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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaMédio

Questão 73ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia

Para Rawls, a estrutura básica mais justa de uma sociedade é aquela que alguém escolheria se não soubesse qual viria a ser seu papel particular no sistema de cooperação daquela sociedade.

LOVATTI, P. Uma teoria da justiça, de John Rawls. Porto Alegre: Penso, 2013.

A teoria da justiça proposta pelo autor, conforme exposto no texto, pressupõe assumir uma posição hipotética chamada de

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Política, Teoria da Justiça de John Rawls
  • ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer um conceito técnico específico (não basta "achismo" sobre justiça; é preciso saber o vocabulário próprio de Rawls)
  • 🎯 Tema/Habilidade: Contratualismo contemporâneo e a ideia de justiça como equidade — competência de reconhecer processos de pensamento filosófico e correntes deste campo do conhecimento
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Como se chama a posição hipotética de não saber qual papel se ocupará na sociedade, usada por Rawls para pensar a justiça?"
  • Palavras-chave decisivas: não soubesse, papel particular, sistema de cooperação
  • Armadilha típica: confundir esse experimento mental de Rawls com o "estado de natureza" dos contratualistas clássicos (Hobbes, Locke, Rousseau) — ambos são cenários hipotéticos e pré-políticos, o que gera confusão de nomes
  • O que a resposta precisa demonstrar: conhecimento do vocabulário técnico específico de Rawls, distinguindo-o de outras tradições filosóficas que também usam "posições hipotéticas" (teologia, utopismo, jusnaturalismo, utilitarismo)

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • John Rawls: filósofo político estadunidense do século XX, autor de "Uma Teoria da Justiça" (1971), principal referência do liberalismo igualitário contemporâneo. Busca responder: quais princípios de justiça uma sociedade racional escolheria para organizar suas instituições básicas?
  • Posição original (original position): cenário hipotético e ideal criado por Rawls — uma espécie de "assembleia constituinte imaginária" em que indivíduos racionais decidem, juntos, quais serão os princípios de justiça que vão reger a sociedade em que vivem.
  • Véu da ignorância (veil of ignorance): o dispositivo que garante a imparcialidade da posição original. Sob o véu, cada indivíduo ignora sua própria classe social, raça, gênero, talentos naturais, religião e concepção de "vida boa". Sem saber que lugar ocupará no sistema social, ele é forçado a escolher regras justas para qualquer posição — inclusive a pior possível.
  • Justiça como equidade (justice as fairness): o nome que Rawls dá à sua própria teoria. A ideia central é que princípios escolhidos em condições equitativas (o véu) tendem a ser justos, porque ninguém pode manipular as regras a seu próprio favor.
  • Contraste com o Estado de natureza (Hobbes, Locke, Rousseau): nos contratualistas clássicos, o "estado de natureza" é a condição humana hipotética anterior à existência do Estado e das leis — o foco está em por que os homens abrem mão da liberdade natural para viver em sociedade. Rawls não discute a origem do Estado, mas sim como distribuir justamente direitos, deveres e bens dentro de uma sociedade já organizada — por isso seu experimento mental tem outro nome e outra função.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "a estrutura básica mais justa de uma sociedade é aquela que alguém escolheria" → remete diretamente à posição original, o cenário de escolha racional dos princípios de justiça.
  • Evidência 2: "se não soubesse qual viria a ser seu papel particular no sistema de cooperação daquela sociedade" → é a descrição textual, quase literal, do véu da ignorância: o desconhecimento da própria posição social como condição para uma escolha imparcial.
  • Síntese: o texto de Lovatti parafraseia com precisão o experimento mental de Rawls. A pergunta não pede o nome da teoria geral ("justiça como equidade"), mas o nome específico da posição hipotética de desconhecimento — e esse nome é o véu da ignorância.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar a estrutura lógica do experimento mental

Rawls propõe testar a justiça de um conjunto de regras sociais perguntando: "essas regras seriam aceitas por alguém que ainda não sabe se vai nascer rico ou pobre, homem ou mulher, talentoso ou não, maioria ou minoria?" Essa é a lógica da posição original. O enunciado descreve exatamente esse teste: "escolheria se não soubesse qual viria a ser seu papel particular".

Subpasso 4.2 — Nomear o mecanismo que garante a imparcialidade

O elemento que impede o indivíduo de saber sua posição social é, na terminologia de Rawls, o véu da ignorância. É uma metáfora: como se um véu cobrisse os olhos do sujeito, escondendo dele informações sobre sua própria identidade social, para que ele raciocine apenas em termos gerais e universais — o que é justo para qualquer pessoa, independente de quem ela seja.

Subpasso 4.3 — Verificação

Comparando a definição-padrão do véu da ignorância ("condição hipotética em que os indivíduos desconhecem sua posição social, talentos, riqueza e concepção de bem ao formular princípios de justiça") com o enunciado ("não soubesse qual viria a ser seu papel particular no sistema de cooperação"), a correspondência é direta e inequívoca. Nenhuma outra alternativa descreve esse mecanismo específico de ocultação da identidade social como pré-condição de escolha justa.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) reino de Deus.

❌ Incorreta: é um conceito teológico-escatológico (presente no cristianismo, por exemplo), relacionado à soberania divina e à salvação, sem qualquer relação com a filosofia política contratualista de Rawls, que é uma teoria secular e racionalista.

B) mundo da utopia.

❌ Incorreta: "utopia" (de Thomas More) designa uma sociedade ideal, inexistente, imaginada como modelo perfeito a ser contemplado ou almejado. Rawls não propõe uma sociedade ideal fictícia, mas um procedimento racional de escolha de princípios aplicáveis a sociedades reais.

C) véu da ignorância.

✅ Correta: é exatamente o conceito rawlsiano que descreve a condição hipotética de desconhecimento da própria posição social, usada como critério de imparcialidade na escolha dos princípios de justiça — correspondência literal com o enunciado.

D) estado da natureza.

❌ Incorreta: é o conceito característico dos contratualistas clássicos (Hobbes, Locke, Rousseau), que descreve a condição humana hipotética anterior à formação do Estado e das leis civis. Rawls não trabalha com a origem do Estado, mas com a distribuição justa de bens e direitos dentro de uma sociedade já constituída — por isso seu conceito recebe outro nome.

E) cálculo da felicidade.

❌ Incorreta: remete ao utilitarismo (Jeremy Bentham, John Stuart Mill), corrente que Rawls critica explicitamente por permitir sacrificar a liberdade e os direitos de minorias em nome da maximização da felicidade agregada da maioria. Rawls propõe justamente uma alternativa ao utilitarismo.

🏆 Gabarito: C — o texto descreve com precisão o véu da ignorância, dispositivo central da teoria da justiça de Rawls que garante escolhas imparciais ao ocultar dos indivíduos sua posição social real.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C nomeia corretamente o mecanismo de desconhecimento da posição social usado por Rawls; todas as demais pertencem a outros sistemas filosóficos (teologia, utopismo, contratualismo clássico, utilitarismo).
  • Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer uma paráfrase ou citação de comentador (como neste caso, Lovatti) descrevendo o experimento mental de Rawls sem usar o termo técnico, exigindo que o estudante reconheça o conceito pela definição.
  • Generalização: sempre que a questão mencionar "desconhecer sua própria posição social/talentos/riqueza para decidir regras justas", a resposta é véu da ignorância; sempre que mencionar "condição humana antes do Estado/das leis", a resposta é estado de natureza — são os dois cenários hipotéticos mais cobrados em filosofia política no ENEM e não podem ser confundidos.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara "reino de Deus" (teologia) e "cálculo da felicidade" (utilitarismo, autor diferente); em seguida, separe "estado da natureza" (contratualistas clássicos, sobre a origem do Estado) do "véu da ignorância" (Rawls, sobre a distribuição justa de bens) — a chave é notar que o enunciado fala em "papel... no sistema de cooperação", ou seja, posição social dentro de uma sociedade já existente.
  • Conexões: liberalismo igualitário; princípio da diferença (as desigualdades sociais só se justificam se beneficiarem os mais desfavorecidos); contratualismo clássico (Hobbes, Locke, Rousseau) como contraponto histórico.

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