Mapa de questões · 1º dia
Questão 33 — ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia
O Bom-Crioulo
Com efeito, Bom-Crioulo não era somente um homem robusto, uma dessas organizações privilegiadas que trazem no corpo a sobranceira resistência do bronze e que esmagam com o peso dos músculos.
[…]
A chibata não lhe fazia mossa; tinha costas de ferro para resistir como um hércules ao pulso do guardião Agostinho. Já nem se lembrava do número das vezes que apanhara de chibata…
[…]
Entretanto, já iam cinquenta chibatadas! Ninguém lhe ouvira um gemido, nem percebera uma contorção, um gesto qualquer de dor. Viam-se unicamente naquele costão negro as marcas do junco, umas sobre as outras, entrecruzando-se como uma grande teia de aranha, roxas e latejantes, cortando a pele em todos os sentidos.
[…]
Marinheiros e oficiais, num silêncio concentrado, alongavam o olhar, cheios de interesse, a cada golpe.
— Cento e cinquenta!
Só então houve quem visse um ponto vermelho, uma gota rubra deslizar no espinhaço negro do marinheiro e logo este ponto vermelho se transformar numa fita de sangue.
CAMINHA, A. O Bom-Crioulo. São Paulo: Martin Claret, 2006.
A prosa naturalista incorpora concepções geradas pelo cientificismo e pelo determinismo.
No fragmento, a cena de tortura a Bom-Crioulo reproduz essas concepções, expressas pela
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Naturalismo brasileiro; racialização do corpo na ficção; Adolfo Caminha e O Bom-Crioulo
- ⚡ Nível: Difícil — exige reconhecer, por trás de uma descrição aparentemente elogiosa, o mecanismo ideológico que naturaliza (biologiza) a violência contra um corpo negro
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de recursos expressivos e da visão de mundo veiculada por um texto literário (competência de leitura crítica de textos literários, eixo Linguagens e Códigos)
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual concepção de ser humano o fragmento constrói ao narrar o castigo físico sofrido pelo marinheiro Bom-Crioulo?"
- Palavras-chave decisivas: organizações privilegiadas, sobranceira resistência do bronze, costas de ferro, hércules, chibata não lhe fazia mossa
- Armadilha típica: confundir a resistência física narrada com uma virtude pessoal (estoicismo, força de vontade) e não com um traço atribuído ao corpo por sua raça — erro que leva à alternativa B.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o narrador atribui a resistência à dor a uma característica biológica/racial "inata" do corpo negro, e que essa atribuição funciona, historicamente, como justificativa para a crueldade sofrida por esse corpo.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Naturalismo: escola literária de fins do século XIX que explica o comportamento humano por determinismo biológico, racial e ambiental — o corpo e a "natureza" do indivíduo (muitas vezes lida por um viés racista de época) definem seu destino.
- Racismo científico / racialização do corpo: discurso do século XIX que atribuía a pessoas negras traços físicos inatos (força, resistência à dor, insensibilidade) para justificar sua exploração, escravização e submissão a castigos — o corpo é lido como "feito para suportar".
- Ironia naturalista de Adolfo Caminha: ao descrever Bom-Crioulo com metáforas de metal e mito ("bronze", "ferro", "hércules"), o narrador não celebra uma virtude moral; ele reproduz — e ao mesmo tempo expõe — o imaginário que tratava o corpo do homem negro como maquinário resistente, o que tornava "natural" espancá-lo até sangrar.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "uma dessas organizações privilegiadas que trazem no corpo a sobranceira resistência do bronze" → a resistência não é escolha nem mérito individual: é apresentada como dado biológico, quase mineral, do corpo do personagem.
- Evidência 2: "tinha costas de ferro para resistir como um hércules ao pulso do guardião" → comparação com metal e com figura mítica de força sobre-humana reforça a ideia de um corpo "construído" para aguentar castigo, e não de alguém que sofre e resiste por vontade própria.
- Evidência 3: "A chibata não lhe fazia mossa" + "Ninguém lhe ouvira um gemido" após 150 chibatadas, só interrompidas quando aparece sangue → o texto normaliza a violência: o corpo "aguenta" tanto que a punição só é notada quando o dano se torna visível, o que expõe como esse discurso sobre a resistência inata acaba encobrindo e legitimando a brutalidade da chibata.
- Síntese: as três evidências convergem para o mesmo mecanismo — o narrador biologiza a capacidade de suportar dor, transformando-a em traço "racial" do corpo negro, e essa naturalização é justamente o que permite ler a cena de tortura sem que ela seja imediatamente lida como um escândalo: o castigo é absorvido pelo corpo "feito" para isso.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar quem é o sujeito da ação e quem sofre a ação
No trecho, Bom-Crioulo é marinheiro negro, e o narrador descreve sua reação (ou ausência de reação) a um castigo corporal extremamente violento aplicado por um guardião. A cena se passa dentro de uma hierarquia de poder (marinheiros e oficiais assistindo em silêncio), típica do ambiente naval do século XIX, ambiente historicamente marcado pela punição física.
Subpasso 4.2 — Observar o vocabulário usado para descrever o corpo
O narrador não descreve Bom-Crioulo com termos neutros ou puramente físicos: usa "bronze", "ferro", "hércules" — vocabulário que remete a materiais e a um herói mitológico, portanto a algo sobre-humano e não-humano ao mesmo tempo. Esse léxico cumpre uma função ideológica: transforma a resistência à dor em atributo de espécie/raça, não em ato de vontade. É esse deslocamento — de "escolha" para "natureza do corpo" — que caracteriza a leitura naturalista/racializada do Naturalismo brasileiro.
Subpasso 4.3 — Verificação: relacionar a construção do corpo à função da cena
Se o corpo é descrito como naturalmente resistente ("a chibata não lhe fazia mossa"), a violência sofrida deixa de ser vista como excesso do algoz e passa a ser lida como algo que aquele corpo "aguenta por natureza" — o que, na prática, legitima (explica e até justifica) que ele seja submetido a 150 chibatadas. Essa é exatamente a lógica descrita na alternativa A: exaltação da resistência inata para legitimar a exploração de uma etnia. Nenhuma outra alternativa capta esse duplo movimento de (1) atribuir a resistência a uma característica biológica/racial e (2) usar essa atribuição para tornar aceitável a violência sofrida.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) exaltação da resistência inata para legitimar a exploração de uma etnia.
✅ Correta: o narrador constrói a resistência de Bom-Crioulo como um traço biológico ("bronze", "ferro", "hércules"), típico da leitura racializada do corpo negro no imaginário do século XIX — e é exatamente essa "resistência natural" que torna o espancamento algo absorvível, naturalizado, quase esperado. O texto expõe o mecanismo que legitimava a violência sobre corpos negros ao atribuir-lhes uma resistência supostamente inata.
B) defesa do estoicismo individual como forma de superação das adversidades.
❌ Incorreta: estoicismo é uma postura filosófica e voluntária — o sujeito escolhe não demonstrar dor por controle racional/moral. No fragmento, a "não reação" de Bom-Crioulo não é apresentada como escolha ou virtude pessoal, mas como propriedade física do corpo ("costas de ferro", "resistência do bronze"), isto é, algo dado, não construído pela vontade.
C) concepção do ser humano como uma espécie predadora e afeita à morbidez.
❌ Incorreta: essa leitura generalizaria o traço para toda a "espécie humana" e associaria o texto a uma atração mórbida pela violência em si. O fragmento, porém, não fala do ser humano em geral nem valoriza a violência pela violência: o foco é específico — o corpo de um homem negro e sua resistência supostamente natural diante do castigo.
D) observação detalhada do corpo para a identificação de características de raça.
❌ Incorreta: essa alternativa descreveria um procedimento quase "científico" e catalogador (como se o narrador estivesse classificando traços fenotípicos, à moda dos tratados de antropologia racial de época). O que o fragmento faz é diferente: não cataloga características físicas para classificar uma raça, mas usa metáforas de força para justificar (legitimar) a violência sofrida — o efeito é ideológico, não descritivo-classificatório.
E) apologia à superioridade dos organismos saudáveis para a sobrevivência da espécie.
❌ Incorreta: essa seria uma leitura de viés darwinista social ("sobrevivência do mais apto"), que trata de saúde/aptidão biológica em termos evolutivos e competitivos. O fragmento não discute sobrevivência da espécie nem compara organismos "saudáveis" e "não saudáveis": trata da resistência atribuída a um corpo racializado diante de um castigo imposto por outro ser humano.
🏆 Gabarito: A — o narrador exalta a resistência "inata" do corpo de Bom-Crioulo por meio de metáforas de metal e força mítica, e essa exaltação funciona como justificativa (legitimação) da violência que sua etnia sofre, o que só a alternativa A capta com precisão.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A une os dois elementos indispensáveis presentes no texto — a atribuição de uma resistência biológica/inata E o efeito de legitimar a violência sofrida por causa da etnia do personagem; as demais alternativas isolam só um fragmento da ideia (força física, violência humana em geral, descrição corporal, saúde) sem captar o mecanismo completo.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra trechos de romances naturalistas (Aluísio Azevedo, Adolfo Caminha) em que o corpo — sobretudo o corpo negro, o corpo feminino ou o corpo "doente" — é descrito por metáforas biológicas/animalescas que revelam a visão de mundo determinista da escola, muitas vezes pedindo que o aluno identifique essa ideologia por trás da descrição aparentemente "neutra".
- Generalização: sempre que um texto naturalista descrever um corpo com vocabulário de matéria (metal, pedra, bronze) ou de animalidade/mito, desconfie: o narrador está biologizando um comportamento social, e a pergunta provavelmente quer que você nomeie essa naturalização (e, quando há marcador de raça/etnia, ela normalmente aponta para legitimação de violência ou exploração).
- Dica de eliminação rápida: primeiro corte alternativas que generalizam demais para "espécie humana" (C, E) — o texto fala de um indivíduo racializado, não da humanidade nem da biologia evolutiva; depois compare B e A: se a resistência é descrita como dada pelo corpo (metáforas de metal/mito), é traço biológico (A), não escolha consciente (B).
- Conexões: Naturalismo e determinismo biológico em O Cortiço (Aluísio Azevedo); representação do corpo negro na literatura brasileira do século XIX; crítica pós-colonial à racialização do corpo em textos literários.
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