Mapa de questões · 1º dia
Questão 31 — ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia
Amor na escola
Duas da madrugada. O casal que discute no andar de baixo está tentando aprender. Eles pensavam que era só vestir branco, caprichar na decoração e fazer os convites chegarem a tempo. Mas não. Na escola, até logaritmo nos foi ensinado. Decoramos a tabela periódica. Nos empurraram química orgânica. Mas nada nos foi dito sobre o amor.
GUERRA, C. Disponível em: http://vejabh.abril.com.br. Acesso em: 19 nov. 2014.
Qual é o recurso que identifica esse texto como uma crônica?
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → gênero crônica; humor e ironia; observação do cotidiano
- ⚡ Nível: Fácil — exige apenas reconhecer, entre os elementos textuais listados, qual deles é a base estrutural do efeito de sentido, e não um mero detalhe decorativo
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento das marcas do gênero crônica (competência de leitura e análise de gêneros textuais e recursos linguísticos)
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "A crônica parte de uma situação corriqueira, reconhecível pelo leitor, para construir uma reflexão mais ampla e irônica. No texto 'Amor na escola', qual elemento sustenta esse efeito característico do gênero?"
- Palavras-chave decisivas: casal que discute, cotidiano, fato do dia a dia
- Armadilha típica: confundir detalhes da narrativa (horário, local, conteúdos escolares, conjunção repetida) com a causa do efeito de sentido — a maioria é consequência ou ornamento, não fundamento.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de distinguir o recurso estrutural (o que faz o texto "ser" uma crônica) dos elementos apenas complementares (tempo, espaço, enumeração, conectivo).
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Crônica: gênero textual breve, de origem jornalística, que parte de uma cena banal da vida cotidiana — reconhecível pelo leitor — para tecer uma reflexão mais ampla sobre a condição humana, com tom leve, bem-humorado ou irônico.
- Efeito de humor/ironia: nasce do contraste entre o solene ou esperado (um casamento, a escola) e o trivial ou inesperado (uma briga doméstica de madrugada, a ausência de uma "matéria" chamada amor). Esse contraste só existe porque o texto se ancora antes numa situação real e cotidiana.
- Fato cotidiano como fio condutor: é o elemento que "dispara" o texto — sem ele não haveria crônica, apenas uma lista de reclamações abstratas.
- Recursos secundários (tempo, espaço, enumeração, conectivos): ajudam a situar e organizar as ideias, mas não caracterizam sozinhos o texto como crônica.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Duas da madrugada. O casal que discute no andar de baixo está tentando aprender." → cena real, banal, reconhecível: um casal brigando tarde da noite. Esse fato serve de mote inicial para todo o texto.
- Evidência 2: "Eles pensavam que era só vestir branco, caprichar na decoração e fazer os convites chegarem a tempo." → o casal se preparou apenas para os aspectos superficiais da união, não para a convivência real, reforçando a ancoragem no cotidiano.
- Evidência 3: "Mas nada nos foi dito sobre o amor." → fecha o texto retomando, por ironia, a cena inicial: a escola ensinou logaritmo, tabela periódica e química orgânica, mas nada sobre convivência amorosa.
- Síntese: as evidências mostram que o texto nasce e se sustenta numa cena do cotidiano (o casal discutindo), e é a partir dela que a crítica irônica à escola se desenvolve. Tempo, espaço, disciplinas e conjunção aparecem depois, a serviço dessa ideia central.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a lógica composicional da crônica
O texto começa in medias res, com uma cena concreta: "Duas da madrugada. O casal que discute no andar de baixo está tentando aprender." Essa abertura é o gatilho de toda a crônica — comportamento típico do gênero: partir de algo banal e expandir para uma reflexão maior (a crítica ao currículo escolar que ensina conteúdo técnico, mas ignora a educação afetiva).
Subpasso 4.2 — Rastrear o fato gerador da reflexão
Se retirássemos a referência ao casal brigando, a crítica perderia o "gancho" para a ironia final ("nada nos foi dito sobre o amor"). Já sem "duas da madrugada", "andar de baixo", a lista de disciplinas ou a repetição de "mas", o texto ainda funcionaria como crônica — perderia detalhes, não a espinha dorsal. O fato cotidiano do casal é o elemento estruturante; os demais são periféricos.
Subpasso 4.3 — Verificação
Apenas a alternativa que menciona "um fato do cotidiano na vida de um casal" corresponde ao elemento que sustenta a crônica como gênero. As demais são recursos secundários (tempo, espaço, enumeração, conjunção), que não explicam por que o texto é uma crônica. Isso confirma a alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) A referência a um fato do cotidiano na vida de um casal.
✅ Correta: é a cena do casal discutindo de madrugada que funciona como ponto de partida da crônica. Todo o texto — inclusive a crítica final sobre a escola não ensinar sobre amor — decorre dessa observação de uma situação corriqueira e reconhecível, característica definidora do gênero.
B) A marcação do tempo em "Duas da madrugada".
❌ Incorreta: a expressão situa temporalmente a cena e reforça o clima de exaustão do casal, mas é um dado circunstancial — acessório ao fato central, não o fato em si.
C) A descrição do espaço em "andar de baixo".
❌ Incorreta: assim como o tempo, a indicação espacial serve apenas para localizar a cena. É um recurso de ambientação, não a base do efeito de sentido pedido.
D) A enumeração de conteúdos escolares.
❌ Incorreta: "logaritmo", "tabela periódica" e "química orgânica" constroem a crítica sobre a escola, mas essa enumeração só ganha força porque foi antecedida pela cena do casal. É consequência e reforço da ideia central, não o fato cotidiano que a origina.
E) A utilização dupla da conjunção "mas".
❌ Incorreta: "Mas não." e "Mas nada nos foi dito sobre o amor" são recursos coesivos que marcam contraposição e dão ritmo à virada irônica do texto, mas são recurso gramatical de construção textual, não o fato cotidiano que dá origem ao humor e à crítica.
🏆 Gabarito: A — o texto se organiza a partir da observação de um fato cotidiano e reconhecível — um casal discutindo de madrugada — que serve de mote para a crítica irônica sobre a ausência de "educação afetiva" na escola, característica típica do gênero crônica.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A aponta o elemento que efetivamente estrutura o texto como crônica e origina seu efeito de sentido: a cena cotidiana do casal brigando. As demais (tempo, espaço, enumeração, conjunção) são recursos legítimos, mas de função secundária — ambientação ou coesão, não a "matéria-prima" da reflexão.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz crônicas e pede que o candidato identifique a marca definidora do gênero — quase sempre o ponto de partida em uma cena cotidiana, familiar ao leitor, da qual nasce humor, ironia ou crítica social.
- Generalização: em questões sobre crônica, pergunte sempre "de onde o texto parte?" — se a resposta for uma cena banal, real, reconhecível pelo leitor comum, essa é a marca do gênero e, em geral, a chave da questão.
- Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas que citam recursos gramaticais isolados (conjunções, enumerações) — raramente são a resposta em questões de "efeito de sentido". Entre tempo/espaço e "fato do cotidiano", escolha sempre o que descreve uma situação humana.
- Conexões: gênero crônica (Rubem Braga, Luis Fernando Veríssimo); textos jornalísticos de opinião e ironia como recurso argumentativo.
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