Mapa de questões · 1º dia
Questão 66 — ENEM 2021 PPLCaderno azul · 1º Dia
O Barroco foi o estilo das formas dramáticas, grandiosas e opulentas, voltado ao intenso decorativismo e caracterizado pela exuberância dos dourados nas voltas e espirais. O Barroco exprimiu as incertezas de uma época — a Idade Moderna — que oscilava entre velhos e novos valores. Foi largamente utilizado pela Igreja da Contrarreforma como elemento de propaganda, destinado a atrair as criaturas pela pompa e magnificência. Através do Barroco, a Igreja compeliu Deus a vestir as mais suntuosas roupagens humanas, reproduzindo o Céu em toda a sua magnificência, grandeza e esplendor, extasiando e arrebatando os fiéis que frequentavam os templos.
LOPEZ, L. R. História do Brasil colonial. Porto Alegre: Novo Século, 2001.
O movimento estético-cultural no texto constitui-se historicamente em uma resposta às
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Reforma Protestante e Contrarreforma; Barroco como arte de propaganda religiosa
- ⚡ Nível: Médio — exige articular um conceito de História Moderna (Contrarreforma) com um conceito de Artes (Barroco), mas o próprio texto entrega a resposta a quem lê com atenção
- 🎯 Tema/Habilidade: Compreender o Barroco como fenômeno estético-cultural vinculado ao contexto religioso da Idade Moderna europeia (Competência de área 5/6 — Ciências Humanas: relações entre produção cultural e contexto histórico-social)
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "A que crise histórica o Barroco respondeu, segundo o texto?"
- Palavras-chave decisivas: Igreja da Contrarreforma, elemento de propaganda, compeliu Deus a vestir as mais suntuosas roupagens humanas
- Armadilha típica: confundir o alvo da resposta. O aluno lê "poder" e "monarquia" na alternativa B e associa automaticamente ao Barroco (que de fato floresceu sob o absolutismo, como em Versalhes ou na Corte portuguesa), esquecendo que a questão pergunta pela origem do movimento, não pelo seu uso posterior por reis.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que o texto liga o Barroco diretamente à ação da "Igreja da Contrarreforma" como resposta a algo que ameaçava sua autoridade — e não a um conflito político, econômico ou científico.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Reforma Protestante (a partir de 1517): movimento iniciado por Martinho Lutero que questionou práticas da Igreja Católica — venda de indulgências, acúmulo de riquezas, intermediação do clero entre fiel e Deus — e negou a autoridade espiritual e política (temporal) do papa sobre os cristãos.
- Contrarreforma (ou Reforma Católica), Concílio de Trento (1545-1563): resposta institucional da Igreja Católica às críticas protestantes. Reafirmou dogmas, criou o Índice de Livros Proibidos, fortaleceu a Inquisição e a Companhia de Jesus, e definiu a arte como instrumento de reconquista dos fiéis.
- Barroco: estilo artístico surgido na Itália no final do século XVI, marcado por dramaticidade, contraste de luz e sombra, movimento, dourado e teatralidade. Foi adotado pela Igreja pós-tridentina justamente por sua capacidade emocional de "extasiar e arrebatar os fiéis", reafirmando visualmente a grandiosidade que a Reforma questionava.
- Domínio espiritual e domínio terreno do papado: o papa não era apenas autoridade religiosa (espiritual), mas também deteve poder político e territorial (terreno, como soberano dos Estados Pontifícios). Os protestantes atacaram os dois — a legitimidade doutrinária e a riqueza/poder mundano da Igreja.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Foi largamente utilizado pela Igreja da Contrarreforma como elemento de propaganda, destinado a atrair as criaturas pela pompa e magnificência" → o próprio texto nomeia o agente histórico (Igreja da Contrarreforma) e a função do Barroco (propaganda religiosa), fechando a questão em torno do campo religioso, não político, econômico ou científico.
- Evidência 2: "a Igreja compeliu Deus a vestir as mais suntuosas roupagens humanas, reproduzindo o Céu em toda a sua magnificência... extasiando e arrebatando os fiéis" → a estratégia era sensorial e emocional: convencer pelos olhos e pelo espanto aquilo que a pregação protestante contestava pela leitura direta das Escrituras e pela crítica racional ao clero.
- Síntese: a Contrarreforma só existe como reação à Reforma Protestante, que havia deslegitimado a autoridade papal em duas frentes — a espiritual (dogmas, sacramentos, intermediação do clero) e a terreno (riqueza, indulgências, poder político da Igreja). O Barroco é a resposta estética a exatamente essa contestação dupla.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o agente histórico citado no texto
O texto de Luís Roberto Lopez é explícito: quem usa o Barroco como propaganda é a "Igreja da Contrarreforma". Isso já elimina, de imediato, qualquer alternativa que não tenha relação com a esfera religiosa/eclesiástica — o que restringe fortemente o campo de busca antes mesmo de avaliar cada opção isoladamente.
Subpasso 4.2 — Relacionar Contrarreforma à sua causa histórica
A Contrarreforma não surge no vácuo: ela é, por definição, uma reforma contra algo — contra a Reforma Protestante, iniciada por Lutero em 1517 e expandida por Calvino, Zwínglio e outros. Essa Reforma questionou dois pilares do papado: (1) sua autoridade espiritual, ao propor a leitura direta da Bíblia (livre exame) e negar dogmas como a intercessão dos santos e a venda de indulgências; e (2) sua autoridade terrena, ao criticar o acúmulo de riqueza, terras e poder político da Igreja e de seus representantes.
Subpasso 4.3 — Verificação: o Barroco como resposta a essa contestação
O trecho "a Igreja compeliu Deus a vestir as mais suntuosas roupagens humanas" mostra exatamente essa reação: diante da crítica protestante à opulência do clero e à mediação da Igreja entre fiel e Deus, a Contrarreforma responde reafirmando — de forma ainda mais grandiosa, visual e emocional — a majestade divina e a legitimidade da instituição eclesiástica. É a mesma Igreja que teve seus domínios espiritual e terreno contestados que agora usa a arte para reconquistar corações e reafirmar seu poder em ambas as frentes. Isso confirma a alternativa A como a única coerente com o texto e com o contexto histórico da Idade Moderna.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) contestações aos domínios espiritual e terreno exercidos pelo papado.
✅ Correta: é exatamente o que a Reforma Protestante fez — negou a autoridade doutrinária (espiritual) do papa e criticou seu poder político e patrimonial (terreno). O Barroco, como arma da Contrarreforma, é a resposta direta a essa dupla contestação, tal como o texto descreve.
B) oposições ao absolutismo monárquico como base do poder político.
❌ Incorreta: inverte a relação entre Barroco e poder político. O estilo barroco foi, historicamente, aliado e instrumento do absolutismo monárquico (a estética de Versalhes, sob Luís XIV, é um exemplo célebre), e não uma resposta a oposições contra ele. O texto sequer menciona monarcas ou disputas pelo poder político estatal — fala exclusivamente da Igreja.
C) divisões da nobreza fortalecida pelas expansões marítima e comercial.
❌ Incorreta: mistura um processo econômico-social (expansão marítima e comercial, ascensão da burguesia mercantil) que não é mencionado nem sugerido no texto. O enunciado trata de religião e propaganda eclesiástica, não de conflitos entre frações da nobreza por riquezas coloniais ou comerciais.
D) críticas ao heliocentrismo como modelo de funcionamento do cosmos.
❌ Incorreta: o heliocentrismo (Copérnico, Galileu) é uma questão do campo científico-astronômico, debatida em outro eixo do conflito entre Igreja e pensamento moderno (o caso Galileu, por exemplo). O texto não trata de cosmologia, mas de estética e propaganda religiosa voltada aos fiéis nos templos.
E) revoltas do campesinato oprimido pela multiplicidade de seitas religiosas.
❌ Incorreta: não há, no período, revoltas camponesas motivadas por "multiplicidade de seitas" que expliquem o surgimento do Barroco; essa alternativa inventa um sujeito histórico (campesinato) e uma causa (revoltas por seitas) que não aparecem no texto nem correspondem ao processo de Reforma/Contrarreforma, que foi fundamentalmente um conflito religioso-institucional entre Roma e os reformadores protestantes.
🏆 Gabarito: A — o texto atribui o surgimento do Barroco à ação propagandística da Igreja da Contrarreforma, que reagiu à Reforma Protestante ao reafirmar, pela pompa e pela emoção estética, sua autoridade espiritual e terrena contestada pelos reformadores.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A localiza corretamente o conflito histórico citado pelo texto — a disputa entre papado e Reforma Protestante — como origem do Barroco; todas as demais alternativas deslocam a questão para campos (política monárquica, economia, ciência, revolta camponesa) que o texto não aborda.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente associa Barroco à Contrarreforma e ao Concílio de Trento, cobrando do aluno a leitura de textos historiográficos ou a análise de imagens de igrejas barrocas (talha dourada, altares, tetos com afrescos) como evidência visual desse projeto religioso.
- Generalização: sempre que uma questão de História ligar um movimento artístico ou cultural a uma instituição (Igreja, Estado, classe social), procure no próprio enunciado qual foi o "adversário" ou a "crise" que motivou essa instituição a agir — a resposta certa quase sempre nomeia esse adversário de forma implícita ou explícita.
- Dica de eliminação rápida: o texto fala apenas de Igreja, fé, templos e fiéis — isso já elimina de cara qualquer alternativa sobre monarquia (B), nobreza/comércio (C) ou camponeses (E), restando disputar apenas entre um tema religioso (A) e um tema científico (D); como o texto não menciona cosmos, astros ou ciência, D também cai, sobrando A.
- Conexões: Concílio de Trento e Contrarreforma; Reforma Protestante de Lutero e as 95 teses; Companhia de Jesus (jesuítas) e catequese barroca no Brasil colonial; Barroco mineiro e Aleijadinho.
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