Mapa de questões · 1º dia
Questão 20 — ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia
O esporte moderno, como o futebol, desenvolve-se, nos dias de hoje, com base nos princípios da sociedade moderna ocidental, industrializada nos moldes capitalistas. Ele é uma instância da ação do poder econômico e do poder político, figurando também no rol dos instrumentos de manutenção da ordem vigente e da manobra e comunicação com as massas.
PAULA, H. E. Cabeça de ferro, peito de aço, perna de pau: a construção do corpo esportista brincante. Motriz, n. 2, 1996 (adaptado).
Jogadores e jogadoras podem se tornar elementos transformadores das ordens esportiva e social, na medida em que exerçam festivamente a sua criatividade para
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Educação Física → sociologia do esporte; o esporte como instrumento de poder e possibilidade de transformação social
- ⚡ Nível: Médio — a resposta não está escrita literalmente no texto: é preciso deduzir, a partir da tese de que o esporte "mantém a ordem vigente", qual ação rompe com essa lógica
- 🎯 Tema/Habilidade: O esporte moderno como fenômeno social e político; leitura crítica de texto teórico sobre cultura corporal (agência do atleta frente às estruturas de poder)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que jogadores e jogadoras precisam fazer, de forma criativa e pública, para deixar de apenas reproduzir a ordem esportiva/social e passar a transformá-la?"
- Palavras-chave decisivas: elementos transformadores, exerçam festivamente a sua criatividade, manutenção da ordem vigente
- Armadilha típica: confundir "criatividade" com desempenho técnico ou estético dentro de campo (jogar de forma criativa taticamente). O texto não fala de criatividade tática, e sim de criatividade como capacidade de ressignificar o papel social do esporte.
- O que a resposta precisa demonstrar: uma ação do atleta que rompe com a função de "manobra e comunicação com as massas" descrita no texto-base, e não uma ação que apenas reforça o funcionamento normal do esporte-espetáculo.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Esporte moderno como aparelho de poder: o texto de Paula (1996) trata o esporte, especialmente o futebol, como produto da sociedade capitalista industrial — instituição usada por poderes econômico e político para manter a ordem social e "comunicar-se com as massas".
- Reprodução x transformação: toda instituição social pode reproduzir a estrutura que a sustenta (esporte como descrito no texto) ou ser usada por seus próprios agentes para questioná-la e transformá-la — é isso que o comando pergunta.
- Agência crítica do atleta: na Educação Física crítico-emancipatória (base usada em provas do ENEM), o corpo e a prática esportiva não são neutros; podem ser espaço de resistência quando o atleta usa sua visibilidade pública para se posicionar, e não apenas para performar.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "instância da ação do poder econômico e do poder político, figurando também no rol dos instrumentos de manutenção da ordem vigente e da manobra e comunicação com as massas" → revela que o texto descreve o esporte, tal como estruturado hoje, como ferramenta de controle e reprodução — não de emancipação. O atleta, nesse cenário, é usado como meio de comunicação com as massas, não como voz própria.
- Evidência 2: "podem se tornar elementos transformadores das ordens esportiva e social, na medida em que exerçam festivamente a sua criatividade para" → o verbo "podem se tornar" indica uma possibilidade condicionada: jogadores e jogadoras só serão transformadores SE fizerem algo que inverta essa lógica de manobra e manutenção.
- Síntese: a transformação só ocorre quando o próprio atleta toma a palavra e usa sua visibilidade para expressar uma posição crítica — de objeto de comunicação do sistema para sujeito que fala sobre o sistema.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a tese do texto-base
O trecho de Paula (1996) afirma que o esporte moderno se desenvolve com base nos princípios da sociedade capitalista industrializada, funcionando como instância do poder econômico e político e como instrumento de manutenção da ordem vigente e de manobra/comunicação com as massas. Esse é o "estado de reprodução" — o funcionamento padrão do esporte-espetáculo, tal como o texto o descreve criticamente.
Subpasso 4.2 — Interpretar o que significa "transformar" nesse contexto
Se manter o status quo é o comportamento padrão descrito (reprodução), "transformar" exige o movimento oposto: agir contra essa função de manutenção da ordem. O comando pede que isso ocorra por meio de jogadores e jogadoras que "exerçam festivamente a sua criatividade" — de forma pública e expressiva, mas com conteúdo que rompa com a mera reprodução. A criatividade cobrada aqui não é técnica de jogo: é a capacidade de ressignificar o papel social do próprio esporte, usando a exposição que ele proporciona para outro fim.
Subpasso 4.3 — Verificação por eliminação lógica
Testando cada final de frase contra o critério "reproduz a ordem" versus "rompe com a ordem": competir bem (A), tornar o futebol popular (B), profissionalizar-se (C) e produzir materiais esportivos (D) são ações que ocorrem dentro da lógica descrita no texto — fazem parte da própria engrenagem do esporte-espetáculo capitalista, sem contestá-la. Apenas "expressar criticamente as suas opiniões" (E) representa o uso da voz e da visibilidade do atleta para questionar o sistema, em vez de apenas performar dentro dele — confirmando o caminho para a alternativa E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) desempenharem sua prática de forma competitiva.
❌ Incorreta: a competitividade é justamente o modo "normal" de funcionamento do esporte de rendimento dentro da lógica capitalista descrita no texto. Competir bem reforça a estrutura existente — é reprodução da ordem, não transformação dela.
B) fazerem o futebol ser considerado como um "esporte do povo".
❌ Incorreta: um rótulo de popularidade não altera a estrutura de poder subjacente. O próprio texto já afirma que o futebol se comunica com "as massas" justamente para mantê-las dentro da ordem vigente; chamá-lo de "esporte do povo" reforça esse discurso de massificação, em vez de criticá-lo.
C) realizarem profissionalmente o desempenho de suas atividades.
❌ Incorreta: a profissionalização é uma das engrenagens do próprio esporte-espetáculo capitalista mencionado no texto (mercado, indústria, contratos). Trata-se de uma prática interna ao sistema, sem qualquer ruptura ou agência transformadora associada a ela.
D) produzirem materiais esportivos específicos à sua prática.
❌ Incorreta: a produção de materiais esportivos (equipamentos, uniformes) pertence à dimensão de mercado e consumo do esporte. Não guarda relação direta com o argumento do texto sobre poder, manutenção da ordem e possibilidade de transformação social.
E) expressarem criticamente as suas opiniões em relação ao futebol.
✅ Correta: a expressão crítica pública é a única ação, entre as cinco, que rompe com o papel de "instrumento de manobra e comunicação com as massas" descrito no texto. Ela transforma o atleta de objeto de comunicação (usado pelo sistema para se legitimar) em sujeito de comunicação (que questiona o próprio sistema esportivo e social).
🏆 Gabarito: E — Somente a expressão crítica das opiniões dos jogadores e jogadoras rompe com a lógica de manutenção da ordem descrita no texto, transformando-os de instrumentos do sistema esportivo em agentes ativos de questionamento social.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que descreve uma ação de ruptura com a reprodução do poder; as demais (competir, popularizar, profissionalizar, produzir materiais) são práticas que ocorrem dentro do próprio sistema que o texto critica, sem contestá-lo.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer, em Educação Física, textos de sociologia do esporte que denunciam o esporte-espetáculo como reprodutor de desigualdades ou do poder hegemônico, cobrando do candidato a identificação de posturas críticas e emancipatórias em contraposição às práticas hegemônicas do sistema esportivo.
- Generalização: em questões que apresentam uma crítica sociológica a uma instituição (esporte, mídia, escola) como "instrumento de manutenção da ordem", a alternativa correta quase sempre aponta para uma ação de crítica, consciência ou ruptura — e não para o exercício "normal"/técnico da prática descrita no texto.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara toda alternativa que apenas descreva "fazer bem o que já se faz" (competir, profissionalizar, produzir materiais) — são continuidade do sistema, não transformação dele. Fique com a alternativa cujo verbo implica fala, crítica ou consciência pública.
- Conexões: sociologia do esporte (esporte-espetáculo, indústria cultural); papel político de atletas na história (Muhammad Ali, Colin Kaepernick, Marta); Educação Física crítico-emancipatória e cultura corporal de movimento.
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