Mapa de questões · 1º dia
Questão 82 — ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia
Ata Geral da Conferência de Bruxelas, 2 de julho de 1890
As potências declaram que os meios mais eficazes para combater a escravatura no interior da África são os seguintes:
1º — A organização progressiva dos serviços administrativos judiciais, religiosos e militares nos territórios da África, colocados sob a soberania ou sob protetorado das nações civilizadas;
2º — O estabelecimento gradual no interior, pelas potências de quem dependem os territórios, de estações fortemente ocupadas, de maneira que a sua ação protetora ou repressiva possa se fazer sentir com eficácia nos territórios assolados pela caçada ao homem.
Disponível em: www.fd.unl.pt. Acesso em: 21 jan. 2015.
No contexto da colonização da África do século XIX, o recurso ao argumento civilizatório apresentado no texto buscava legitimar o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Neocolonialismo/Imperialismo europeu na África (Conferências de Berlim e Bruxelas, séc. XIX)
- ⚡ Nível: Médio — a dificuldade não está no vocabulário, mas em decodificar um discurso humanitário e enxergar o interesse econômico que ele disfarça
- 🎯 Tema/Habilidade: Analisar processos históricos de dominação e exploração colonial, relacionando discurso ideológico e prática econômica (Ciências Humanas — competências de análise de fontes históricas e de relações de poder)
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que o discurso 'civilizatório' da Conferência de Bruxelas realmente justificava na colonização da África do século XIX?"
- Palavras-chave decisivas: "soberania ou... protetorado das nações civilizadas", "estações fortemente ocupadas", "ação protetora ou repressiva"
- Armadilha típica: tomar o texto ao pé da letra — o candidato apressado, vendo "combater a escravatura" e "ação protetora", marca alternativas humanitárias (D ou E), sem perceber que o documento é uma peça de propaganda imperialista
- O que a resposta precisa demonstrar: que o "argumento civilizatório" justificava ideologicamente a ocupação territorial e a reorganização econômica da África conforme os interesses do capitalismo industrial europeu
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Neocolonialismo/Imperialismo: expansão europeia da segunda metade do século XIX, distinta do colonialismo mercantilista dos séculos XVI-XVIII; impulsionada pela Segunda Revolução Industrial, que gerava excedente de capital, demanda por matérias-primas baratas e busca de novos mercados consumidores.
- Discurso civilizatório ("fardo do homem branco"): retórica que apresentava a ocupação como missão humanitária e civilizadora, apoiada no racismo científico e no darwinismo social, que hierarquizavam povos "civilizados" e "atrasados" para legitimar a dominação.
- Conferências de Berlim (1884-85) e Bruxelas (1890): encontros diplomáticos que formalizaram a partilha da África. Berlim criou o princípio da "ocupação efetiva" como critério de posse territorial; Bruxelas usou o combate ao tráfico de escravos remanescente como pretexto para autorizar a ocupação militar e administrativa do interior do continente.
- Relações de produção: forma como o trabalho é organizado e explorado. A dominação colonial impôs trabalho compulsório, tributos, monoculturas de exportação e extração mineral, inserindo à força as sociedades africanas na lógica capitalista industrial europeia.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "territórios da África, colocados sob a soberania ou sob protetorado das nações civilizadas" → revela que o texto já pressupõe, como algo natural, a submissão política dos territórios africanos às potências europeias, embutindo essa ocupação dentro do discurso de combate à escravidão.
- Evidência 2: "estações fortemente ocupadas, de maneira que a sua ação protetora ou repressiva possa se fazer sentir com eficácia" → mostra que o objetivo concreto era instalar bases militares e administrativas permanentes no interior africano — infraestrutura de controle territorial, não uma ação humanitária pontual ou temporária.
- Síntese: o vocabulário humanitário ("combater a escravatura", "ação protetora") serve de fachada para a instalação de aparelhos administrativos, judiciais, religiosos e militares europeus. Essa estrutura de ocupação é o que permite, na prática, subordinar territórios e populações africanas às necessidades de produção e extração de recursos do capitalismo industrial europeu.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Situar o documento no contexto histórico
A Conferência de Bruxelas (1890) ocorre cinco anos após a Conferência de Berlim (1884-85), que dividiu formalmente a África entre as potências europeias e criou o princípio da "ocupação efetiva" — só valeria a posse de um território de fato administrado e controlado, não apenas reivindicado no papel. Bruxelas complementa esse quadro: sob o pretexto de encerrar o tráfico de escravos remanescente (ligado a redes árabe-suaílis na costa oriental), autoriza as potências a aprofundar a ocupação militar e administrativa do interior do continente.
Subpasso 4.2 — Interpretar o real objetivo do "argumento civilizatório"
O texto combina quatro elementos: combate à escravidão, organização de serviços administrativos/judiciais/religiosos/militares, instalação de "estações fortemente ocupadas" e capacidade de ação "protetora ou repressiva". Juntos, configuram a montagem de um aparato estatal colonial permanente, que não serve apenas para reprimir o tráfico negreiro — ele garante o controle territorial necessário para impor tributos, requisitar mão de obra (inclusive por trabalho forçado, como ocorreria no Congo Belga), organizar monoculturas de exportação e extrair matérias-primas. Em resumo: ocupar o espaço político para transformar as relações de produção locais.
Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas
Cruzando essa leitura com as cinco opções, apenas uma capta os dois movimentos identificados — submissão do espaço (ocupação territorial) e alteração das relações de produção (reorganização econômica e do trabalho): a alternativa B. As demais invertem a lógica do texto, introduzem elementos que o documento não sustenta (guerras civis) ou contradizem o projeto colonial (preservação de práticas tribais).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) estabelecimento de governos para a constituição de Estados nacionais.
❌ Incorreta: o colonialismo fazia o oposto — negava autonomia política aos africanos e substituía estruturas locais de poder por administração europeia (soberania direta ou protetorado). Não havia projeto de formação de Estados nacionais africanos; isso só emergiria décadas depois, com a descolonização do século XX.
B) submissão de espaços para alterar as relações de produção.
✅ Correta: o discurso civilizatório legitimava a ocupação territorial ("estações fortemente ocupadas", "soberania ou protetorado") como caminho para reorganizar o trabalho e a economia africana segundo os interesses do capitalismo industrial europeu — extração de matérias-primas, exploração de mão de obra e integração forçada à economia-mundo capitalista.
C) delimitação de jurisdições para bloquear a expansão capitalista.
❌ Incorreta: inverte a lógica do processo. A delimitação de fronteiras entre as potências não tinha por objetivo impedir o capitalismo — servia para organizar e viabilizar sua expansão, evitando conflitos entre as próprias potências europeias na disputa por territórios, recursos e mercados.
D) defesa do continente para encerrar as contínuas guerras civis.
❌ Incorreta: o texto não menciona guerras civis africanas. A "ação protetora ou repressiva" citada refere-se ao combate à "caçada ao homem" (captura de escravizados) e ao controle das populações locais pelas potências ocupantes, não a uma mediação de conflitos internos. O colonialismo, aliás, frequentemente agravou tensões étnicas ao impor fronteiras artificiais.
E) reconhecimento da alteridade para preservar as práticas tribais.
❌ Incorreta: é o oposto do projeto civilizatório, fundado na negação da alteridade — povos africanos eram classificados como "atrasados" pelo racismo científico da época — e voltado a substituir, não preservar, as estruturas sociais, políticas e produtivas locais pela ordem colonial europeia.
🏆 Gabarito: B — o argumento civilizatório da Conferência de Bruxelas mascarava, sob retórica humanitária, a ocupação territorial das potências europeias, cujo verdadeiro objetivo era submeter os espaços africanos para reorganizar suas relações de produção conforme os interesses do capitalismo industrial.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa que identifica o duplo movimento do texto — ocupação do território e reorganização das relações de produção — sem cair na leitura literal do discurso humanitário nem inverter a lógica do imperialismo.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz trechos de documentos das Conferências de Berlim e Bruxelas pedindo que o candidato "desmascare" o discurso civilizatório como ideologia que oculta interesses econômicos e geopolíticos concretos.
- Generalização: sempre que um texto colonialista dos séculos XIX-XX usar vocabulário humanitário ou "civilizador", desconfie — em geral há uma motivação econômica (mercado, matéria-prima, mão de obra) e/ou geopolítica (controle territorial, rivalidade entre potências) por trás.
- Dica de eliminação rápida: elimine as alternativas que tomam o texto ao pé da letra (proteção, fim de guerras civis, respeito às culturas locais) — o ENEM raramente valida a leitura literal de um documento produzido pelos próprios colonizadores.
- Conexões: Conferência de Berlim (1884-85) e o princípio da "ocupação efetiva"; Partilha da África; darwinismo social e racismo científico; trabalho compulsório no Congo Belga de Leopoldo II.
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