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Mapa de questões · 1º dia
HumanasGeografiaMédio

Questão 47ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia

A imagem ou modelo, ou seja, toda construção da realidade, é um instrumento de poder e isso desde as origens do homem. Uma imagem, um guia de ação, que tomou as mais diversas formas. Até fizemos da imagem um objeto em si e adquirimos, com o tempo, o hábito de agir mais sobre as imagens, simulacros dos objetos, do que sobre os próprios objetos. Poderíamos imaginar o estudo dos sistemas de representação em ligação com as classes que detinham o poder ao longo da história.

RAFFESTIN, C. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993 (adaptado).

A cartografia moderna, na perspectiva descrita no texto, passou a representar a Terra dando ênfase aos(as)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Geografia → cartografia crítica e geografia do poder (Claude Raffestin)
  • ⚡ Nível: Médio — exige interpretar um texto teórico denso e traduzir um conceito abstrato ("classes que detinham o poder") em linguagem cartográfica precisa
  • 🎯 Tema/Habilidade: Representação do espaço como instrumento de poder; competência de leitura e análise de textos geográficos que discutem a construção social da cartografia
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Segundo o autor, o estudo das representações do espaço (mapas, imagens, modelos) deve ser relacionado a qual aspecto do poder?"
  • Palavras-chave decisivas: instrumento de poder, agir sobre as imagens (simulacros), classes que detinham o poder
  • Armadilha típica: o candidato lê "sistemas de representação" e associa automaticamente a elementos técnicos do mapa — escala, projeção, legenda — porque são os primeiros conceitos de cartografia que vêm à mente. A questão, porém, não pergunta sobre a técnica do mapa, e sim sobre a função política da representação.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que a alternativa correta trata do conteúdo político-social da representação (quem domina o espaço), e não de seus aspectos técnico-formais (como o mapa é desenhado).

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Cartografia crítica: corrente teórica (Brian Harley, Denis Wood, Raffestin) que rompe com a ideia de mapa como espelho neutro da realidade. Para essa corrente, todo mapa é uma escolha — do que mostrar, do que esconder, de que escala usar — e essa escolha carrega interesses de quem produz a representação.
  • Espaço e poder em Raffestin: o geógrafo suíço Claude Raffestin, autor de Por uma geografia do poder (1980, trad. 1993), argumenta que o espaço nunca é neutro: ele é apropriado, organizado e representado por atores que exercem poder sobre ele. A imagem do espaço (mapa, croqui, modelo) é um "guia de ação" que orienta decisões — e quem controla essa imagem controla, em parte, a ação sobre o território.
  • Hegemonia territorial: domínio exercido por um grupo, classe ou Estado sobre determinada área, de forma que suas normas, interesses e visão de mundo se tornem dominantes. Mapas históricos (coloniais, geopolíticos, urbanos) frequentemente demarcam e legitimam essas áreas de domínio.
  • Simulacro: cópia ou representação que passa a ser tratada como se fosse a própria realidade. Raffestin observa que agimos mais sobre os simulacros (mapas, imagens) do que sobre os objetos reais — por isso quem controla o simulacro controla, indiretamente, a ação sobre o espaço real.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "A imagem ou modelo [...] é um instrumento de poder e isso desde as origens do homem" → a representação do espaço nunca foi neutra: ela sempre serviu a interesses de quem a produz ou controla.
  • Evidência 2: "adquirimos [...] o hábito de agir mais sobre as imagens, simulacros dos objetos, do que sobre os próprios objetos" → quem manipula a representação (o mapa, o modelo) manipula, na prática, a forma como as pessoas agem sobre o espaço real — daí seu valor estratégico para quem detém poder.
  • Evidência 3: "estudo dos sistemas de representação em ligação com as classes que detinham o poder ao longo da história" → esta é a frase-chave. Raffestin propõe explicitamente que analisemos os mapas em conexão com as classes dominantes de cada época, ou seja, com quem exercia domínio hegemônico sobre o espaço.
  • Síntese: o texto constrói uma cadeia de raciocínio — imagem = poder → simulacro substitui o objeto real → representação deve ser lida junto às classes dominantes. A conclusão lógica é que estudar mapas historicamente é estudar as áreas de domínio hegemônico que essas classes buscavam representar, reforçar ou legitimar.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo argumentativo do texto

O trecho de Raffestin não fala sobre técnicas cartográficas (como projetar, colorir ou escalonar um mapa). Ele fala sobre a função social e política da representação espacial. A frase final do excerto é a mais importante para resolver a questão: "Poderíamos imaginar o estudo dos sistemas de representação em ligação com as classes que detinham o poder ao longo da história." Isso significa que, para Raffestin, mapas e imagens do espaço devem ser interpretados como produtos das classes dominantes de cada período histórico.

Subpasso 4.2 — Traduzir "classes que detinham o poder" para o vocabulário das alternativas

Se os sistemas de representação estão ligados às classes dominantes, então o que esses sistemas de representação tendem a expressar, demarcar ou reforçar são justamente as áreas sob controle dessas classes — ou seja, áreas de domínio hegemônico. Um mapa colonial, por exemplo, não é só um desenho de continentes: ele demarca territórios de posse, zonas de influência, fronteiras de exploração — tudo isso reflete quem detém poder sobre aquele espaço em determinado momento histórico.

Subpasso 4.3 — Verificação

Comparando com as cinco alternativas, apenas a opção B ("áreas de domínio hegemônico") capta o núcleo político do texto: a ligação entre representação espacial e classes dominantes. As demais alternativas (escala, projeção, legenda, teoria geocêntrica) tratam de elementos técnicos ou temas que sequer aparecem no texto-base, confirmando que a resposta correta é a B.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) escalas de tamanho grande.

❌ Incorreta: escala é um elemento técnico do mapa (relação entre distância no mapa e distância real). O texto de Raffestin não discute tamanho de escala em nenhum momento — ele discute a quem serve a representação, não como ela é dimensionada.

B) áreas de domínio hegemônico.

✅ Correta: é a única alternativa que traduz corretamente a ideia central do texto — a de que os "sistemas de representação" devem ser estudados "em ligação com as classes que detinham o poder ao longo da história". Essas classes exercem domínio hegemônico sobre determinadas áreas, e é justamente esse domínio que os mapas e imagens tendem a expressar e legitimar.

C) aspectos da teoria geocêntrica.

❌ Incorreta: a teoria geocêntrica pertence à astronomia (modelo em que a Terra seria o centro do universo) e não tem qualquer relação com a discussão de Raffestin sobre poder e representação espacial. É um distrator por associação de palavras ("modelo"), não por conteúdo.

D) projeções cilíndricas equivalentes.

❌ Incorreta: projeções cartográficas (cilíndricas, cônicas, azimutais) são técnicas de transposição da superfície esférica da Terra para um plano. Novamente, é um aspecto técnico-formal do mapa, não o conteúdo político-social que o texto destaca.

E) diferenciações de legendas coloridas.

❌ Incorreta: legenda é o elemento gráfico que explica os símbolos do mapa. Assim como escala e projeção, é um recurso técnico de leitura do mapa, não o critério de análise proposto por Raffestin, que é histórico-político (classes dominantes × poder).

🏆 Gabarito: B — Raffestin defende que toda representação espacial é um instrumento de poder e deve ser estudada em conexão com as classes dominantes de cada época; essas classes expressam, nos mapas, suas áreas de domínio hegemônico.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a letra B é a única alternativa que dialoga com o argumento central do texto — a relação entre sistemas de representação e classes dominantes — enquanto as demais tratam de elementos técnicos do mapa (escala, projeção, legenda) ou de um tema estranho ao texto (teoria geocêntrica).
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos de autores da geografia crítica (Raffestin, Milton Santos, Harvey, Yves Lacoste) para discutir o mapa e o espaço como construções sociais carregadas de interesses políticos e econômicos — e não como retratos neutros da realidade.
  • Generalização: sempre que um texto de cartografia crítica mencionar "poder", "classes dominantes", "ideologia" ou "interesses" ligados à representação do espaço, a resposta tende a apontar para quem controla ou se beneficia dessa representação (hegemonia, dominação territorial) — não para aspectos técnicos de como o mapa é construído.
  • Dica de eliminação rápida: separe as alternativas em dois grupos — as que falam de "como se faz um mapa" (escala, projeção, legenda) e as que falam de "quem manda no espaço" (domínio hegemônico). Se o texto-base fala em poder e classes dominantes, elimine todo o primeiro grupo em segundos.
  • Conexões: geografia do poder (Raffestin); "Por uma Geopolítica da Fome" e crítica territorial em Milton Santos; cartografia crítica de Brian Harley — todos tratam do mapa como discurso e não como espelho fiel do real.

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