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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensPortuguêsMédio

Questão 15ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia

Anatomia

Qual a matéria do poema?
A fúria do tempo com suas unhas e algemas?

Qual a semente do poema?
A fornalha da alma com os seus divinos dilemas?

Qual a paisagem do poema?
A selva da língua com suas feras e fonemas?

Qual o destino do poema?
O poço da página com suas pedras e gemas?

Qual o sentido do poema?
O sol da semântica com suas sombras pequenas?

Qual a pátria do poema?
O caos da vida e a vida apenas?

CAETANO, A. Disponível em: www.antoniocaetano.com.br.
Acesso em: 27 set. 2013 (fragmento).

Além da função poética, predomina no poema a função metalinguística, evidenciada

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Funções da Linguagem (foco na função metalinguística) e leitura de texto poético
  • ⚡ Nível: Médio — a resposta exige reconhecer um conceito teórico (metalinguagem) e associá-lo à estrutura formal do poema, não apenas ao "assunto" dele
  • 🎯 Tema/Habilidade: Funções da linguagem de Jakobson aplicadas a um texto literário; competência de leitura que cobra reconhecimento de recursos expressivos e reflexão sobre a própria linguagem
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Encontre a alternativa que explica POR QUE, além de poética, a função metalinguística predomina no poema."
  • Palavras-chave decisivas: função metalinguística, do poema (repetido em toda estrofe), evidenciada
  • Armadilha típica: confundir a função metalinguística com a função emotiva (o eu lírico expressando dúvidas/angústias) ou com a mera presença de figuras de linguagem, que aparecem em praticamente qualquer poema e não são exclusivas da metalinguagem.
  • O que a resposta precisa demonstrar: não basta identificar "o poema fala sobre poesia" de forma vaga — é preciso apontar o mecanismo textual concreto que produz esse efeito: o poema toma a si mesmo, enquanto linguagem, como objeto de suas próprias perguntas.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Funções da linguagem (Roman Jakobson): todo ato comunicativo pode enfatizar um dos seis elementos da comunicação (emissor, receptor, mensagem, referente, canal, código), gerando, respectivamente, as funções emotiva, conativa, poética, referencial, fática e metalinguística.
  • Função metalinguística: ocorre quando a linguagem é usada para falar sobre a própria linguagem — um dicionário que define palavras, uma gramática que explica regras, ou, como aqui, um poema que discute o que é o poema.
  • Função poética: enfatiza a própria mensagem, valorizando sonoridade, ritmo e construção estética (as aliterações, as rimas e as imagens do texto). Ela coexiste com a metalinguística, mas não se confunde com ela — o enunciado já avisa isso ao dizer "além da função poética".
  • Metapoesia: subgênero em que o poema tem como tema a própria criação poética, o "fazer poema" — é exatamente o caso deste texto, que interroga a matéria, a semente, a paisagem, o destino, o sentido e a pátria do poema.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Qual a matéria do poema? [...] Qual a semente do poema? [...] Qual a paisagem do poema?" → cada pergunta tem como sujeito gramatical e temático a palavra "poema" — o texto não pergunta sobre o mundo, sobre o amor ou sobre a vida em geral, mas sobre si próprio enquanto objeto linguístico.
  • Evidência 2: "Qual o sentido do poema? [...] Qual a pátria do poema?" → a insistência estrutural (seis perguntas, todas com a mesma construção "Qual + substantivo + do poema") comprova que não se trata de uma pergunta isolada, mas de um projeto textual inteiro voltado a definir o que é um poema.
  • Síntese: o poema constrói-se como uma sucessão de definições metafóricas de si mesmo (matéria, semente, paisagem, destino, sentido, pátria), caracterizando um texto que usa a linguagem poética para refletir sobre a própria linguagem poética — isto é, a função metalinguística em estado puro, sobreposta à função poética já anunciada no comando.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o padrão estrutural do poema

O poema é organizado em seis dísticos (pares de versos), e cada um deles segue rigorosamente a mesma fórmula: uma pergunta iniciada por "Qual" seguida de um substantivo abstrato (matéria, semente, paisagem, destino, sentido, pátria) mais o complemento fixo "do poema". Em seguida, o segundo verso de cada par oferece uma resposta metafórica também referida ao poema ("A fúria do tempo...", "A fornalha da alma...", "A selva da língua..."). Ou seja, tanto a pergunta quanto a resposta giram em torno de definir o poema — não há, em nenhum momento, um assunto externo (um amor, uma paisagem real, um acontecimento) que sirva de referente. O referente do texto é o próprio texto.

Subpasso 4.2 — Relacionar a estrutura ao conceito de função metalinguística

Se a linguagem está sendo usada para explicar, definir ou caracterizar a própria linguagem (no caso, o poema, que é um produto da linguagem), então o código está sendo usado para falar do código — essa é, por definição, a função metalinguística. O enunciado já adianta que a função poética predomina (o texto é rico em imagens, ritmo e figuras), mas pede o que evidencia a metalinguagem além disso. A evidência não pode estar em elementos que também sustentam a função poética (como as figuras de linguagem) nem na função emotiva (as dúvidas do eu lírico); ela precisa estar no fato objetivo de que o objeto de todo o discurso é o próprio poema.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confirmando: se cada uma das seis perguntas do poema tem "do poema" como núcleo do complemento nominal, e cada resposta também caracteriza o poema (por meio de metáforas), então o texto fala de si mesmo enquanto linguagem em toda a sua extensão. Isso corresponde exatamente à alternativa que descreve "o fato de o poema falar de si mesmo como linguagem" — a alternativa D.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) pelo uso de repetidas perguntas retóricas.

❌ Incorreta: a repetição de perguntas é um recurso estrutural (mais ligado à função poética, pela construção rítmica e paralelística), mas perguntas retóricas por si só não indicam que o texto fala sobre linguagem — poderiam aparecer em um texto sobre qualquer tema (político, social, existencial) sem qualquer traço de metalinguagem.

B) pelas dúvidas que inquietam o eu lírico.

❌ Incorreta: descrever inquietações do eu lírico remete à função emotiva/expressiva da linguagem (foco no emissor e em seus sentimentos), não à metalinguística. A questão não está em o eu lírico duvidar, e sim em o objeto dessas dúvidas ser sempre o próprio poema.

C) pelos usos que se fazem das figuras de linguagem.

❌ Incorreta: metáforas ("a fúria do tempo", "a fornalha da alma", "a selva da língua") são responsáveis pela função poética, não pela metalinguística. Praticamente todo poema usa figuras de linguagem; isso não é uma marca distintiva do texto falar sobre si mesmo.

D) pelo fato de o poema falar de si mesmo como linguagem.

✅ Correta: todas as seis perguntas do poema têm o substantivo "poema" como complemento fixo, e todas as respostas metafóricas também caracterizam esse mesmo poema. O texto toma a si mesmo — enquanto produto de linguagem — como referente, o que define precisamente a função metalinguística.

E) pela prevalência do sentido poético como inquietação existencial.

❌ Incorreta: "inquietação existencial" remete a temas de vida, morte, tempo, angústia — sentimentos do eu lírico, associados à função emotiva. Além disso, o enunciado já afirmou que a função poética predomina "além" da metalinguística, então repetir essa ideia como se fosse a evidência da metalinguagem é uma inversão lógica.

🏆 Gabarito: D — a metalinguagem se evidencia porque cada pergunta e cada resposta do poema têm o próprio poema como referente, ou seja, o texto usa a linguagem poética para definir e discutir a si mesmo enquanto linguagem.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa D aponta o mecanismo real do texto — a linguagem falando sobre si mesma —, que é a definição exata de função metalinguística; as demais alternativas descrevem recursos ou efeitos que pertencem a outras funções (poética, emotiva) ou são superficiais demais para caracterizar metalinguagem.
  • Padrão de cobrança: o ENEM costuma testar as funções da linguagem de Jakobson pedindo que o aluno identifique QUAL função predomina em um texto e, principalmente, JUSTIFIQUE com base em elementos concretos do texto (quem é o referente, quem é o emissor, o que é discutido) — nunca basta "decorar o nome" da função.
  • Generalização: sempre que um texto (poema, crônica, definição) tiver como assunto a própria linguagem, a própria palavra, o próprio ato de escrever ou o próprio gênero textual, a função predominante é a metalinguística — procure o referente do texto: se o referente é "a linguagem"/"o texto"/"o poema" em si, é metalinguagem.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa que fale de sentimentos, dúvidas ou inquietações do eu lírico (função emotiva) e qualquer alternativa que cite apenas "figuras de linguagem" ou "recursos estéticos" (função poética) — nenhuma das duas define metalinguagem; a alternativa certa precisa mencionar o texto/poema como objeto de si mesmo.
  • Conexões: funções da linguagem de Jakobson; metapoesia e metaficção; interpretação de texto poético no ENEM.

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