Mapa de questões · 1º dia
Questão 39 — ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia
E.C.T.
Tava com um cara que carimba postais
E por descuido abriu uma carta que voltou
Tomou um susto que lhe abriu a boca
Esse recado veio pra mim, não pro senhor
Recebo craque colante, dinheiro parco embrulhado
Em papel carbono e barbante e até cabelo cortado
Retrato de 3X4
Pra batizado distante
Mas, isso aqui, meu senhor, é uma carta de amor
[…]
Mas esse cara tem a língua solta
A minha carta ele musicou
[…]
Ouvi no rádio a minha carta de amor
CARLINHOS BROWN; MARISA MONTE; NANDO REIS. Cássia Eller. Rio de Janeiro: Polygram, 1994 (fragmento).
Considerando-se as características do gênero carta de amor, o conflito gerador do fato relatado na letra da canção deve-se à
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Gêneros textuais, intertextualidade e esfera de circulação
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer um conceito linguístico específico (esfera de circulação) e não apenas interpretar o sentido literal da letra
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer como um mesmo conteúdo (a carta) muda de função e de contexto social ao migrar para outro gênero (a canção)
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que a relação entre a carta e a canção, descrita no texto, revela sobre o gênero carta?"
- Palavras-chave decisivas: carta que voltou, A minha carta ele musicou, Ouvi no rádio a minha carta de amor
- Armadilha típica: confundir o eixo temático (o amor vira música) com o eixo real da questão, que é o circuito social por onde o texto passa a circular — do correio íntimo para o rádio público.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que um gênero textual não é só forma e conteúdo, mas também o espaço social em que ele é produzido e consumido; quando esse espaço muda, o gênero "migra" de esfera.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Gênero textual: forma relativamente estável de enunciado, ligada a uma finalidade e a um suporte (a carta, o bilhete, a canção, o e-mail).
- Esfera de circulação (ou esfera de atividade humana, conceito de Bakhtin): o campo social — familiar, jornalístico, artístico, jurídico etc. — em que um gênero nasce e é normalmente consumido. A carta de amor pertence, a princípio, à esfera privada/íntima (remetente → destinatário, via correio).
- Transposição/mudança de esfera: quando o mesmo conteúdo verbal passa a circular em um campo social diferente do original — por exemplo, quando um texto pessoal se torna público — ele não muda apenas de suporte, muda a lógica de quem o produz, quem o recebe e com que finalidade social ele passa a existir.
- Intertextualidade: diálogo entre textos; aqui, a canção "nasce" de dentro de uma carta, tomando-a como matéria-prima, mas o efeito central buscado pela letra é comentar essa mudança de contexto — a "carta" que era só para os olhos de um destinatário agora toca no rádio, para milhares de ouvintes.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "isso aqui, meu senhor, é uma carta de amor" → o eu lírico reafirma, ao funcionário dos Correios, a natureza privada e íntima do texto: é uma carta pessoal, endereçada a alguém específico, não um material de domínio público.
- Evidência 2: "Mas esse cara tem a língua solta / A minha carta ele musicou" → o "cara" (o funcionário indiscreto) rompe o sigilo da correspondência e transforma o conteúdo íntimo em letra de canção — a carta deixa de pertencer só ao remetente e ao destinatário.
- Evidência 3: "Ouvi no rádio a minha carta de amor" → o desfecho comprova a mudança de circuito: o texto que nasceu no envelope, feito para circular pelo correio entre duas pessoas, termina difundido pelo rádio, meio de massa, ouvido por qualquer um.
- Síntese: a canção narra, do início ao fim, a trajetória de um texto que sai de uma esfera de comunicação privada (a correspondência pessoal, protegida por sigilo) e passa a circular em uma esfera pública e midiática (a música tocada no rádio). É exatamente essa mudança de esfera — e não a simples repetição do tema do amor — que estrutura o sentido do poema-canção.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o gênero de origem e seu contexto social
A carta, no texto, é caracterizada por elementos típicos de sua esfera: remetente e destinatário definidos ("meu senhor" refere-se ao funcionário dos Correios, intermediário involuntário), sigilo esperado (o "descuido" de abrir a carta é narrado como uma falha grave), e conteúdo pessoal e afetivo ("carta de amor", craque colante, dinheiro embrulhado, retrato 3x4, cabelo cortado — itens de uma relação íntima e afetuosa). Esse é o comportamento típico da esfera privada de comunicação.
Subpasso 4.2 — Mapear a transformação narrada
O eixo dramático da letra é a violação dessa privacidade: o funcionário não apenas lê a carta (já uma quebra de sigilo), como vai além e a transforma em canção — ou seja, transpõe o conteúdo de um gênero de circulação restrita (carta, entre duas pessoas, via Correios) para um gênero de circulação ampla e pública (canção, via rádio, para uma audiência de massa). O verbo "musicou" marca o ponto de virada: o texto muda de suporte, de finalidade e, sobretudo, de esfera social de circulação.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confirmando com o desfecho "Ouvi no rádio a minha carta de amor": o eu lírico, dono original da carta, se surpreende ao encontrá-la em um espaço público de massa (o rádio), o que só é possível porque a esfera de circulação do texto mudou — de privada (correio, entre duas pessoas) para pública (rádio, para todos). Essa constatação corresponde exatamente à alternativa D e nenhuma outra alternativa nomeia esse fenômeno com precisão.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) adequação dos interlocutores à situação de comunicação na carta e na letra da canção.
❌ Incorreta: o texto narra justamente o oposto — uma inadequação. A carta era destinada a um único interlocutor íntimo; ao ser musicada e tocada no rádio, ela passa a se dirigir a um público indeterminado, sem que essa nova situação de comunicação tenha sido autorizada ou planejada pelo remetente original. Não há "adequação", há ruptura do contrato comunicativo inicial.
B) apropriação das formas de expressão da carta pela letra da canção.
❌ Incorreta: a canção não incorpora estruturas formais próprias da carta (saudação, fecho, formato epistolar) como recurso estilístico central. O que ocorre não é uma imitação da forma da carta pela canção, mas o deslocamento do próprio conteúdo da carta para outro circuito social. O foco do texto é o trajeto do conteúdo, não a cópia de convenções formais do gênero carta.
C) manutenção do propósito comunicativo da carta na letra da canção.
❌ Incorreta: o propósito muda radicalmente. A carta original tinha finalidade privada — declarar amor a uma pessoa específica. Ao virar canção de rádio, a finalidade passa a ser artística e pública (composição musical difundida em massa), perdendo o endereçamento único que definia seu propósito comunicativo inicial. Não há manutenção, há substituição de finalidade.
D) alteração da esfera de circulação específica do gênero carta.
✅ Correta: o texto mostra, do começo ao fim, a carta saindo de seu circuito natural — a correspondência privada, protegida por sigilo, entregue por meio dos Correios — para circular em uma esfera pública e midiática, a canção tocada no rádio. Essa mudança de campo social de circulação é exatamente o fenômeno descrito e o que torna a situação surpreendente e até cômica para o eu lírico.
E) transposição da temática do amor para a linguagem musical.
❌ Incorreta (parcialmente verdadeira, mas insuficiente): é verdade que o tema amoroso vira canção, mas essa leitura fica no nível temático e não capta o ponto central explorado pelo texto, que é o circuito social por onde a carta passa a transitar. A crítica embutida na letra não é "o amor virou música", é "um texto privado tornou-se público sem consentimento" — o que caracteriza mudança de esfera, não apenas de tema.
🏆 Gabarito: D — a canção narra a passagem da carta de uma esfera privada de comunicação (correspondência pessoal) para uma esfera pública de circulação em massa (rádio), o que configura alteração da esfera de circulação específica do gênero carta.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa D nomeia com precisão o fenômeno central da letra: a migração do conteúdo da carta de um circuito privado (correio) para um circuito público (rádio), o que caracteriza mudança de esfera de circulação do gênero.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra questões sobre gêneros textuais que testam se o candidato entende gênero como algo além de "forma + conteúdo" — envolvendo também suporte, finalidade e esfera social. Costumam usar textos que dialogam entre si (carta, bilhete, receita, notícia) mudando de contexto para testar essa percepção.
- Generalização: sempre que um texto mostrar um mesmo conteúdo migrando de um gênero/suporte para outro (carta → canção, diário → livro, conversa → reportagem), pergunte-se: mudou apenas a forma, ou mudou também o público, a finalidade e o campo social de circulação? Se mudou o campo social, a resposta provavelmente envolve "esfera de circulação".
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que falam em "manutenção" ou "adequação" quando o texto narra uma ruptura de sigilo/indiscrição (como "língua solta") — esse tipo de vocabulário no enunciado quase sempre sinaliva quebra, não continuidade. Depois, prefira a alternativa que nomeia o contexto/circuito de circulação em vez da que nomeia apenas o tema.
- Conexões: teoria dos gêneros do discurso de Mikhail Bakhtin (esferas de atividade humana); questões sobre intertextualidade entre gêneros (paródia, estilização, retextualização) frequentes em provas de Linguagens do ENEM.
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