Mapa de questões · 2º dia
Questão 95 — ENEM 2019 PPLCaderno azul · 2º Dia
Algumas espécies de orquídeas apresentam flores que mimetizam vespas fêmeas, de forma que vespas machos são atraídas na tentativa de acasalamento. Ao chegarem às flores, os machos frequentemente entram em contato com o pólen da flor, sem prejuízo de suas atividades. Contudo, como não conseguem se acasalar, esses machos procuram novas fêmeas, podendo encontrar novas flores e polinizá-las.
Essa interação ecológica pode ser classificada como
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Biologia → Ecologia (relações ecológicas entre espécies)
- ⚡ Nível: Médio — a resposta exige diferenciar com precisão comensalismo de mutualismo em um caso de polinização enganosa, algo que foge do padrão "toda polinização é mutualismo" decorado sem reflexão.
- 🎯 Tema/Habilidade: Classificação das relações ecológicas interespecíficas a partir da análise dos custos e benefícios reais para cada organismo envolvido (competência de área de Ciências da Natureza — interpretar fenômenos biológicos e ecológicos).
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Classifique corretamente a relação ecológica entre a orquídea (que mimetiza a fêmea da vespa) e o macho da vespa (que tenta acasalar e, sem querer, poliniza a flor)."
- Palavras-chave decisivas: "sem prejuízo de suas atividades", "não conseguem se acasalar", "podendo encontrar novas flores e polinizá-las"
- Armadilha típica: associar automaticamente "polinização" a "mutualismo", ignorando que, neste caso específico, o inseto não recebe absolutamente nenhum benefício (nem néctar, nem cópula bem-sucedida) — ele é enganado.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de avaliar separadamente o saldo (positivo, negativo ou neutro) para CADA um dos dois organismos, e não apenas constatar que "há uma interação entre duas espécies".
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Comensalismo (+/0): relação interespecífica em que uma espécie é beneficiada e a outra não é beneficiada nem prejudicada — permanece indiferente do ponto de vista de custo/benefício.
- Mutualismo (+/+): relação em que AMBAS as espécies obtêm benefício real e mensurável (ex.: a abelha ganha néctar, a flor ganha polinização).
- Amensalismo (-/0): uma espécie é prejudicada e a outra não é afetada (ex.: fungos que liberam substâncias que inibem bactérias vizinhas, sem ganho para o fungo).
- Parasitismo (+/-): uma espécie se beneficia às custas de dano direto à outra, geralmente vivendo à sua custa (nutrição, energia, tecidos).
- Simbiose: termo amplo/genérico usado historicamente para designar qualquer associação íntima e duradoura entre espécies; NÃO é uma categoria específica de classificação de saldo ecológico como as demais — por isso não serve como resposta a uma pergunta que pede a classificação precisa da interação.
- Pseudocópula (mimetismo reprodutivo): estratégia evolutiva em que uma planta imita a aparência, o odor ou a textura de uma fêmea de inseto para atrair machos, que tentam copular com a flor e, no processo, tocam e carregam pólen — fenômeno bem documentado em orquídeas do gênero Ophrys.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "flores que mimetizam vespas fêmeas, de forma que vespas machos são atraídas" → a orquídea é a única parte que "arma" a interação e a única que tem algo concreto a ganhar: o transporte de seu pólen para outra flor.
- Evidência 2: "entram em contato com o pólen da flor, sem prejuízo de suas atividades" → o enunciado elimina explicitamente qualquer dano ao macho — informação crucial que descarta de imediato parasitismo e amensalismo, pois ambos exigem prejuízo a uma das partes.
- Evidência 3: "como não conseguem se acasalar, esses machos procuram novas fêmeas" → o macho não obtém benefício reprodutivo algum com a flor; ele é enganado e simplesmente segue sua busca por uma fêmea real, sem ganho oriundo da visita à orquídea.
- Síntese: juntando as três evidências, o saldo é assimétrico e bem definido: a orquídea sai ganhando (polinização garantida) e o macho da vespa sai no zero a zero — nem ganha, nem perde. Esse padrão (+/0) é a própria definição de comensalismo.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o benefício da orquídea
A orquídea investe energeticamente na produção de flores que imitam a forma, a cor e, principalmente, o odor (feromônios miméticos) das fêmeas de vespas. Esse investimento tem uma função evolutiva clara: garantir a polinização cruzada sem precisar oferecer recompensa alimentar (como néctar), economizando recursos que outras plantas gastam para atrair polinizadores. Logo, para a orquídea, o saldo da interação é positivo (+).
Subpasso 4.2 — Identificar o saldo para o macho da vespa
O texto é categórico ao afirmar que o contato com o pólen ocorre "sem prejuízo de suas atividades". Isso significa que o macho não perde tempo de forma relevante, não sofre dano físico, não gasta energia significativa além do que já gastaria procurando parceiras, e continua sua busca reprodutiva normalmente em outras flores ou fêmeas reais. Ele não ganha alimento, não ganha cópula bem-sucedida (é enganado) e também não é prejudicado. Portanto, para o macho, o saldo é neutro (0).
Subpasso 4.3 — Verificação: classificar o padrão (+/0)
Cruzando os dois saldos — orquídea (+) e vespa macho (0) — chega-se exatamente à definição formal de comensalismo: uma espécie se beneficia e a outra não é beneficiada nem prejudicada. Esse resultado bate com a alternativa A e descarta automaticamente mutualismo (que exigiria benefício também para a vespa), parasitismo e amensalismo (que exigiriam prejuízo para a vespa) e simbiose (termo genérico demais para ser a resposta tecnicamente correta).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) comensalismo.
✅ Correta: a orquídea obtém benefício direto e mensurável (transporte de pólen, aumento do sucesso reprodutivo), enquanto o macho da vespa, conforme o próprio enunciado deixa explícito ("sem prejuízo de suas atividades"), não é beneficiado nem prejudicado. Esse padrão +/0 é exatamente a definição de comensalismo.
B) amensalismo.
❌ Incorreta: amensalismo exige que uma das partes seja prejudicada (-) enquanto a outra fica indiferente (0). Aqui não há prejuízo relatado para nenhum dos dois organismos — pelo contrário, o texto anula essa possibilidade ao afirmar que não há dano às atividades do macho.
C) mutualismo.
❌ Incorreta: é a alternativa mais tentadora, pois "polinização" costuma ser associada automaticamente a mutualismo (como na relação abelha-flor com recompensa de néctar). Porém, para configurar mutualismo, os DOIS organismos precisam sair ganhando. Aqui a vespa macho não recebe nenhum benefício real — ela é vítima de um engodo evolutivo (mimetismo sexual) e não consegue acasalar, ou seja, seu objetivo biológico na visita à flor fracassa completamente.
D) parasitismo.
❌ Incorreta: parasitismo pressupõe benefício de uma espécie às custas de prejuízo direto à outra (dano, consumo de recursos vitais, redução de fitness). O enunciado exclui expressamente qualquer prejuízo às atividades do macho da vespa, o que inviabiliza essa classificação.
E) simbiose.
❌ Incorreta: simbiose é um termo abrangente que descreve qualquer associação próxima e duradoura entre espécies diferentes, podendo, a depender do autor e do contexto, englobar mutualismo, comensalismo e até parasitismo. Por não ser uma categoria específica de saldo de custo-benefício, não é a resposta tecnicamente precisa quando a questão pede a classificação exata da interação descrita.
🏆 Gabarito: A — a orquídea se beneficia com a polinização promovida pelo macho da vespa enganado, que não sofre nenhum prejuízo em suas atividades nem obtém qualquer vantagem, configurando o padrão +/0 típico do comensalismo.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a letra A é a única alternativa compatível com o saldo assimétrico descrito no texto — benefício exclusivo da orquídea, sem ganho nem perda para a vespa.
- Padrão de cobrança: o ENEM adora usar casos "armadilha" de polinização (pseudocópula, mimetismo floral, engano de polinizadores) justamente para testar se o estudante decorou "polinização = mutualismo" ou se sabe analisar o benefício real de cada organismo envolvido.
- Generalização: para classificar qualquer relação ecológica, sempre pergunte separadamente "o que a espécie A ganha ou perde?" e "o que a espécie B ganha ou perde?"; o cruzamento desses dois saldos (+, 0 ou -) define automaticamente o tipo de interação, sem depender de "achismo" sobre o nome do fenômeno.
- Dica de eliminação rápida: sempre que o enunciado disser explicitamente "sem prejuízo" ou "sem dano" para um dos lados, elimine na hora parasitismo e amensalismo (que exigem prejuízo); em seguida, se apenas um dos dois lados ganha algo concreto, elimine mutualismo e fique com comensalismo; simbiose praticamente nunca é a resposta certa em provas objetivas, pois é um termo guarda-chuva, não uma classificação específica.
- Conexões: compare esse caso com o mimetismo batesiano/mülleriano (defesa contra predadores) e com outros exemplos clássicos de comensalismo, como a rêmora que se prende ao tubarão para se locomover e se alimentar de restos, sem beneficiar nem prejudicar o predador.
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