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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensPortuguêsMédio

Questão 30ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia

Agora sei que a minha língua é a língua de sinais.
Agora sei também que o português me convém. Eu quero ensinar português para os meus alunos surdos, pois eles precisam dessa língua para ter mais poder de negociação com os ouvintes (G, 2004).

Eu me sinto bilíngue, eu converso com os surdos na minha língua e converso com os ouvintes no português, porque aprendi a falar o português, embora eu tenha voz de surdo, mas as pessoas muitas vezes me entendem. Eu já me acostumei a conversar com os ouvintes no meu português. Se alguns não me entendem, eu escrevo (SZ, 2011).

QUADROS, R. M. Libras. São Paulo: Parábola, 2019.

Considerando os contextos de uso da Libras e da língua portuguesa, o depoimento desses surdos revela que no contato entre essas línguas há uma

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Sociolinguística: línguas em contato e bilinguismo (Libras/português)
  • ⚡ Nível: Médio — exige comparar dois depoimentos e reconhecer uma relação funcional (e não hierárquica) entre as duas línguas.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Bilinguismo da comunidade surda; competência de leitura de textos sobre diversidade linguística e relações entre línguas/variedades.
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Os dois depoimentos mostram que tipo de relação existe entre Libras e português na vida desses surdos?"
  • Palavras-chave decisivas: bilíngue, língua de sinais, o português me convém
  • Armadilha típica: ler "o português me convém" como submissão às regras da língua portuguesa (leva à B), ou confundir a identidade forte com Libras com ameaça/rejeição ao português.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que as duas línguas atuam em esferas sociais distintas — Libras com surdos, português com ouvintes —, sem que uma substitua, ameace ou subordine a outra.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Bilinguismo: capacidade de alternar entre duas línguas conforme o interlocutor e a situação comunicativa.
  • Línguas em contato: duas línguas que coexistem na vida de um indivíduo, cada uma ocupando um domínio social próprio, sem competir pelo mesmo espaço.
  • Comunidade surda e Libras: Libras é a língua materna e identitária dos surdos (Lei 10.436/2002); o português é aprendido como língua adicional, sobretudo na modalidade escrita, para viabilizar a interação com ouvintes.
  • Complementariedade linguística: duas línguas se completam funcionalmente — cada uma resolve uma necessidade comunicativa que a outra, sozinha, não atenderia.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Eu me sinto bilíngue, eu converso com os surdos na minha língua e converso com os ouvintes no português" → alternância de código conforme o interlocutor: Libras dentro da comunidade surda, português com ouvintes.
  • Evidência 2: "Agora sei que a minha língua é a língua de sinais. [...] eles precisam dessa língua [o português] para ter mais poder de negociação com os ouvintes" → Libras segue como língua de identidade, e o português funciona como instrumento de negociação e inserção social — um uso não invalida o outro.
  • Síntese: as duas línguas não disputam o mesmo espaço social; cada uma cumpre uma função comunicativa distinta e necessária — complementariedade, não conflito, hierarquia ou substituição.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar a natureza dos dois depoimentos

Os trechos, assinados por iniciais (G, 2004; SZ, 2011) e citados por Quadros (2019) em obra sobre Libras, são relatos de pessoas surdas descrevendo a própria experiência linguística: o uso simultâneo e consciente de duas línguas ao longo da vida.

Subpasso 4.2 — Mapear a função social de cada língua nos relatos

Libras aparece como a língua "própria", usada sem esforço de adaptação na comunicação com outros surdos — é a língua da identidade e do pertencimento a uma comunidade linguística. O português é descrito como uma língua aprendida e "conveniente", empregada especificamente na interação com ouvintes, inclusive por escrito quando a fala não é compreendida ("Se alguns não me entendem, eu escrevo"). Cada língua tem, assim, um domínio de uso bem definido e não sobreposto.

Subpasso 4.3 — Verificação

Voltando ao comando — "no contato entre essas línguas há uma..." —, confirma-se relação de complementaridade: Libras garante a comunicação plena com a comunidade surda e a afirmação identitária; o português garante o acesso e a negociação com a sociedade ouvinte. Nenhuma das línguas é descartada, subordinada ou ameaçada — elas se somam para ampliar as possibilidades interativas do falante surdo, confirmando a alternativa A.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) situação de complementariedade quanto aos efeitos sociais e interativos.

✅ Correta: Libras é usada com surdos e português com ouvintes — cada língua garante um tipo de interação social que a outra, isoladamente, não supriria. Essa divisão funcional, sem hierarquia, caracteriza a complementariedade.

B) condução do contrato comunicativo com base nas regras do português falado e escrito.

❌ Incorreta: o depoimento não subordina a comunicação às regras do português; evidencia o uso pleno e autônomo de Libras (com gramática própria) em paralelo ao português, caracterizando bilinguismo real, não um "contrato" regido por apenas uma língua.

C) ameaça à proficiência em Libras provocada por dificuldades de articulação.

❌ Incorreta: não há menção a perda de domínio de Libras ou a dificuldades articulatórias; o texto reafirma com segurança "a minha língua é a língua de sinais", mostrando proficiência plena e identidade consolidada nessa língua.

D) preferência pela língua de sinais em decorrência de fatores identitários.

❌ Incorreta: embora haja forte identificação com Libras, o depoimento valoriza explicitamente também o português ("o português me convém"), o que descarta a ideia de preferência excludente — as duas línguas coexistem, cada uma com sua função, sem hierarquização entre elas.

E) ideia do bilinguismo como fator de distinção econômica dos interlocutores.

❌ Incorreta: em nenhum momento o texto associa o uso das línguas a classe social, renda ou distinção econômica; o critério de escolha é exclusivamente o interlocutor (surdo ou ouvinte), não uma questão financeira.

🏆 Gabarito: A — os depoimentos mostram Libras e português cumprindo papéis distintos e complementares na vida social do surdo bilíngue, sem conflito, hierarquia ou distinção econômica entre eles.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que descreve a relação entre as línguas sem inventar conflito, ameaça, hierarquia ou motivação econômica — apenas reconhece que cada língua atende a uma função social diferente.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos sobre variação e diversidade linguística (dialetos regionais, línguas de imigrantes, Libras) pedindo que o candidato reconheça que a coexistência de línguas/variedades não implica superioridade de uma sobre a outra, mas adequação ao contexto e ao interlocutor.
  • Generalização: sempre que um texto mostrar um falante alternando entre línguas conforme a situação comunicativa, a alternativa correta tende a valorizar adequação, coexistência funcional e complementaridade — nunca hierarquia, substituição ou conflito.
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que insinuem ameaça ou hierarquia entre as línguas (C) e as que reduzam o tema a critérios econômicos (E); depois elimine as que dão a uma só língua o controle da interação (B) ou neguem o valor de uma delas (D) — sobra a que reconhece as duas em pé de igualdade funcional.
  • Conexões: Libras como língua oficial da comunidade surda (Lei 10.436/2002 e Decreto 5.626/2005); preconceito linguístico e variação linguística; letramento bilíngue de alunos surdos.

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