Mapa de questões · 1º dia
Questão 78 — ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia
A “África” tem sido incessantemente recriada e desconstruída. A “África” tem sido um ícone contestado, tanto usada e abusada, tanto pela intelectualidade quanto pela cultura de massas; tanto pelo discurso da elite quanto pelo discurso dos trabalhadores ou daqueles que, supostamente, criaram e se misturaram no Novo Mundo; e, por último, tanto pela política conservadora como pela progressista.
SANSONE, L. Da África ao afro: usos e abusos da África entre os intelectuais e na cultura popular brasileira durante o século XX. Afro-Ásia, v. 27, 2002.
As diferentes significações atribuídas à África, citadas no texto, são consequências do(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → construção social da identidade e das representações culturais (com diálogo direto com a Historiografia da África)
- ⚡ Nível: Médio — a resposta não está explícita no texto; exige inferir a causa de um fenômeno (multiplicidade de "Áfricas") a partir de pistas indiretas de um texto acadêmico denso
- 🎯 Tema/Habilidade: Representações sociais da África no Brasil; competência de leitura crítica de texto sociológico e reconhecimento de processos de construção identitária (Lei 10.639/03)
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Por que existem tantas 'Áfricas' diferentes e conflitantes no imaginário brasileiro?"
- Palavras-chave decisivas: recriada e desconstruída, ícone contestado, usada e abusada por grupos opostos (elite × trabalhadores; conservadores × progressistas)
- Armadilha típica: confundir a causa da multiplicidade de significados com um de seus sintomas — como a redução da África ao folclore (alternativa A), que é efeito, não origem, do problema
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a instabilidade das imagens sobre a África decorre de uma lacuna de conhecimento factual sobre sua história, e não de uma característica intrínseca do continente (língua, ciência, visibilidade)
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Representação social: construção coletiva de significados sobre um objeto (aqui, "a África") que não corresponde necessariamente à realidade factual, mas às necessidades simbólicas de quem a constrói.
- Uso político da identidade: grupos sociais distintos (elite, trabalhadores, intelectuais, cultura de massa, direita e esquerda) mobilizam a ideia de "África" para legitimar seus próprios discursos — de resistência, exotismo, nacionalismo ou folclorização.
- Vazio historiográfico: a história da África (impérios de Mali, Songhai, Axum, Congo, Zimbábue; diversidade de línguas, religiões e organizações políticas ao longo de milênios) foi pouco ensinada no Brasil, o que abriu espaço para cada grupo "inventar" sua própria versão do continente.
- Lei 10.639/2003: tornou obrigatório o ensino de História da África e cultura afro-brasileira justamente para combater esse desconhecimento histórico que alimenta estereótipos e visões idealizadas ou pejorativas.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "tem sido incessantemente recriada e desconstruída" → mostra que não existe uma imagem estável de África; ela é constantemente refeita, o que só é possível porque não há um referente histórico sólido e amplamente conhecido que a fixe.
- Evidência 2: "ícone contestado, tanto usada e abusada" → indica manipulação simbólica: grupos com interesses distintos (elite/trabalhadores, conservadores/progressistas) preenchem o "vazio" de conhecimento histórico com sentidos que servem a seus próprios projetos.
- Síntese: se a África fosse conhecida em sua complexidade histórica real — múltiplos reinos, povos, línguas, religiões e processos históricos —, não haveria espaço para tantas versões contraditórias e disputadas; a abertura para essas múltiplas "Áfricas" nasce exatamente da lacuna de conhecimento histórico sobre o continente.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o fenômeno descrito
O texto de Sansone não fala de uma África real e geograficamente definida, mas de "A África" entre aspas — um símbolo, uma construção discursiva. O autor lista quem disputa esse símbolo: intelectualidade e cultura de massas, elite e trabalhadores, política conservadora e progressista. Ou seja: grupos socialmente muito diferentes recorrem à mesma palavra para dizer coisas diferentes.
Subpasso 4.2 — Perguntar: o que permite tanta variação de sentido?
Uma imagem só pode ser livremente "recriada e desconstruída" por tantos atores diferentes quando não há um conhecimento histórico consolidado e amplamente difundido que a estabilize. Como a historiografia africana foi historicamente marginalizada no currículo e no debate público brasileiro (fruto do eurocentrismo e do apagamento colonial), abriu-se uma lacuna: cada grupo projeta sobre a África os significados que lhe interessam — romantização, exotização, folclorização, reivindicação identitária, etc. Essa lacuna é, precisamente, o desconhecimento histórico do continente.
Subpasso 4.3 — Verificação
Testando a lógica causal: "desconhecimento histórico → múltiplas Áfricas inventadas por diferentes grupos" fecha perfeitamente com o texto, que fala em "recriação", "desconstrução" e "usos e abusos" por atores sociais antagônicos. Nenhuma outra alternativa explica por que o mesmo significante ("África") é tão disputado e instável. A resposta é a letra D.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) identidade folclórica da população.
❌ Incorreta: a folclorização é um dos resultados possíveis desse processo (uma das "Áfricas" inventadas, ligada a estereótipos), não a causa da multiplicidade de significados. Além disso, o texto fala de disputa entre versões diferentes, e não de uma única identidade folclórica consensual.
B) desenvolvimento científico da região.
❌ Incorreta: o texto não menciona ciência, tecnologia ou desenvolvimento econômico da África em nenhum momento; é um distrator sem qualquer base textual, que tenta confundir o candidato com um tema genérico de "desenvolvimento".
C) multiplicidade linguística do território.
❌ Incorreta: embora a África tenha, de fato, enorme diversidade linguística, essa diversidade real do continente não é o que está em discussão. O texto trata de como brasileiros (elite, trabalhadores, intelectuais) constroem imagens sobre a África — um processo discursivo e histórico, não um dado geolinguístico do território africano.
D) desconhecimento histórico do continente.
✅ Correta: é exatamente a ausência de um conhecimento histórico consolidado e socialmente compartilhado sobre a África real (seus reinos, povos, processos históricos) que permite — e explica — a proliferação de versões contraditórias, contestadas e manipuladas por diferentes grupos sociais e políticos.
E) invisibilidade antropológica da comunidade.
❌ Incorreta: o próprio texto-base é fruto de pesquisa antropológica (Sansone estuda justamente os usos da "África" na cultura brasileira), o que prova que a África e os afrodescendentes não são invisíveis à Antropologia. O problema apontado está no plano da historiografia e do conhecimento histórico público, não da produção acadêmica antropológica.
🏆 Gabarito: D — as múltiplas e conflitantes significações da "África" só existem porque falta, na sociedade brasileira, um conhecimento histórico sólido e compartilhado sobre o continente, o que abre espaço para que cada grupo social construa a sua própria versão conforme seus interesses.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só o desconhecimento histórico explica por que um mesmo símbolo ("África") pode ser simultaneamente reivindicado e disputado por elites e trabalhadores, conservadores e progressistas — sem esse vazio de conhecimento, essas versões contraditórias não coexistiriam.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra textos sobre construção da identidade afro-brasileira, africanidades e o papel da Lei 10.639/03, sempre associando estereótipos e desconhecimento à ausência de ensino de história da África.
- Generalização: quando uma questão de Sociologia/História pergunta "por que existem visões distorcidas ou conflitantes sobre X (povo, cultura, região)?", a resposta quase sempre remete à falta de conhecimento histórico real sobre esse grupo, que é preenchida por estereótipos e projeções.
- Dica de eliminação rápida: descarte de cara alternativas que citem áreas não mencionadas no texto (ciência = B) e as que descrevem características reais do continente africano em vez de processos discursivos brasileiros (língua = C); depois, distinga causa (D) de efeito/sintoma (A, folclorização).
- Conexões: Lei 10.639/03 e ensino de História da África; conceito de "invenção da tradição" (Hobsbawm/Ranger); Kabengele Munanga e a crítica às visões homogeneizantes da África no Brasil.
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