Mapa de questões · 1º dia
Questão 63 — ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia
No Império do Brasil, apesar do apego a certo ideário do Antigo Regime, as ideias e práticas políticas inéditas que se moldaram e se redefiniram naquela conjuntura acabaram por converter a Coroa em Estado e fizeram com que a política deixasse os círculos palacianos privados para emprestar uma nova dimensão à praça pública. Por conseguinte, o novo império não mais podia fugir à obrigação de conduzir a sociedade, fazendo-se reger por uma Constituição, ainda que outorgada, e articulando-se por meio de uma divisão de poderes que respeitasse, a princípio, pelo menos, a participação daqueles considerados cidadãos.
NEVES, L. M. B. P. O governo de D. João: tensões entre ideias liberais e práticas do Antigo Regime. In: CARVALHO, J. M.; CAMPOS, A. P. (Org.). Perspectiva da cidadania no Brasil Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
Com base no texto, na formação do Estado brasileiro prevaleceram ideias e práticas derivadas dos princípios
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil Império; formação do Estado; conjuntura joanina e Primeiro Reinado; ideário iluminista
- ⚡ Nível: Difícil — exige articular conceitos abstratos (Estado, Constituição, divisão de poderes, cidadania) ao contexto histórico, sem que o texto use a palavra "Iluminismo" em nenhum momento
- 🎯 Tema/Habilidade: Formação do Estado brasileiro independente e a matriz político-filosófica que sustentou suas instituições
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que corrente de pensamento político explica a transformação da Coroa em Estado regido por Constituição e divisão de poderes no Brasil?"
- Palavras-chave decisivas: converter a Coroa em Estado, Constituição, ainda que outorgada, divisão de poderes, participação daqueles considerados cidadãos
- Armadilha típica: ler "outorgada" e "cidadania restrita" como ausência de conteúdo iluminista — quando essa coexistência com práticas do Antigo Regime é justamente a marca de uma modernização liberal feita "pelo alto".
- O que a resposta precisa demonstrar: que o vocabulário institucional do texto (Estado, Constituição, poderes, cidadania) pertence ao repertório clássico do pensamento iluminista, mesmo aplicado de forma conservadora.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Iluminismo político: defende a razão como guia da organização social, a limitação do poder absoluto, a separação dos poderes (Montesquieu) e o governo por leis escritas — Constituição —, não pela vontade pessoal do soberano.
- Antigo Regime: sistema anterior às revoluções liberais, baseado no absolutismo, na sociedade de ordens e no poder pessoal do rei sobre súditos, não sobre cidadãos.
- Estado constitucional: organização em que o poder é limitado por Constituição e instituições (Legislativo, Executivo, Judiciário e Poder Moderador, no caso brasileiro), mesmo quando a carta é outorgada.
- Cidadania censitária: no Império, a participação política era restrita por renda — traço conservador, mas ainda compatível com a lógica liberal de definir juridicamente quem tem direitos.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "apesar do apego a certo ideário do Antigo Regime... acabaram por converter a Coroa em Estado" → mesmo preservando traços absolutistas, o poder pessoal do rei vira instituição impessoal e regrada — processo típico da modernização iluminista.
- Evidência 2: "fazendo-se reger por uma Constituição, ainda que outorgada, e articulando-se por meio de uma divisão de poderes" → Constituição escrita e divisão de poderes são pilares da doutrina iluminista, aqui aplicados de forma conservadora, mas de matriz iluminista.
- Síntese: o texto descreve uma modernização política conservadora: o Brasil incorpora as ferramentas institucionais do Iluminismo sem romper totalmente com o Antigo Regime — o que conduz à alternativa A.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Núcleo conceitual do texto
A historiadora Lúcia Bastos descreve a passagem de um poder pessoal e patrimonial — a Coroa, os "círculos palacianos privados" — para um poder impessoal e público — o Estado, "a praça pública". Essa mudança é o núcleo da teoria política iluminista, que rejeitava o absolutismo de direito divino e defendia o exercício do poder por instituições, leis e Constituições.
Subpasso 4.2 — Elementos institucionais e princípios iluministas
Três elementos marcam essa nova política: Constituição outorgada, divisão de poderes e participação de "considerados cidadãos". Juntos, formam o tripé do constitucionalismo liberal-iluminista: lei escrita limitando o governante, separação de poderes (Montesquieu) e definição jurídica de cidadania, mesmo restrita. Nenhum desses elementos pertence ao Antigo Regime.
Subpasso 4.3 — Verificação
Se fosse "republicanos", o Brasil precisaria ter abolido a monarquia — não aboliu. Se "federalistas", precisaria de autonomia provincial efetiva — o Império nasceu centralizado. Se "democráticos", o voto seria universal — era censitário. Se "abolicionistas", a escravidão estaria em xeque — persistiu até 1888. Só "iluministas" combina com Constituição + divisão de poderes + cidadania restrita. Confirma-se a alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) iluministas.
✅ Correta: Constituição escrita, divisão de poderes e cidadania juridicamente definida são pilares do pensamento iluminista (Montesquieu, Locke), aplicados no Brasil de forma conservadora, mas sem deixar de ser, em sua origem doutrinária, princípios iluministas.
B) federalistas.
❌ Incorreta: federalismo pressupõe repartição efetiva de soberania entre unidades regionais. O Primeiro e boa parte do Segundo Reinado foram marcados por forte centralização (Poder Moderador, presidentes de província nomeados pelo Imperador); o federalismo só ganha força com a República de 1889.
C) republicanos.
❌ Incorreta: o texto trata do "Império do Brasil" — monarquia constitucional com Imperador hereditário. O republicanismo, que defende chefia de Estado eletiva, era posição minoritária, incompatível com a natureza monárquica do regime.
D) democráticos.
❌ Incorreta: a "participação daqueles considerados cidadãos" era restrita pelo voto censitário e excludente de mulheres, escravizados e homens pobres — o oposto de uma participação ampla e igualitária.
E) abolicionistas.
❌ Incorreta: o abolicionismo ganha força só a partir de 1870-1880. O texto trata da formação institucional do Estado na conjuntura joanina e do Primeiro Reinado, quando a escravidão sequer estava em debate político central.
🏆 Gabarito: A — Constituição outorgada, divisão de poderes e cidadania juridicamente definida são elementos estruturantes do pensamento iluminista, absorvidos pelo Estado brasileiro de forma conservadora, mas de matriz doutrinária iluminista.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa A conecta Constituição, divisão de poderes e cidadania — o tripé do liberalismo iluminista, mesmo em versão conservadora e outorgada.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente a ambiguidade do Brasil Império — regime monárquico e escravista que incorporou ferramentas liberais e iluministas (Constituição de 1824, Parlamento, eleições censitárias) sem romper com o Antigo Regime.
- Generalização: texto que combine "Constituição + divisão de poderes + cidadania (mesmo restrita)" remete a princípios iluministas, mesmo em regime monárquico, escravista ou censitário.
- Dica de eliminação rápida: elimine "republicanos" quando o texto citar "Império" ou "Coroa"; elimine "federalistas" sem menção a autonomia provincial; elimine "democráticos" quando "cidadãos" vier qualificado, como em "considerados cidadãos".
- Conexões: Constituição de 1824 e o Poder Moderador; a teoria da divisão dos poderes de Montesquieu.
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