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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaDifícil

Questão 90ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia

TEXTO I

Nunca se soube tanto da vida e aparência dos outros, graças à postagem e ao compartilhamento de imagens. Uma comissão parlamentar britânica constatou que meninas de até cinco anos de idade já se preocupam com peso e aparência. Outro sintoma do problema, segundo um relatório da comissão, foi o aumento das taxas de cirurgia plástica no país, de cerca de 20% desde 2008.

ROXBY, P. Disponível em: www.bbc.com. Acesso em: 9 dez. 2018.

TEXTO II

Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação.

DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2017.

Os textos apontam a centralidade da circulação imagética na sociedade contemporânea, uma vez que realçam a

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Teoria Crítica da Sociedade, Guy Debord e a "Sociedade do Espetáculo" (com pano de fundo no fetichismo da mercadoria de Marx)
  • ⚡ Nível: Difícil — exige transportar um conceito filosófico abstrato (a substituição do "vivido" pela "representação") para um caso concreto de mídia e corpo, sem que nenhum dos dois textos nomeie diretamente a resposta certa.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Sociedade do espetáculo, cultura de massa e circulação de imagens; habilidade de sintetizar dois textos de naturezas diferentes (reportagem e teoria) em um único conceito sociológico comum.
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que os dois textos, juntos, revelam sobre o papel central da circulação de imagens hoje?"
  • Palavras-chave decisivas: espetáculo, representação, diretamente vivido
  • Armadilha típica: confundir o assunto geral (aparência, corpo, cirurgia plástica) com a resposta certa, marcando alternativas que descrevem sintomas pontuais (vínculos afetivos, padrões corporais, mercado, intimidade) em vez do mecanismo estrutural que os dois textos, somados, evidenciam.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o Texto II fornece a chave teórica para o dado empírico do Texto I — a transformação da experiência vivida em imagem exibida e consumida.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Sociedade do espetáculo (Guy Debord, 1967): nas sociedades capitalistas avançadas, as relações sociais deixam de ser diretamente vividas e passam a ser mediadas por imagens; o "espetáculo" é a vida social convertida em representação a ser contemplada e consumida.
  • Fetichismo da mercadoria (Karl Marx): conceito-base da crítica de Debord — numa economia de mercado, relações entre pessoas se apresentam como relações entre coisas (mercadorias), ocultando o processo social que as produziu.
  • Fetichização da experiência vivida: desdobramento debordiano do conceito marxista — não só a mercadoria vira fetiche, mas a própria vivência (um corpo, um momento) passa a valer pela capacidade de virar imagem compartilhável, não pelo que significou para quem a viveu.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1 (Texto I): "Nunca se soube tanto da vida e aparência dos outros, graças à postagem e ao compartilhamento de imagens" → o conhecimento social hoje passa pela imagem exibida, não pelo convívio direto; crianças de até cinco anos já internalizam a aparência como valor a ser exibido.
  • Evidência 2 (Texto II): "Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação" → Debord nomeia o mecanismo: a experiência real (o vivido) desaparece, substituída pela sua representação — a imagem, o espetáculo.
  • Síntese: os dois textos descrevem o mesmo processo em registros diferentes — o Texto I relata o sintoma (corpos e aparências viram objeto de exposição e cirurgia), o Texto II fornece o conceito que o explica (o vivido se converte em representação consumida). O elo é a transformação da experiência real em imagem-mercadoria, isto é, sua fetichização.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o fio condutor comum aos dois textos

O Texto I é empírico: um relato da BBC sobre comissão parlamentar britânica que constatou meninas de até cinco anos preocupadas com peso e aparência, além de alta de cerca de 20% nas cirurgias plásticas desde 2008 — um efeito social observável. O Texto II é teórico: não fala de corpos ou cirurgias, mas do funcionamento geral da sociedade contemporânea. A questão pede a ponte entre os dois: qual conceito do Texto II explica o fenômeno do Texto I?

Subpasso 4.2 — Aplicar o conceito de Debord ao caso concreto

Debord afirma que "tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação". Aplicando ao Texto I: a aparência deixa de ser um atributo pessoal, sentido por quem o possui, e vira produto a ser exibido, fotografado e validado publicamente (curtidas, comparações). Por isso meninas de cinco anos já orientam a autoimagem pelo critério "como serei vista" — não "como me sinto". A experiência do próprio corpo é substituída pela sua imagem, pronta para circular. Esse deslocamento — da vivência real para a imagem consumida como mercadoria simbólica — é a fetichização da experiência vivida.

Subpasso 4.3 — Verificação

Só a opção B nomeia com precisão esse mecanismo: "fetichização" remete à transformação de algo vivido em objeto de consumo e contemplação; "experiência vivida" ecoa o próprio termo de Debord ("diretamente vivido"). As demais alternativas citam consequências pontuais (vínculos, mercado, padrões corporais, intimidade), não o processo estrutural comum aos dois textos.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) fragilização de vínculos afetivos.

❌ Incorreta: nenhum dos dois textos trata de laços afetivos entre pessoas — o foco é a substituição da vivência real pela sua imagem, tema ausente em ambos os trechos.

B) fetichização da experiência vivida.

✅ Correta: sintetiza a tese de Debord ("o vivido se esvai na representação") e explica o dado do Texto I — a aparência e o corpo, antes vividos e sentidos, tornam-se produtos exibidos e consumidos como imagem, isto é, viram fetiche.

C) monopolização do mercado estético.

❌ Incorreta: nenhum texto menciona concentração de mercado; o aumento de cirurgias plásticas é sintoma cultural de uma sociedade da imagem, não estrutura de mercado monopolizada.

D) diferenciação dos modelos corporais.

❌ Incorreta: o fenômeno é o oposto — a exposição maciça de imagens tende à padronização, não à diversificação dos padrões de beleza, e essa diferenciação não aparece em nenhum dos textos.

E) personalização das dimensões íntimas.

❌ Incorreta: os textos descrevem uma dinâmica coletiva e pública (comissão parlamentar, "sociedade" em Debord); o que era íntimo (o corpo, a autoimagem) torna-se público e padronizado pelo espetáculo, não personalizado.

🏆 Gabarito: B — os dois textos convergem para mostrar que a vida cotidiana — aparência, corpo, experiências — deixa de ser simplesmente vivida e passa a ser convertida em imagem a exibir e consumir, processo que Debord descreve como a substituição do vivido pela representação, ou seja, a fetichização da experiência vivida.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa que nomeia o processo estrutural comum aos dois textos — a conversão da vivência real em imagem-mercadoria a ser consumida — e não apenas um sintoma ou consequência lateral desse fenômeno.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente combina um trecho teórico de Guy Debord (ou de outro crítico da cultura de massa) com uma reportagem sobre redes sociais, consumo ou aparência, pedindo que o candidato relacione a teoria crítica ao fenômeno cotidiano.
  • Generalização: quando a questão traz um texto teórico (sociologia/filosofia) ao lado de um texto jornalístico/empírico, a alternativa certa costuma ser o conceito do texto teórico que explica o dado empírico — nunca uma consequência secundária e isolada dele.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara alternativas que descrevem "sintomas isolados" (vínculos afetivos, padrões corporais, mercado, intimidade) sem tocar no mecanismo geral de "transformar vivência em imagem/mercadoria" — isso corta três das cinco opções em segundos.
  • Conexões: Fetichismo da mercadoria (Karl Marx); Indústria Cultural (Adorno e Horkheimer); Sociedade de Consumo e simulacro (Jean Baudrillard).

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