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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 11ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia

A caolha

A caolha era uma mulher magra, alta, macilenta, peito fundo, busto arqueado, braços compridos, delgados, largos nos cotovelos, grossos nos pulsos; mãos grandes, ossudas, estragadas pelo reumatismo e pelo trabalho; unhas grossas, chatas e cinzentas, cabelo crespo, de uma cor indecisa entre o branco sujo e o louro grisalho, desse cabelo cujo contato parece dever ser áspero e espinhento; boca descaída, numa expressão de desprezo, pescoço longo, engelhado, como o pescoço dos urubus; dentes falhos e cariados. O seu aspecto infundia terror às crianças e repulsão aos adultos; não tanto pela sua altura e extraordinária magreza, mas porque a desgraçada tinha um defeito horrível: haviam-lhe extraído o olho esquerdo; a pálpebra descera mirrada, deixando, contudo, junto ao lacrimal, uma fístula continuamente porejante. Era essa pinta amarela sobre o fundo denegrido da olheira, era essa destilação incessante de pus que a tornava repulsiva aos olhos de toda a gente.

ALMEIDA, J. L. In: COSTA, F. M. (org.). Os melhores contos brasileiros de todos os tempos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

Que procedimento composicional o narrador utiliza para caracterizar a aparência da personagem?

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → procedimentos composicionais na descrição de personagem (Naturalismo/Realismo)
  • ⚡ Nível: Médio — exige distinguir a técnica dominante do texto entre cinco opções plausíveis, sem cair na alternativa que descreve só um detalhe do trecho
  • 🎯 Tema/Habilidade: reconhecimento de procedimentos composicionais em texto literário (Competência de Área 1/3 de Linguagens — analisar recursos de construção do texto)
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual é a técnica de escrita que o narrador usa para montar o retrato físico da personagem?"
  • Palavras-chave decisivas: magra, macilenta, estragadas, cariados, repulsiva
  • Armadilha típica: prender-se só ao final do texto (a fístula, o olho arrancado) e marcar a alternativa E, achando que "a deformidade" é o procedimento — quando na verdade ela é só um dos muitos elementos do retrato.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar o recurso linguístico que se repete do início ao fim do parágrafo, e não apenas um conteúdo isolado citado no texto.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Procedimento composicional: a técnica, o "como", que o autor usa para construir um efeito de sentido — diferente do "o quê" (o conteúdo). A questão não pergunta o que a caolha tem de feio, e sim como o narrador constrói essa feiura no texto.
  • Descrição naturalista: herdeira do Realismo-Naturalismo do fim do século XIX, privilegia o detalhe físico cru, ligado à doença e à deformidade, acumulando adjetivos de carga negativa para produzir repulsa — o "efeito de grotesco".
  • Adjetivação depreciativa: adjetivos que rebaixam o que qualificam ("macilenta", "ossudas", "cariados", "engelhado"). Quando se acumulam em série, formam um procedimento composicional identificável — a base da resposta correta.
  • Foco narrativo: o narrador é onisciente e externo à cena, descrevendo de fora, em terceira pessoa, sem filtrar a descrição pela percepção de nenhuma criança — o que já descarta alternativas ligadas a um ponto de vista interno.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "mulher magra, alta, macilenta, peito fundo, busto arqueado, braços compridos, delgados, largos nos cotovelos, grossos nos pulsos" → só na primeira frase já há oito qualificações físicas negativas em sequência, a marca estilística do trecho inteiro.
  • Evidência 2: "mãos grandes, ossudas, estragadas... unhas grossas, chatas e cinzentas... boca descaída... pescoço longo, engelhado... dentes falhos e cariados" → o padrão se repete em cada parte do corpo (mãos, unhas, cabelo, boca, pescoço, dentes), cada uma com sua carga própria de adjetivos depreciativos.
  • Síntese: a personagem é construída por acumulação de adjetivos negativos ao longo de todo o corpo descrito, e só nas linhas finais o foco se estreita no olho e na fístula. O procedimento dominante, que sustenta o parágrafo inteiro, é a adjetivação depreciativa.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Reconhecer o gênero e a filiação estética do texto

O excerto pertence à tradição realista-naturalista brasileira (a atribuição "ALMEIDA, J. L." remete a Júlia Lopes de Almeida). Traço central dessa estética: a descrição física minuciosa, quase clínica, de personagens marginalizados ou deformados, carregada de juízo negativo embutido no próprio vocabulário. Isso orienta a busca — o procedimento típico dessa escola, não uma característica de enredo.

Subpasso 4.2 — Mapear a estrutura frasal da descrição

A primeira frase é uma enumeração corrida, quase um catálogo, em que cada substantivo do corpo (peito, busto, braços, cotovelos, pulsos, mãos, unhas, cabelo, boca, pescoço, dentes) vem acompanhado de adjetivos que rebaixam a figura ("fundo", "arqueado", "ossudas", "estragadas", "descaída", "engelhado", "cariados"). Esse encadeamento de adjetivos pejorativos — e não a simples menção de um defeito — é o que estrutura o texto do começo ao fim; até a frase final ("infundia terror... repulsão") é consequência desse acúmulo, não uma técnica à parte.

Subpasso 4.3 — Verificação cruzada com as alternativas

Só a alternativa que nomeia esse mecanismo — "a descrição marcada por adjetivações depreciativas" — descreve com precisão o que ocorre em todo o parágrafo. As demais ou descrevem um fenômeno ausente do texto (alternância verbal, correlação físico-moral) ou tomam um detalhe pontual (o medo das crianças, a deformidade do olho) como se fosse o procedimento inteiro.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) a descrição marcada por adjetivações depreciativas.

✅ Correta: é o mecanismo que sustenta o texto inteiro — dezenas de adjetivos negativos ("magra", "macilenta", "ossudas", "estragadas", "descaída", "engelhado", "cariados", "repulsiva") aplicados a cada parte do corpo, criando o efeito de grotesco típico da estética naturalista.

B) a alternância dos tempos e modos verbais da narrativa.

❌ Incorreta: o trecho é construído quase todo no pretérito imperfeito do indicativo ("era", "infundia", "descera"), num tempo estático de descrição, sem variação relevante de tempo ou modo verbal.

C) a adoção de um ponto de vista centrado no medo das crianças.

❌ Incorreta: o medo das crianças aparece apenas como efeito da aparência da personagem ("infundia terror às crianças"), não como o ponto de vista de onde a cena é narrada — o narrador permanece onisciente e externo, sem adotar a perspectiva subjetiva de nenhuma criança.

D) a objetividade da correlação entre imperfeições físicas e morais.

❌ Incorreta: o texto se detém apenas no plano físico; em nenhum momento o narrador afirma ou insinua que a feiura da caolha corresponda a um defeito de caráter — essa correlação não está escrita no trecho.

E) a especificação da deformidade responsável pela feição assustadora.

❌ Incorreta: o olho extraído e a fístula são apenas o fecho do parágrafo, um detalhe entre vários. Reduzir o procedimento a essa única deformidade ignora que o retrato inteiro (mãos, cabelo, dentes, pescoço, boca) já vinha sendo construído por adjetivação negativa desde a primeira linha — o próprio texto avisa: "não tanto pela sua altura e extraordinária magreza, mas...", mostrando que o efeito é somatório, não pontual.

🏆 Gabarito: A — o narrador caracteriza a aparência da caolha por meio de uma descrição saturada de adjetivos depreciativos, aplicados sistematicamente a cada parte do corpo da personagem, procedimento típico da estética naturalista.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa A nomeia o recurso que atravessa o texto inteiro — o acúmulo de adjetivos de sentido negativo — enquanto as demais descrevem fenômenos ausentes do trecho ou tomam uma parte pelo todo.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos literários do Realismo-Naturalismo e pergunta pelo "procedimento", "recurso" ou "estratégia" usada na construção de um personagem ou cena — forma clássica de testar leitura de estilo, não só de conteúdo.
  • Generalização: diante de "procedimento composicional", pergunte-se qual recurso de linguagem se repete do início ao fim do texto. A resposta certa costuma nomear esse padrão estrutural, nunca um detalhe isolado.
  • Dica de eliminação rápida: risque de cara alternativas que descrevam algo ausente do texto (alternância verbal, correlação moral explícita) e desconfie das que citam só um trecho específico — se o recurso aparece do começo ao fim, a resposta certa precisa dar conta do texto inteiro.
  • Conexões: Realismo-Naturalismo brasileiro; foco narrativo e tipos de narrador; adjetivação e conotação como recursos estilísticos.

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