, não os cria.

B) redução da pressão de mutação.

❌ Incorreta: pressão de mutação é a taxa com que mutações surgem espontaneamente no material genético; ela não é mencionada nem alterada pelo relato. O texto fala de escolha de sementes por fenótipo, um fenômeno de seleção, não de mudança na taxa mutacional da espécie.

C) diminuição da uniformidade genética.

❌ Incorreta: é o oposto do que a seleção artificial causa. Ao favorecer repetidamente os mesmos alelos (frutos grandes/saborosos) em detrimento dos demais, o processo tende a aumentar a uniformidade genética da população cultivada (menor diversidade), não a diminuí-la — fenômeno inclusive bem documentado em espécies domesticadas, que costumam ter variabilidade genética reduzida em comparação às populações silvestres de origem.

D) aumento da frequência de alelos de interesse.

✅ Correta: a escolha humana repetida de sementes de plantas com frutos maiores e mais saborosos, associada ao plantio preferencial perto dos sítios habitados, configura reprodução diferencial dirigida — mecanismo clássico de seleção artificial. Seu efeito genético direto é elevar, ao longo das gerações, a proporção dos alelos ligados ao fenótipo desejado (fruto grande/saboroso) na população, exatamente o que se observa no salto de 1 g para 70 g.

E) expressão de genes de resistência a patógenos.

❌ Incorreta: o texto trata exclusivamente de sabor e utilidade dos frutos (características relacionadas ao tamanho/palatabilidade), sem qualquer referência a doenças, patógenos ou resistência biótica. Trazer esse tema para a resposta seria extrapolar informação que não está no enunciado.

🏆 Gabarito: D — a seleção humana repetida de sementes de plantas com frutos maiores/mais saborosos, propagadas perto das aldeias, promove reprodução diferencial que aumenta, geração após geração, a frequência dos alelos responsáveis por esse fenótipo na população domesticada.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa D descreve corretamente o mecanismo genético por trás da domesticação relatada — mudança na frequência alélica por reprodução diferencial induzida pelo homem, sem criação de genes novos, sem alteração de taxa de mutação e sem aumento de diversidade genética.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa relatos de domesticação de plantas ou animais (milho, cães, gado, e agora pupunha) como estudo de caso para testar se o aluno entende seleção artificial como um caso particular de seleção — sempre pedindo a tradução do relato histórico/etnobotânico para o vocabulário técnico da genética de populações (frequência alélica, variabilidade, reprodução diferencial).
  • Generalização: sempre que um texto descrever "escolha humana de indivíduos com característica X, propagados preferencialmente", a resposta correta em genética será quase sempre sobre mudança na frequência de alelos já existentes — nunca sobre criação de genes novos (isso exigiria mutação ou engenharia genética explicitamente citada).
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa que fale em "introdução"/"novos genes" (não há fonte externa de DNA no relato) e qualquer alternativa sobre "resistência a patógenos" quando o texto só fala de sabor/tamanho — são extrapolações que não aparecem no enunciado.
  • Conexões: o mesmo raciocínio aparece em questões sobre seleção natural (evolução por Darwin), melhoramento genético de plantas cultivadas e resistência de pragas a inseticidas — todos são exemplos de mudança na frequência alélica de uma população por reprodução diferencial.

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