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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaDifícil

Questão 76ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia

Polemizando contra a tradicional tese aristotélica, que via na sociedade o resultado de um instinto primordial, Hobbes sustenta que no gênero humano, diferentemente do animal, não existe sociabilidade instintiva. Entre os indivíduos não existe um amor natural, mas somente uma explosiva mistura de temor e necessidade recíprocos que, se não fosse disciplinada pelo Estado, originaria uma incontrolável sucessão de violências e excessos.

NICOLAÚ, J. Antologia ilustrada de filosofia: das origens à idade moderna. São Paulo: Globo, 2005 (adaptado).

Referente à constituição da sociedade civil, considere, respectivamente, o correto posicionamento de Aristóteles e Hobbes:

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Política: contratualismo, estado de natureza e o par Aristóteles × Hobbes
  • ⚡ Nível: Difícil — exige memorizar com precisão duas teorias filosóficas distintas e reconhecer paráfrases sofisticadas de cada uma, descartando armadilhas que remetem a outros autores (Rousseau, Marx, Weber, Adam Smith, Hegel)
  • 🎯 Tema/Habilidade: Origem da sociedade civil em Aristóteles (sociabilidade natural) versus Hobbes (artifício contratual) — competência de leitura filosófica comparada e reconhecimento de correntes de pensamento (H6/C1, área de Ciências Humanas)
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual alternativa descreve corretamente, na ordem, como Aristóteles e como Hobbes explicam a origem da sociedade civil?"
  • Palavras-chave decisivas: instinto primordial (Aristóteles, citado no texto-base para ser contrastado), não existe sociabilidade instintiva (Hobbes), disciplinada pelo Estado (papel do Estado em Hobbes)
  • Armadilha típica: trocar a ordem dos filósofos, ou aceitar alternativas que soam filosoficamente "corretas" isoladamente mas pertencem a outro pensador (por exemplo, confundir o artifício de Hobbes com o contrato social de Rousseau, ou a legitimação da violência com Max Weber)
  • O que a resposta precisa demonstrar: domínio do binômio natureza × artifício que organiza toda a filosofia política clássica — Aristóteles funda a política na natureza humana; Hobbes funda a política na necessidade de contê-la

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Zoon politikon (Aristóteles): na Política, Aristóteles define o ser humano como "animal político por natureza" — a polis não é uma invenção artificial, mas a forma mais acabada de associações naturais que começam na família e na aldeia. Viver em sociedade é a realização plena da natureza humana, não uma imposição externa a ela.
  • Estado de natureza e "homem lobo do homem" (Hobbes): em Leviatã (1651), Hobbes descreve um hipotético estado pré-social marcado por igualdade de poder, escassez de recursos e medo recíproco, que gera uma "guerra de todos contra todos" (bellum omnium contra omnes). Não há sociabilidade natural — apenas paixões (medo da morte violenta e desejo de autopreservação) que levam os indivíduos, por cálculo racional, a pactuar entre si.
  • Contrato social como artifício: para Hobbes, o Estado (o "Leviatã") nasce de um pacto artificial pelo qual os indivíduos transferem seus direitos naturais a um soberano absoluto, cuja função é justamente frear as tendências violentas da natureza humana que, sem essa contenção, destruiriam a convivência.
  • Contexto histórico: Hobbes escreve em meio à Guerra Civil Inglesa, o que explica sua ênfase no medo do caos e na necessidade de uma autoridade forte e centralizada capaz de garantir a paz — ao contrário de Aristóteles, que teoriza a partir da experiência da polis grega, comunidade política já dada e naturalizada.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Polemizando contra a tradicional tese aristotélica, que via na sociedade o resultado de um instinto primordial" → o próprio enunciado já entrega a posição de Aristóteles: a sociedade decorre de algo inato, natural, instintivo — não construído.
  • Evidência 2: "Hobbes sustenta que no gênero humano [...] não existe sociabilidade instintiva [...] somente uma explosiva mistura de temor e necessidade recíprocos que, se não fosse disciplinada pelo Estado, originaria uma incontrolável sucessão de violências" → isso define com exatidão a função do Estado em Hobbes: ele não nasce da natureza social do homem, mas é criado artificialmente para conter (frear) uma natureza humana potencialmente destrutiva.
  • Síntese: o texto-base constrói uma oposição direta e explícita — Aristóteles (sociedade = natureza realizada) versus Hobbes (sociedade = artifício de contenção). A alternativa correta precisa reproduzir exatamente essa dupla oposição, na ordem "Aristóteles, depois Hobbes" pedida pelo comando.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Isolar a posição de Aristóteles

O enunciado afirma que, para Aristóteles, a sociedade é "resultado de um instinto primordial". Traduzindo para o vocabulário da filosofia política, isso equivale a dizer que a sociedade civil é a realização das disposições naturais do homem: o ser humano já nasce com a inclinação para viver em comunidade política, e o Estado (a polis) é apenas o ponto de chegada natural dessa inclinação, e não algo construído contra ela.

Subpasso 4.2 — Isolar a posição de Hobbes

O texto diz que, em Hobbes, não há "sociabilidade instintiva", apenas medo e necessidade que, sem controle, gerariam violência incontrolável — por isso a sociedade precisa ser "disciplinada pelo Estado". Isso corresponde exatamente a um artifício necessário para frear a natureza humana: o Estado não decorre de um impulso social espontâneo, mas é um mecanismo artificial (o pacto/contrato) criado deliberadamente para conter os impulsos violentos que a natureza humana, deixada livre, produziria.

Subpasso 4.3 — Verificação

Juntando os dois resultados na ordem pedida (Aristóteles, depois Hobbes): "realização das disposições naturais do homem" + "artifício necessário para frear a natureza humana". Comparando com as cinco alternativas, essa formulação corresponde literalmente à alternativa B — nenhuma outra alternativa reproduz esse par com precisão conceitual.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) Instrumento artificial para a realização da justiça e forma de legitimação do exercício da coerção e da violência.

❌ Incorreta: descreve Aristóteles como defensor de um instrumento artificial, invertendo exatamente sua tese (para ele a sociedade é natural, não artificial). A segunda parte, "legitimação do exercício da coerção e da violência", é mais próxima da definição weberiana de Estado (monopólio legítimo da violência) do que da concepção de Hobbes, cujo ponto central é a contenção da violência, não sua legitimação como fim em si.

B) Realização das disposições naturais do homem e artifício necessário para frear a natureza humana.

✅ Correta: reproduz com exatidão a dupla oposição do texto — Aristóteles vê a sociedade como o desdobramento natural do homem (zoon politikon); Hobbes vê o Estado como artifício racional criado para conter a violência que a natureza humana, sem freios, produziria.

C) Resultado involuntário da ação de cada indivíduo e anulação dos impulsos originários presentes na natureza humana.

❌ Incorreta: "resultado involuntário da ação de cada indivíduo" lembra mais a ideia de ordem espontânea de Adam Smith (mão invisível) do que Aristóteles, para quem a sociabilidade é finalidade natural consciente, não subproduto acidental. E "anulação dos impulsos" não cabe a Hobbes, que não busca anular, mas apenas disciplinar e conter os impulsos por meio do pacto.

D) Objetivação dos desejos da maioria e representação construída para possibilitar as relações interpessoais.

❌ Incorreta: fala em "desejos da maioria" e "representação", vocabulário típico de teorias democráticas ou contratualistas posteriores (mais próximo de Rousseau/tradição republicana moderna), sem relação com a tese aristotélica da natureza política do homem nem com o pacto hobbesiano centrado no medo e na autopreservação.

E) Realização da razão e expressão da vontade dos governados.

❌ Incorreta: "realização da razão" e "vontade dos governados" remetem a Hegel (Estado como realização da razão/eticidade) e a teorias de soberania popular como as de Rousseau, não a Aristóteles (que fala em natureza, não em razão abstrata do Estado) nem a Hobbes (cujo soberano não expressa a vontade dos governados, mas recebe seus direitos transferidos por medo).

🏆 Gabarito: B — Aristóteles concebe a sociedade como realização natural do homem, enquanto Hobbes a concebe como artifício racional criado justamente para frear a violência inerente à natureza humana; apenas a alternativa B reproduz essa oposição com fidelidade conceitual.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: somente a alternativa B mantém a coerência dupla exigida pela questão — natural em Aristóteles, artificial em Hobbes — sem deslizar para vocabulário de outros filósofos.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente contrapõe contratualistas (Hobbes, Locke, Rousseau) entre si ou contra a tradição clássica (Aristóteles/Platão), sempre explorando a origem e a finalidade do Estado e da sociedade civil.
  • Generalização: ao ler uma questão comparando filósofos políticos, identifique primeiro se cada um defende que a sociedade é natural (Aristóteles) ou artificial/contratual (Hobbes, Locke, Rousseau) — esse é o critério mais rápido de classificação.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de cara qualquer alternativa que use "razão", "vontade dos governados" ou "representação" para Aristóteles/Hobbes (isso é Hegel/Rousseau/democracia moderna); descarte também as que tratam a origem da sociedade como algo "involuntário" ou puramente "coercitivo" (Adam Smith/Weber).
  • Conexões: compare com Hobbes × Locke × Rousseau (diferentes formas de contrato social) e com a Política de Aristóteles (livro I, sobre a origem da polis a partir da família e da aldeia).

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