Mapa de questões · 1º dia
Questão 9 — ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia
As ruas de calçamento irregular feito com pedras pé de moleque e o casario colonial do centro histórico de Paraty, município ao sul do estado do Rio de Janeiro, foram palco de uma polêmica encerrada há pouco mais de dez anos: o nome da cidade deveria ser escrito com “y” ou com “i”?
O impasse ocorreu após mudanças nas regras ortográficas da língua portuguesa no Brasil terem determinado a substituição do “y” por “i” em palavras como “Paraty”, que então passou a figurar nos mapas como “Parati”. Revoltados com a alteração, os moradores se mobilizaram para que o “y” retornasse ao seu devido lugar na grafia do nome da cidade, o que só ocorreu depois da aprovação de uma lei pela Câmara de Vereadores, em 2007.
No caso de “Paraty”, uma das argumentações em favor do uso do “y” teve por base a origem indígena da palavra. “Foi percebido que existem várias tonalidades na pronúncia do ‘i’ para os indígenas. E cada uma delas tem um significado diferente. O ‘y’ é mais próximo da pronúncia que eles usavam para significar algo no sentido de ‘águas’, enquanto ‘i’ designa outra coisa. O i linguista achou por bem utilizar o ‘y’ para representar essa pronúncia, o ‘i’ longo, o ‘i’ dobrado”, esclarece uma técnica da coordenação de cartografia do IBGE.
MACHADO, M.; LOCHEI, H. Nomes geográficos. Retratos e relatos do IBGE, fev. 2019.
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → variação linguística, identidade cultural e conflitos de norma ortográfica
- ⚡ Nível: Médio — o comando é implícito (não há pergunta explícita), exigindo que o candidato infira o argumento central por trás da mobilização popular
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de argumentos e posicionamentos em textos que tratam de variação linguística e identidade cultural
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual foi o argumento que sustentou a defesa popular pela manutenção do 'y' na grafia de Paraty?"
- Palavras-chave decisivas: revoltados com a alteração, origem indígena da palavra, retornasse ao seu devido lugar
- Armadilha típica: confundir o argumento técnico do linguista do IBGE (que explica o "porquê" fonético do "y") com o argumento da população, que é o que a questão pede — o motivo do comando é o sentimento coletivo, não a justificativa acadêmica de pronúncia.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de distinguir, dentro de um mesmo texto, o argumento histórico-afetivo dos moradores do argumento técnico-linguístico da especialista, e reconhecer que a pergunta mira no primeiro.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Variação linguística e norma ortográfica: a língua portuguesa passa por reformas ortográficas (como a que trocou "y", "k" e "w" por formas aportuguesadas), mas essas reformas nem sempre dialogam com a carga histórica e afetiva que certos grafemas carregam em nomes próprios.
- Toponímia: é o estudo dos nomes de lugares. Muitos topônimos brasileiros vêm de línguas indígenas (como o tupi), e sua grafia original costuma ser defendida como parte da memória e da identidade de uma comunidade.
- Identidade e pertencimento: quando um grupo se mobiliza para preservar uma grafia "não padrão", o que está em jogo não é a correção ortográfica, mas o vínculo simbólico entre o nome e a história do lugar — a grafia funciona como símbolo de tradição.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Revoltados com a alteração, os moradores se mobilizaram para que o 'y' retornasse ao seu devido lugar na grafia do nome da cidade" → mostra reação emocional coletiva ("revoltados") e mobilização popular, não institucional ou partidária.
- Evidência 2: "o que só ocorreu depois da aprovação de uma lei pela Câmara de Vereadores, em 2007" → a lei é consequência da pressão popular, não a causa do movimento — o motivo já existia antes, ligado à história do nome.
- Evidência 3: "uma das argumentações em favor do uso do 'y' teve por base a origem indígena da palavra" → conecta diretamente a defesa do "y" à ancestralidade tupi da palavra "Paraty", reforçando a ideia de raiz histórica e tradição.
- Síntese: o texto narra uma disputa entre a norma ortográfica oficial (que aportuguesaria "Paraty" para "Parati") e a resistência da comunidade, fundamentada na origem indígena do nome e no apego afetivo dos moradores a essa grafia — ou seja, tradição histórica somada a sentimento de pertencimento.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o conflito central do texto
O texto apresenta uma polêmica: por que a cidade voltou a se chamar "Paraty" com "y", depois de ter sido oficialmente grafada "Parati" com "i"? O primeiro parágrafo já entrega a resposta em germe: os moradores "se mobilizaram" e ficaram "revoltados" — palavras que indicam reação identitária e emocional, não técnica.
Subpasso 4.2 — Separar os dois tipos de argumento presentes no texto
Há dois argumentos distintos no texto, e é crucial não confundi-los:
- O argumento da população: querer resgatar o "y" por ele fazer parte da história e da identidade da cidade — evidenciado pela revolta e pela mobilização.
- O argumento técnico da especialista do IBGE: o "y" representa melhor, foneticamente, a pronúncia indígena original do som "i longo/dobrado" usado para significar "águas".
A questão pergunta pelo motivo que embasou a defesa popular pelo retorno do "y" — e essa defesa se apoia justamente na ideia de que o nome antigo (com "y") carrega a tradição da cidade e representa a identidade de quem vive ali, reforçada pela origem indígena mencionada no texto.
Subpasso 4.3 — Verificação
Cruzando as evidências: mobilização + revolta (afeto e pertencimento) + origem indígena (raiz histórica) + lei aprovada só depois da pressão popular (reconhecimento tardio de um sentimento pré-existente) formam, juntas, o quadro de uma defesa fundamentada na força da tradição e no sentimento de pertencimento da comunidade a seu nome de origem. Esse é exatamente o conteúdo da alternativa C, confirmando-a como resposta.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) conveniência político-partidária.
❌ Incorreta: o texto menciona a aprovação de uma lei pela Câmara de Vereadores, mas essa lei é apresentada como resultado da pressão popular, não como uma manobra ou interesse de partidos políticos. Não há qualquer menção a disputa eleitoral, sigla partidária ou benefício político no texto.
B) motivação de natureza estética e lúdica.
❌ Incorreta: "estética e lúdica" sugeriria que o "y" foi escolhido por ser mais bonito, decorativo ou por brincadeira visual. O texto, porém, associa o "y" a um significado linguístico e histórico preciso ("águas", origem tupi), e não a uma preferência de aparência ou diversão.
C) força da tradição e do sentimento de pertencimento.
✅ Correta: a revolta dos moradores, a mobilização popular e a ligação do "y" com a origem indígena do nome demonstram que a defesa da grafia antiga está enraizada na tradição histórica da cidade e no vínculo afetivo/identitário da comunidade com seu nome de origem.
D) convenção ortográfica de alcance geral.
❌ Incorreta: essa alternativa inverte a lógica do texto. A "convenção ortográfica de alcance geral" foi justamente a reforma que substituiu "y" por "i" em todo o país — a mudança que a população de Paraty combateu. O retorno do "y" é uma exceção à convenção geral, não sua aplicação.
E) necessidade de sistematização dos usos da língua.
❌ Incorreta: sistematizar significaria uniformizar regras para toda a língua. O que ocorreu em Paraty foi o oposto: a criação de uma exceção específica, por lei municipal, para preservar uma grafia particular — um caso pontual de resistência à sistematização ortográfica nacional.
🏆 Gabarito: C — o texto mostra que a defesa do "y" em Paraty nasce da revolta popular contra a perda de uma grafia ligada à origem indígena e à história da cidade, caracterizando um caso de defesa da tradição e do sentimento de pertencimento da comunidade.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C reúne os dois elementos centrais do texto — a raiz histórica indígena do nome e o apego afetivo/coletivo dos moradores — sem inverter nem generalizar indevidamente o que está descrito.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos sobre topônimos, variação linguística e conflitos entre norma culta e identidade regional/cultural, pedindo que o aluno reconheça o argumento por trás de uma escolha linguística ou ortográfica.
- Generalização: sempre que um texto narrar uma comunidade resistindo a uma mudança de norma (linguística, ortográfica ou cultural) em nome de sua história, o argumento buscado costuma ser tradição/identidade/pertencimento — raramente motivos políticos, estéticos ou técnicos isolados.
- Dica de eliminação rápida: procure no texto palavras que indiquem afeto coletivo ("revoltados", "mobilizaram") e origem histórica ("origem indígena"); alternativas que mencionem política, estética ou regras gerais tendem a contrariar esse tipo de evidência e podem ser descartadas de imediato.
- Conexões: políticas linguísticas e reformas ortográficas; cultura e línguas indígenas na formação do português brasileiro; toponímia como patrimônio cultural.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.