Mapa de questões · 1º dia
Questão 86 — ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia
Juiz — Entre, Edmund, falei com o seu senhor.
Edmund — Não com o meu senhor, Vossa Excelência, espero ser o meu próprio senhor.
Juiz — Bem, com o seu empregador, o Sr. E…, o fabricante de roupas. Serve a palavra empregador?
Edmund — Sim, sim, Vossa Excelência, qualquer coisa que não seja senhor.
DEFOE, D. apud THOMPSON, E. P. Costumes em comum. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.
Qual alteração nas relações sociais na Inglaterra é registrada no diálogo extraído da obra escrita em 1724?
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Formação do capitalismo industrial na Inglaterra; transição das relações servis para as relações assalariadas
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretação fina de um diálogo literário e a mobilização de um conceito historiográfico (E. P. Thompson) que vai além da leitura literal do texto
- 🎯 Tema/Habilidade: Mudança nas relações de trabalho na Inglaterra pré-industrial do século XVIII — competência de interpretar uma fonte histórica e relacioná-la a um processo social mais amplo
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que essa conversa entre o juiz e Edmund revela sobre a mudança nas relações sociais e de trabalho na Inglaterra de 1724?"
- Palavras-chave decisivas: "não com o meu senhor", "espero ser o meu próprio senhor", "qualquer coisa que não seja senhor"
- Armadilha típica: confundir a cena com um conflito trabalhista concreto — greve, salário, condições de fábrica — quando o tema real é a mudança de vocabulário e de status jurídico-social: de servo a contratado
- O que a resposta precisa demonstrar: entender que a recusa de Edmund ao termo "senhor" (posse pessoal, típica da servidão) em favor de "empregador" expressa mudança na natureza do vínculo de trabalho, não nas condições materiais
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Relações servis pré-capitalistas: vínculo pessoal de dependência entre um "senhor" (master) e um servo ou criado, com conotação de submissão pessoal, quase doméstica, herdada da sociedade de ordens do Antigo Regime
- Relação assalariada/contratual: vínculo impessoal, mediado por contrato e remuneração, em que o trabalhador vende sua força de trabalho a um "empregador" sem dever obediência pessoal — marca distintiva do trabalho livre no capitalismo
- E. P. Thompson e "Costumes em Comum": obra que investiga como a cultura popular inglesa reage e se adapta à emergência do capitalismo, registrando tensões de vocabulário e moral entre o mundo antigo (paternalista) e o novo mundo (mercantil)
- Contexto de 1724 (Defoe): início de um processo — ainda incompleto — de transição das relações senhoriais e da manufatura doméstica para o trabalho assalariado urbano, já perceptível na linguagem jurídica e cotidiana
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Não com o meu senhor, Vossa Excelência, espero ser o meu próprio senhor" → Edmund rejeita explicitamente ter um "senhor" — relação de posse pessoal — e reivindica autonomia sobre si mesmo, mesmo trabalhando para outra pessoa
- Evidência 2: "Sim, sim, Vossa Excelência, qualquer coisa que não seja senhor" → mostra que o incômodo de Edmund não é com a existência de hierarquia (ele aceita "empregador" sem resistência), mas especificamente com o termo "senhor", carregado do peso simbólico da servidão
- Síntese: o diálogo não descreve fábricas melhores nem o fim de hierarquias, mas uma disputa de vocabulário que traduz a transição de uma relação de servidão pessoal para uma relação contratual e assalariada — ou seja, a superação do caráter servil nas relações de trabalho
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo do diálogo
O juiz tenta classificar Edmund segundo a categoria tradicional: "o meu senhor" (my master), termo que na Inglaterra pré-industrial designava subordinação pessoal e quase tutelar, típica das relações servis, como as de criados domésticos ou aprendizes vinculados a um mestre de ofício. Edmund corrige o juiz duas vezes, recusando essa palavra e propondo "empregador" (employer) em seu lugar.
Subpasso 4.2 — Interpretar o significado histórico da recusa
Essa recusa não é um detalhe de etiqueta: expressa uma mudança real, embora ainda em curso, na forma como os trabalhadores ingleses do início do século XVIII passavam a se enxergar. Ao dizer "espero ser o meu próprio senhor", Edmund reivindica autonomia jurídica e pessoal — vende seu trabalho, mas não se considera propriedade nem dependente pessoal de quem o contrata. É exatamente essa transição que Thompson documenta em "Costumes em Comum": a passagem de vínculos senhoriais e servis para vínculos contratuais e assalariados, próprios do capitalismo nascente.
Subpasso 4.3 — Verificação
Voltando ao comando — "qual alteração nas relações sociais é registrada" —, a resposta precisa nomear essa alteração de forma correta e abstrata: não é melhoria de condições materiais, não é fim de conflitos hierárquicos, não é enfraquecimento da burguesia, tampouco desaparecimento de distinções sociais. É, precisamente, a superação, ainda parcial e em disputa, do caráter servil das relações de trabalho, substituído por um vínculo contratual entre empregador e empregado. Essa leitura converge diretamente para a alternativa B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Melhoria das condições laborais no ambiente fabril.
❌ Incorreta: o diálogo trata de nomenclatura e de status jurídico-social do vínculo de trabalho, não de salários, jornada, segurança ou de qualquer condição material do ambiente fabril — que sequer é mencionado no texto.
B) Superação do caráter servil nas relações trabalhistas.
✅ Correta: a insistência de Edmund em não ser chamado de "senhor" e sua reivindicação de autonomia ("meu próprio senhor") registram exatamente a passagem de uma relação de servidão pessoal para uma relação assalariada e contratual.
C) Extinção dos conflitos hierárquicos no contexto industrial.
❌ Incorreta: o próprio diálogo é uma disputa hierárquica em andamento — o juiz corrige, Edmund recusa e reafirma sua posição; a hierarquia entre empregador e empregado permanece, apenas muda de natureza, não é extinta.
D) Abrandamento dos ideais burgueses nos centros urbanos.
❌ Incorreta: o movimento histórico registrado é o oposto — é o avanço da mentalidade burguesa e contratual, simbolizado pela troca de "senhor" por "empregador", que caracteriza o período, não seu enfraquecimento.
E) Desaparecimento das distinções sociais no ordenamento jurídico.
❌ Incorreta: as distinções sociais e hierárquicas continuam plenamente existentes; muda a linguagem e a natureza do vínculo, mas não o fato de que ainda há uma relação de subordinação econômica entre as partes.
🏆 Gabarito: B — o diálogo registra a substituição da linguagem e da lógica da servidão pessoal ("senhor") pela linguagem e lógica do contrato assalariado ("empregador"), evidenciando a superação do caráter servil nas relações trabalhistas inglesas do início do século XVIII.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa B nomeia uma mudança de natureza da relação de trabalho — de servil para contratual —, exatamente o que o vocabulário do diálogo evidencia.
- Padrão de cobrança: o ENEM usa fontes primárias (literárias, jurídicas, jornalísticas) para testar se o aluno extrai um processo histórico abstrato a partir de um detalhe concreto de linguagem ou comportamento.
- Generalização: desconfie de alternativas com "melhorias materiais" ou "fins abruptos" (extinção, desaparecimento); processos históricos de longa duração raramente se resolvem de forma total — são transições parciais e em disputa.
- Dica de eliminação rápida: corte de imediato alternativas com termos absolutos ("extinção", "desaparecimento", "abrandamento") quando a fonte sugere continuidade de tensão, como neste diálogo.
- Conexões: E. P. Thompson e a formação da classe operária inglesa; transição do paternalismo pré-industrial para o capitalismo industrial.
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