Mapa de questões · 1º dia
Questão 13 — ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia
— … E o amor não é só o que o senhor Sousa Costa pensa. Vim ensinar o amor como deve ser. Isso é que pretendo, pretendia ensinar para Carlos. O amor sincero, elevado, cheio de senso prático, sem loucuras. Hoje, minha senhora, isso está se tornando uma necessidade deste que a filosofia invadiu o terreno do amor! Tudo o que há de pessimismo pela sociedade de agora! Está se animalizando cada vez mais. Pela influência às vezes até indireta de Schopenhauer, de Nietzsche… embora sejam alemães. Amor puro, sincero, união inteligente de duas pessoas, compreensão mútua. E um futuro de paz conseguido pela coragem de aceitar o presente.
Rosto polido por lágrimas saudosas, quem vira Fräulein chorar!…
— … É isso que eu vim ensinar para seu filho, minha senhora. Criar um lar sagrado! Onde é que a gente encontra isso agora?
ANDRADE, M. Amar, verbo intransitivo. Rio de Janeiro: Agir, 2008.
Confrontada pela dona da casa, a personagem alemã explica as razões de sua presença ali. Em seu discurso, o amor é concebido por um viés que
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Modernismo brasileiro (2ª geração), Mário de Andrade, Amar, verbo intransitivo
- ⚡ Nível: Difícil — exige cruzar a fala da personagem com o contexto histórico-cultural (filosofia alemã, crítica de costumes) sem que o gabarito esteja explícito no texto
- 🎯 Tema/Habilidade: Concepção de amor no discurso da personagem Fräulein; leitura crítica de recursos linguísticos e discursivos para identificar efeitos de sentido em texto literário
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é o viés (a perspectiva) por trás da concepção de amor que a personagem apresenta em sua fala?"
- Palavras-chave decisivas: influência... de Schopenhauer, de Nietzsche, embora sejam alemães, lar sagrado
- Armadilha típica: confundir "citar filósofos" com "explicar filosoficamente" (alternativa B) ou achar que ela idealiza o amor por usar adjetivos elevados como "sincero" e "elevado" (alternativa A), ignorando que ela mesma rejeita expressamente "loucuras" e devaneios.
- O que a resposta precisa demonstrar: perceber que a Fräulein não fala de um lugar neutro — ela localiza sua visão de amor dentro de um repertório cultural específico (filosofia alemã, ideal de "lar"), evidenciando que sua prática pedagógica do amor é herdada, não universal.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Amar, verbo intransitivo (1927): romance de Mário de Andrade, marco do Modernismo brasileiro, que satiriza a burguesia paulistana ao narrar a contratação de uma preceptora alemã, Fräulein Elza, para "iniciar" sentimental e sexualmente o filho da família, Carlos.
- Crítica social modernista: o livro ironiza a importação de valores europeus pela elite cafeeira de São Paulo — a educação sentimental do rapaz é terceirizada a uma estrangeira, como se o "amor" fosse um produto de importação cultural, tal qual os hábitos de consumo da época.
- Schopenhauer e Nietzsche: filósofos alemães do século XIX ligados a leituras pessimistas e vitalistas da existência. Ao citá-los e emendar "embora sejam alemães", a própria personagem assume, sem rodeios, que sua fala carrega uma origem cultural estrangeira específica.
- Discurso como marca cultural: quando uma personagem fundamenta sua visão de mundo citando nomes, tradições ou ideais de uma nacionalidade determinada, o texto não está expondo uma teoria filosófica em si, mas sinalizando de onde vêm as referências que orientam aquela fala — ou seja, demarcando influências.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Pela influência às vezes até indireta de Schopenhauer, de Nietzsche… embora sejam alemães." → a Fräulein nomeia explicitamente as fontes filosóficas — alemãs, como ela mesma frisa — que, na sua leitura, contaminam de "pessimismo" a sociedade atual. Ela se posiciona a partir dessas referências, mesmo enquanto declara rejeitar tal pessimismo.
- Evidência 2: "Criar um lar sagrado! Onde é que a gente encontra isso agora?" → o ideal de "lar sagrado" é um valor de tradição germânica/burguesa que ela quer implantar na família de Carlos, mostrando que seu projeto de "ensinar o amor" é a transposição de um modelo cultural estrangeiro para o Brasil.
- Síntese: a personagem não desenvolve um sistema filosófico (o que eliminaria B) nem duvida de que o amor possa ser compreendido ou ensinado (o que eliminaria C); ela expõe, passo a passo, as referências culturais — filósofos alemães, ideal de lar — que fundamentam sua prática de "ensinar o amor". Isso é demarcar influências culturais sobre suas práticas.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar quem fala e com que propósito
A fala é da Fräulein, contratada pela família de Carlos para "ensinar o amor" ao rapaz — prática comum da educação sentimental burguesa da época, satirizada por Mário de Andrade. Ela está se justificando diante da "dona da casa", que a confronta. O texto pede que o leitor identifique o viés pelo qual o amor é concebido nesse discurso de autodefesa — ou seja, que tipo de fundamento ela usa para legitimar sua função.
Subpasso 4.2 — Mapear as referências citadas no discurso
Ao longo da fala, a Fräulein empilha marcas de origem: (1) menciona Schopenhauer e Nietzsche, fazendo questão de dizer "embora sejam alemães"; (2) associa o "pessimismo" da sociedade moderna à "invasão" da filosofia no terreno do amor; (3) propõe como meta final "criar um lar sagrado", ideal fortemente identificado com a cultura doméstica germânica da época. Em nenhum momento ela apresenta um argumento filosófico desenvolvido (não explica o que Schopenhauer ou Nietzsche de fato pensavam) — ela apenas usa os nomes como marcadores de origem cultural de sua visão.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando esse mapeamento com as alternativas: a resposta certa precisa reconhecer que o discurso identifica de onde vêm as ideias que moldam a prática amorosa da personagem — isto é, que ela demarca (situa, delimita) as influências culturais que atravessam seu modo de "ensinar o amor". Isso corresponde exatamente à alternativa D, e não a uma defesa de idealização (A), a uma exposição filosófica (B), a uma dúvida sobre compreensão (C) ou a uma valorização da família como transmissora de valores (E — pois é justamente a estrangeira quem ensina, não a família).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) defende a idealização dos sentimentos.
❌ Incorreta: a própria personagem rejeita a idealização ao dizer que quer um amor "sincero, elevado, cheio de senso prático, sem loucuras". "Sem loucuras" é justamente a negação de idealizar — ela defende um amor pragmático e controlado, moldado por um projeto cultural, não um sentimento sublimado ou fantasioso.
B) explicita filosoficamente suas peculiaridades.
❌ Incorreta: citar Schopenhauer e Nietzsche não equivale a explicar filosoficamente algo. A personagem apenas menciona os nomes como referência de origem cultural do "pessimismo" que critica, sem desenvolver nenhum conceito ou argumento filosófico sobre a natureza do amor.
C) questiona a possibilidade de sua compreensão.
❌ Incorreta: o discurso é de afirmação, não de dúvida. A Fräulein se apresenta como alguém que sabe ensinar o amor ("Vim ensinar o amor como deve ser"), com convicção sobre método e objetivo — não há qualquer questionamento sobre se o amor pode ou não ser compreendido.
D) demarca as influências culturais sobre suas práticas.
✅ Correta: ao citar Schopenhauer, Nietzsche (com a ressalva "embora sejam alemães") e ao propor o ideal de "lar sagrado", a personagem situa explicitamente sua concepção de amor dentro de um repertório cultural germânico. Ela não neutraliza sua fala — pelo contrário, marca com clareza a origem cultural das ideias que orientam sua prática de "ensinar o amor".
E) valoriza o papel da família na transmissão de seus valores.
❌ Incorreta: há uma inversão de papéis no texto. Quem transmite valores sobre o amor é justamente a preceptora estrangeira, contratada porque a própria família (representada pela "dona da casa") não cumpre essa função. A família é o alvo da "educação sentimental", não o agente que a transmite.
🏆 Gabarito: D — o discurso da Fräulein concebe o amor a partir de referências culturais explicitamente demarcadas (filosofia alemã, ideal de "lar sagrado"), revelando que sua prática pedagógica do amor é produto de uma tradição cultural específica, não de uma verdade universal ou neutra.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa D descreve com precisão o que o texto faz: identificar e situar as origens culturais (filósofos alemães, ideal de lar) que moldam a concepção de amor da personagem, sem idealizá-lo, sem desenvolvê-lo filosoficamente e sem colocar em dúvida sua compreensão.
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente usa trechos de romances modernistas (Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Graciliano Ramos) para testar se o candidato consegue enxergar a crítica social por trás da fala de uma personagem, e não apenas o conteúdo superficial do que ela diz.
- Generalização: sempre que uma personagem fundamentar sua visão de mundo citando nomes, tradições ou nacionalidades específicas, desconfie de alternativas que falem em "neutralidade", "universalidade" ou "ausência de fundamento" — o texto está, ao contrário, marcando uma origem cultural.
- Dica de eliminação rápida: elimine alternativas que contradizem falas explícitas do texto (A, ao ver "sem loucuras"; C, ao ver a convicção da personagem) antes mesmo de analisar as demais — isso reduz o problema a duas opções em segundos.
- Conexões: Modernismo brasileiro e crítica de costumes da burguesia paulistana; recursos de caracterização de personagem via discurso direto na prosa de ficção.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.