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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 50ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia

TEXTO I

Uma estranha loucura apossa-se das classes operárias das nações onde impera a civilização capitalista. Esta loucura é o amor pelo trabalho, a paixão moribunda pelo trabalho, levada até o esgotamento das forças vitais do indivíduo e sua prole.

LAFARGUE, P. O direito à preguiça. São Paulo: Hucitec, 2000.

TEXTO II


Vivemos numa época em que as pessoas são tão trabalhadoras que ficam estúpidas.

WILDE, O. apud MASI, D. O futuro do trabalho. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília: UnB, 1999.

De acordo com os textos, a reflexão sobre o mundo do trabalho no século XIX aponta para o conceito sociológico de

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → teoria da alienação (Karl Marx) e crítica ao trabalho na sociedade capitalista
  • ⚡ Nível: Médio — o candidato precisa extrair, de dois textos com linguagem figurada e autores distintos, o conceito técnico que os une, que não é mencionado literalmente em nenhum dos dois.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Alienação do trabalhador na sociedade capitalista; competência de leitura comparada e articulação conceitual entre fontes de Ciências Humanas.
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual conceito sociológico está por trás das críticas de Lafargue e de Oscar Wilde ao culto excessivo do trabalho?"
  • Palavras-chave decisivas: loucura pelo trabalho, esgotamento das forças vitais, tão trabalhadoras que ficam estúpidas
  • Armadilha típica: associar o tema apenas ao "capitalismo" de forma genérica e marcar mercantilização (E), ignorando que os dois textos falam do que acontece com o sujeito, não com os bens ou relações sociais.
  • O que a resposta precisa demonstrar: entender que o excesso de trabalho, nos dois textos, é descrito como algo que retira do indivíduo sua energia vital e sua capacidade de pensar — ou seja, sua própria humanidade.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Alienação (Marx): processo pelo qual o trabalhador se torna estranho ao que produz, ao próprio ato de trabalhar e à sua condição humana genérica, sendo reduzido a mero instrumento de produção dentro da lógica capitalista.
  • Ética/culto ao trabalho: ideologia que trata o trabalho incessante como valor moral supremo, naturalizando o desgaste físico e mental do trabalhador em nome da produtividade.
  • "O Direito à Preguiça" (Lafargue): ensaio de 1880 que inverte a lógica do "direito ao trabalho" defendida pelos socialistas de sua época, propondo o ócio e a jornada reduzida como caminho para libertar o ser humano da alienação.
  • Crítica à racionalidade produtivista (retomada por Wilde): ideia de que a entrega total ao trabalho embota a capacidade de reflexão, criação e senso crítico — a pessoa se torna funcional, mas intelectualmente empobrecida.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Esta loucura é o amor pelo trabalho... levada até o esgotamento das forças vitais do indivíduo e sua prole" → revela que Lafargue trata o excesso de trabalho como uma patologia social que consome literalmente a vitalidade física do trabalhador e de seus descendentes.
  • Evidência 2: "Vivemos numa época em que as pessoas são tão trabalhadoras que ficam estúpidas" → revela que Wilde associa o excesso de trabalho à perda da capacidade de pensar com autonomia e profundidade.
  • Síntese: autores separados por época, nacionalidade e estilo (um socialista francês do século XIX, outro escritor irlandês citado em obra de sociologia do trabalho) chegam ao mesmo diagnóstico: o trabalho sem limites rouba do indivíduo aquilo que o torna plenamente humano — sua energia vital e sua inteligência crítica. Esse "perder-se de si mesmo" no trabalho é, na teoria social, nomeado alienação.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo comum dos dois textos

Antes de qualquer coisa, é preciso notar a estrutura da questão: dois textos de autores e épocas diferentes são justapostos para que o candidato identifique o denominador comum entre eles. Ambos fazem a mesma operação retórica — descrever o excesso de trabalho como uma força destrutiva, algo que corrói o que há de essencial no ser humano. Lafargue chama isso de "loucura"; Wilde, de "estupidez". A pergunta não é sobre as palavras usadas, mas sobre o fenômeno social descrito por trás delas.

Subpasso 4.2 — Relacionar o fenômeno ao conceito sociológico de alienação

Na tradição marxista — que fundamenta diretamente o pensamento de Lafargue, genro de Karl Marx — alienação (do latim alienus, "que pertence a outro") designa o processo pelo qual o trabalhador, ao vender sua força de trabalho no sistema capitalista, perde o controle sobre o que produz, sobre o próprio ato de trabalhar e, em última instância, sobre sua condição humana genérica. O trabalho deixa de ser expressão da liberdade e da criatividade do indivíduo e passa a ser uma atividade compulsória que o esgota — exatamente a imagem da "loucura" evocada por Lafargue.

Subpasso 4.3 — Verificação com o Texto II e fechamento

A frase de Wilde reforça essa leitura por outro caminho: "ficar estúpido" não descreve falta de inteligência inata, mas a atrofia da capacidade de refletir sobre a própria existência — efeito clássico da alienação, quando o indivíduo, absorvido pela rotina produtiva, perde a distância crítica necessária para pensar sobre si mesmo e sobre a sociedade em que vive. Confirmando a alternativa contra o gabarito: o conceito que une os dois textos é a alienação, correspondente à letra A.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) alienação

✅ Correta: nomeia exatamente o processo denunciado nos dois textos — a perda da consciência crítica, da energia vital e da autonomia do trabalhador submetido ao culto ao trabalho no capitalismo.

B) higienismo

❌ Incorreta: higienismo é um movimento médico-social do fim do século XIX e início do XX voltado ao controle sanitário e à normatização de corpos e espaços urbanos em nome da saúde pública; não guarda relação com a crítica ao excesso de trabalho presente nos textos.

C) passividade

❌ Incorreta: os textos descrevem sujeitos hiperativos, entregues ao trabalho até o esgotamento das forças — o oposto de passividade. O problema apontado é o excesso de atividade produtiva, não a ausência de ação.

D) emancipação

❌ Incorreta: é o antônimo conceitual do que os textos descrevem. Emancipação significaria libertação e autonomia; Lafargue e Wilde denunciam precisamente a falta dela, provocada pelo trabalho excessivo.

E) mercantilização

❌ Incorreta: embora o pano de fundo seja a sociedade capitalista, os textos não tratam da transformação de bens ou relações em mercadorias, e sim do efeito destrutivo do trabalho excessivo sobre o próprio sujeito — sua vitalidade e sua capacidade de pensar. É uma alternativa tematicamente próxima, mas que não nomeia com precisão o processo descrito.

🏆 Gabarito: A — os dois textos descrevem, com imagens diferentes ("loucura"/esgotamento das forças vitais e "estupidez"), o mesmo fenômeno: a perda da humanidade e da consciência crítica do trabalhador submetido ao culto ao trabalho no capitalismo, isto é, a alienação.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas "alienação" nomeia com precisão o esvaziamento humano — vital e intelectual — descrito simultaneamente por Lafargue (esgotamento das forças vitais) e por Wilde (perda da capacidade crítica); nenhuma outra alternativa cobre as duas evidências ao mesmo tempo.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente combina textos literários ou filosóficos (Marx, Lafargue, Weber, Wilde, Bauman) para que o candidato reconheça, por trás da linguagem figurada, um conceito técnico de Sociologia ou Filosofia — neste caso, a alienação.
  • Generalização: sempre que um texto associar trabalho excessivo à perda de si, da saúde, do tempo livre ou da capacidade de pensar, o conceito buscado tende a ser alienação, na tradição marxista, mesmo que os termos "Marx" ou "capitalismo" não apareçam de forma explícita.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que sejam sinônimos de liberdade (emancipação) ou sem relação temática com trabalho/consciência (higienismo); "passividade" e "mercantilização" caem por serem imprecisas diante do que os textos realmente descrevem.
  • Conexões: Karl Marx e o conceito de mais-valia; Max Weber e a ética protestante do trabalho; Domenico De Masi e o "ócio criativo" como alternativa à alienação pelo trabalho.

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