Mapa de questões · 1º dia
Questão 89 — ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia
Os verdadeiros filósofos, tornados senhores da cidade, sejam eles muitos ou um só, desprezam as honras como as de hoje, por julgá-las indignas de um homem livre e sem valor algum, mas, ao contrário, têm em alta conta a retidão e as honras que dela decorrem e, julgando a justiça como algo muito importante e necessário, pondo-se a serviço dela e fazendo-a crescer, administram sua cidade.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2006 (adaptado).
No contexto da filosofia platônica, o texto expressa uma perspectiva aristocrática acerca do exercício do poder, uma vez que este é legitimado pelo(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Política de Platão (A República, teoria do filósofo-rei)
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer, dentro de um texto denso e em linguagem clássica, qual critério de legitimidade está sendo descrito, sem que a palavra "virtude" apareça de forma explícita e isolada.
- 🎯 Tema/Habilidade: Aristocracia platônica e legitimação do poder pela retidão ética (Competência de Filosofia Política — analisar diferentes concepções de poder e autoridade ao longo da história do pensamento).
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "No pensamento de Platão, o que torna o poder do filósofo-governante legítimo?"
- Palavras-chave decisivas: desprezam as honras, têm em alta conta a retidão, justiça como algo muito importante e necessário
- Armadilha típica: confundir "aristocracia" com aristocracia de sangue (nobreza hereditária) ou com governo de uma elite que decide por consenso — o enunciado usa a palavra "aristocrática" no sentido etimológico grego (aristos = o melhor, kratos = poder), não no sentido político-social moderno de nobreza.
- O que a resposta precisa demonstrar: entender que, em Platão, o critério de legitimidade do poder não é origem, riqueza ou vontade popular, mas a excelência moral e intelectual do governante — sua capacidade de viver e promover a justiça.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Aristocracia platônica (governo dos melhores): para Platão, a melhor forma de governo é aquela exercida por quem alcançou o mais alto grau de conhecimento e virtude — os filósofos. Não se trata de uma casta nobre, mas de uma elite construída pelo mérito filosófico, atingida após décadas de educação (o percurso descrito na "alegoria da caverna" e no currículo do livro VII de A República).
- Virtude (areté) como fundamento político: na ética platônica, a virtude é a excelência de cada parte da alma cumprindo sua função própria. No Estado ideal, essa mesma estrutura se repete: os filósofos (razão) devem governar porque neles a sabedoria comanda os desejos e o ânimo, produzindo justiça — o equilíbrio entre as partes da alma e, por analogia, entre as classes da cidade.
- Justiça como critério de legitimidade: Platão define a justiça na cidade como "cada parte fazendo o que lhe é próprio". O filósofo é o único capaz de conhecer o Bem em si e, por isso, o único que pode administrar a cidade sem se corromper pelo desejo de honras ou riquezas — sua legitimidade nasce exatamente dessa capacidade.
- Contraponto com a democracia: Platão é crítico da democracia ateniense, que ele via como o governo entregue à opinião (doxa) da maioria, sujeita à manipulação de demagogos. Por isso, no texto, o poder não é validado por voto ou consenso, mas pela retidão de caráter de quem governa.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Os verdadeiros filósofos [...] desprezam as honras como as de hoje, por julgá-las indignas de um homem livre" → isso descarta de imediato qualquer legitimidade baseada em status social, riqueza ou prestígio mundano — o filósofo-rei não governa para ser aclamado.
- Evidência 2: "têm em alta conta a retidão e as honras que dela decorrem [...] julgando a justiça como algo muito importante e necessário, pondo-se a serviço dela" → aqui está o núcleo da resposta: o filósofo governa porque está a serviço da justiça, ou seja, porque sua conduta é orientada pela virtude ética, não pelo interesse pessoal.
- Síntese: o texto constrói um contraste deliberado — de um lado, as honras vazias que os filósofos rejeitam; de outro, a retidão e a justiça que eles cultivam e às quais servem. Esse contraste indica que a legitimidade do governante platônico está na prática constante da virtude (sabedoria + justiça), não em qualquer critério exterior como linhagem, posse ou popularidade.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o tipo de governo descrito
O enunciado já entrega a chave de leitura: "o texto expressa uma perspectiva aristocrática acerca do exercício do poder". Em Platão, a palavra grega aristokratía significa literalmente "poder dos melhores" (aristos). Isso não tem relação com nobreza de sangue — é preciso separar o sentido filosófico-clássico do sentido sociológico moderno de "aristocracia" (que remete a linhagem e hereditariedade). No texto de A República, os "melhores" são os filósofos, definidos por sua excelência ética e intelectual, não por seu nascimento.
Subpasso 4.2 — Localizar o critério de legitimação no próprio texto
A pergunta pede o que legitima esse poder. O texto responde isso duas vezes, de forma redundante e reforçada: primeiro pela negação ("desprezam as honras [...] indignas de um homem livre"), depois pela afirmação ("têm em alta conta a retidão [...] julgando a justiça como algo muito importante"). Trata-se de um recurso retórico clássico — afirmar algo excluindo o que ele não é e depois declarando o que ele é. O filósofo recusa o poder pela vaidade e o assume pelo compromisso com a justiça e a retidão, que são expressões da virtude (areté) na filosofia moral platônica.
Subpasso 4.3 — Verificação
Cruzando o conceito (aristocracia = governo dos melhores por mérito ético) com a evidência textual (retidão + justiça como motivação do governo), chega-se a um único critério compatível: a legitimidade decorre da prática da virtude. Nenhuma das demais alternativas — consenso, maioria, riqueza ou sangue — aparece no texto ou é compatível com a filosofia política platônica, que rejeita explicitamente tanto a democracia quanto a oligarquia baseada em posses ou herança.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) prática da virtude.
✅ Correta: o texto mostra os filósofos desprezando honras vãs e dedicando-se à retidão e à justiça — isto é, vivendo e exercendo a virtude (areté). Para Platão, é justamente essa excelência ética, alcançada por longa formação filosófica, que torna o governante apto e legítimo para exercer o poder.
B) consenso da elite.
❌ Incorreta: o texto não menciona nenhum processo de acordo ou deliberação coletiva entre os filósofos. A legitimidade não vem de um pacto ou consenso entre pares, mas da qualidade moral individual de cada filósofo-governante — o fundamento é ético, não procedimental.
C) decisão da maioria.
❌ Incorreta: essa é a lógica democrática, que Platão critica abertamente em A República. Para ele, a maioria é guiada pela opinião (doxa) e pelas paixões, não pelo conhecimento racional do Bem — por isso o governo da maioria é visto como um risco de demagogia, e não como fonte de legitimidade.
D) riqueza do indivíduo.
❌ Incorreta: o texto afirma exatamente o oposto — os filósofos "desprezam as honras" e não buscam privilégios materiais. Na tripartição das classes da cidade ideal, os governantes-filósofos vivem de modo austero, sem propriedade privada, para que o interesse pessoal não corrompa suas decisões políticas.
E) pertencimento de sangue.
❌ Incorreta: apesar do nome "aristocracia" remeter à ideia de nobreza no uso comum, em Platão o acesso ao governo depende do percurso educativo e da aptidão filosófica de cada indivíduo, não da linhagem familiar. Mesmo filhos de guardiões ou governantes podem ser reclassificados para outras funções na cidade se não demonstrarem a virtude exigida.
🏆 Gabarito: A — o poder do filósofo-rei se legitima pela prática da virtude (retidão e justiça), único critério explicitamente apresentado no texto e coerente com a teoria política de Platão em A República.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A traduz o que o texto de fato descreve — filósofos que recusam honras vazias e governam a serviço da justiça, ou seja, legitimados pela virtude que praticam, não por qualquer atributo externo a eles.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz trechos de A República (o filósofo-rei, o mito da caverna, a tripartição da alma/cidade) pedindo que o estudante reconheça a crítica platônica à democracia e a defesa de um governo fundado no conhecimento e na ética, não no poder político tradicional.
- Generalização: em qualquer questão sobre filosofia política clássica, associe cada autor ao seu critério de legitimidade: Platão → virtude/sabedoria do filósofo; pensadores contratualistas (Hobbes, Locke, Rousseau) → consentimento/contrato social; pensamento medieval → origem divina do poder.
- Dica de eliminação rápida: sempre que o texto mencionar filósofos recusando honras, riqueza ou prestígio e valorizando justiça/retidão, elimine de cara as alternativas ligadas a dinheiro (D) e linhagem (E) — Platão sistematicamente contrapõe virtude a esses dois critérios em toda sua obra política.
- Conexões: mito da caverna (educação do filósofo-governante); crítica platônica às formas de governo degeneradas (timocracia, oligarquia, democracia, tirania) descritas no livro VIII de A República.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.