Pular para o conteúdo
MemorizeMemorize
Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 23ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia

Descobrimento

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um frêmito por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei lá no norte, meu Deus!
[Muito longe de mim,
Na escuridão ativa da noite que caiu,
Um homem pálido, magro de cabelo escondendo
nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu…

ANDRADE, M. Poesias completas. Belo Horizonte: Vila Rica, 1993.

A poesia modernista de Mário de Andrade revisita o tema do nacionalismo de forma irônica ao

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Modernismo brasileiro, poesia de 1922, nacionalismo crítico
  • ⚡ Nível: Médio — exige articular a estrutura do poema (contraste espacial) com o projeto estético-ideológico do Modernismo, e não apenas "entender" o texto superficialmente
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer, em texto poético, os efeitos de sentido decorrentes do uso de recursos linguístico-literários (Competência 8/Habilidade 27 — leitura crítica de texto literário)
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "De que maneira, de modo irônico, o poema de Mário de Andrade retoma o nacionalismo?"
  • Palavras-chave decisivas: nacionalismo, de forma irônica, revisita
  • Armadilha típica: confundir o "estranhamento" do eu lírico com preconceito ou desprezo pelo homem do norte — o candidato apressado lê "esse homem é brasileiro que nem eu" como afirmação óbvia e não percebe que ela nasce de um choque, de uma distância que precisa ser vencida pelo pensamento
  • O que a resposta precisa demonstrar: entender que a ironia modernista não ridiculariza o nortista nem exalta o norte de forma idealizada — ela expõe o incômodo de reconhecer como "igual" (brasileiro) alguém geograficamente e socialmente distante, questionando a suposta unidade da nação

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Nacionalismo modernista (fase heroica, 1922-1930): ao contrário do nacionalismo romântico do século XIX — que idealizava índio, natureza e "pátria mãe gentil" —, os modernistas de 1922 tratam o Brasil de forma crítica, mostrando suas contradições internas (regiões, classes, culturas) em vez de uma identidade única e harmoniosa.
  • Ironia como recurso estrutural: o título "Descobrimento" dialoga ironicamente com o "descobrimento" de 1500 — agora quem "descobre" o Brasil é o próprio brasileiro, ao perceber, de dentro de seu escritório paulistano, que existe um compatriota completamente diferente dele, do outro lado do país.
  • Antítese espacial (São Paulo × norte): o poema constrói dois planos opostos — o eu lírico "abancado à escrivaninha", em ambiente urbano, intelectual e confortável, versus o seringueiro "muito longe", isolado na "escuridão ativa da noite", extraindo látex ("fazendo uma pele com a borracha do dia"). Essa distância física simboliza a distância social e cultural entre os "dois Brasis".
  • Brasilidade como constatação problemática, não celebração: a frase final — "Esse homem é brasileiro que nem eu" — não é um elogio fácil à diversidade; é quase uma surpresa, um "frêmito", que revela o quanto a identidade nacional é abstrata e precisa ser conquistada pela consciência, já que na prática o país é fragmentado por distâncias geográficas e sociais enormes.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Abancado à escrivaninha em São Paulo... De supetão senti um frêmito por dentro" → o poema nasce de um sobressalto repentino: o eu lírico, em seu conforto urbano, é atravessado por uma lembrança que rompe sua rotina — o "frêmito" já indica que reconhecer o outro brasileiro não é automático, é um choque.
  • Evidência 2: "Muito longe de mim... Esse homem é brasileiro que nem eu…" → a reticência final e o advérbio "longe" (repetido em destaque) mostram que a nacionalidade comum só se afirma superando uma distância física e simbólica enorme; a igualdade ("que nem eu") é dita com estranhamento, não com naturalidade.
  • Síntese: o poema organiza-se em torno de um contraste geográfico e social (escrivaninha × seringal, cidade × floresta, conforto × trabalho duro) que serve exatamente para colocar em xeque a ideia de uma nação homogênea — a distância entre os dois brasileiros é o próprio motor do poema, e reconhecê-la como parte constitutiva ("problematizar") da identidade nacional é o gesto irônico de Mário de Andrade.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o eixo estrutural do poema

O texto se organiza em dois blocos espaciais nitidamente opostos, marcados por advérbios de lugar: "em São Paulo" (v.1) e "lá no norte... muito longe de mim" (v.7-8). O eu lírico está em ambiente doméstico-intelectual ("escrivaninha", "livro"); o homem do norte está em atividade braçal noturna ("faz pouco se deitou, está dormindo", após "fazer uma pele com a borracha do dia"). Essa polarização não é decorativa: é o argumento do poema.

Subpasso 4.2 — Interpretar a função da ironia no título e no desfecho

"Descobrimento" recupera o vocabulário colonial (1500), mas o inverte: agora não é o europeu que descobre o Brasil, é o próprio brasileiro urbano, do sudeste, que "descobre" — com espanto, com "frêmito" — a existência de outro Brasil, rural e nortista, tão distante que soa quase estrangeiro. A ironia está em precisar de um esforço de memória e consciência ("Não vê que me lembrei") para reconhecer no seringueiro um compatriota igual a si ("que nem eu"). Isso revisita o nacionalismo de maneira crítica: a nação não é uma unidade evidente e dada, mas uma construção que precisa superar distâncias reais.

Subpasso 4.3 — Verificação

Ao comparar cada verso com as cinco alternativas, apenas a leitura que aponta para a tensão entre distância geográfica e ideia de nação explica tanto o título irônico quanto o clímax do poema ("brasileiro que nem eu"). Não há estereotipia degradante do nortista (ele é retratado com dignidade e labuta, não com caricatura), não há idealização bucólica (a cena é de trabalho duro e solidão), não há menção a cultura indígena/autóctone, e não há tom de rejeição às diferenças — pelo contrário, há reconhecimento fraterno, ainda que tardio e custoso. A resposta correta converge, portanto, para a alternativa que fala em "problematizar a relação entre distância geográfica e construção da nacionalidade".

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) referendar estereótipos étnicos e sociais ligados ao brasileiro nortista.

❌ Incorreta: o poema não reforça estereótipos pejorativos — o seringueiro é descrito com sobriedade e dignidade ("homem pálido, magro"), como trabalhador comum, não como caricatura étnica ou social. "Referendar" (confirmar, validar preconceitos) contraria o tom fraterno e reflexivo do texto.

B) idealizar a vida bucólica do norte do país como alternativa de brasilidade.

❌ Incorreta: não há idealização campestre ou romântica — a cena do norte é de trabalho penoso à noite ("fazer uma pele com a borracha do dia"), sem qualquer traço de vida "bucólica" ou de exaltação da natureza como refúgio, ao contrário do nacionalismo romântico do século XIX.

C) problematizar a relação entre distância geográfica e construção da nacionalidade.

✅ Correta: o poema constrói justamente essa tensão — o eu lírico só reconhece o seringueiro como "brasileiro que nem eu" depois de vencer, pela memória e pela emoção, a enorme distância física e social entre São Paulo e o norte. A nacionalidade deixa de ser um dado óbvio e passa a ser uma construção que precisa incorporar essa diversidade e distância internas ao país.

D) questionar a participação da cultura autóctone na formação da identidade nacional.

❌ Incorreta: não há qualquer referência a indígenas, cultura autóctone ou tradições ancestrais no poema — o foco é o contraste entre dois trabalhadores/cidadãos brasileiros contemporâneos, um urbano e outro rural, e não uma discussão sobre origens étnicas pré-coloniais.

E) propalar uma inquietação desfavorável quanto à aceitação das diferenças socioculturais.

❌ Incorreta: o movimento do poema é justamente o oposto — ele caminha em direção à aceitação e ao reconhecimento fraterno da diferença ("esse homem é brasileiro que nem eu"), não à rejeição. A "inquietação" existe, mas é o gatilho para o reconhecimento, não uma postura "desfavorável" às diferenças.

🏆 Gabarito: C — o poema usa o contraste entre a escrivaninha paulistana e o seringal nortista para revelar, de forma irônica, que a identidade nacional não é natural nem homogênea: ela exige reconhecer, através da distância geográfica e social, que o outro — por mais diferente e distante que pareça — também é brasileiro.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C descreve com precisão o mecanismo do poema: a ironia nasce exatamente da tensão entre "estar longe" (geograficamente) e "ser igual" (nacionalmente), sem cair em estereótipo (A), idealização (B), tema indígena (D) ou rejeição da diferença (E).
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra textos da Semana de Arte Moderna de 1922 (Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira) que revisitam o nacionalismo de forma crítica, contrapondo-o ao nacionalismo ufanista do Romantismo (José de Alencar, Gonçalves Dias) — sempre espere um contraste entre "Brasil idealizado" e "Brasil real e fragmentado".
  • Generalização: quando um poema modernista trabalha um contraste espacial ou social explícito (cidade × campo, litoral × interior, riqueza × pobreza) para falar de identidade nacional, a leitura correta quase sempre envolve "problematizar", "relativizar" ou "criticar" a unidade nacional — nunca "celebrar" ou "idealizar" ingenuamente.
  • Dica de eliminação rápida: primeiro elimine alternativas com verbos de sentido positivo/ingênuo ("idealizar", "referendar" no sentido de validar) quando o texto tem tom irônico e crítico; depois elimine temas que não aparecem no texto (cultura indígena, em D); o que sobra tende a ser a leitura problematizadora.
  • Conexões: Semana de Arte Moderna de 1922; poema-piada e ironia modernista; "Macunaíma" (Mário de Andrade) e a busca por uma identidade nacional múltipla e contraditória.

Comunidade Memorize · Grátis

Não perca nenhuma live, aula ou material.

Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.