Mapa de questões · 2º dia
Questão 133 — ENEM 2017 PPL
Dados compilados por Jeremy Jackson, do Instituto Scripps de Oceanografia (EUA), mostram que o declínio de 90% dos indivíduos de 11 espécies de tubarões do Atlântico Norte, causado pelo excesso de pesca, fez com que a população de uma arraia, normalmente devorada por eles, explodisse para 40 milhões de indivíduos. Doce vingança: essa horda de arraias é capaz de devorar 840 mil toneladas de moluscos por ano, o que provavelmente explica o colapso da antes lucrativa pesca de mariscos na Baía de Chesapeake (EUA).
LOPES, R. J. Nós, o asteróide. Revista Unesp Ciência, abr. 2010. Disponível em: https://issuu.com. Acesso em: 9 maio 2017 (adaptado).
Qual das figuras representa a variação do tamanho populacional de tubarões, arraias e moluscos no Atlântico Norte, a partir do momento em que a pesca de tubarões foi iniciada (tempo zero)?
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Biologia → Ecologia (relações interespecíficas, cadeias tróficas e cascata trófica)
- ⚡ Nível: Médio — não basta ler o texto: é preciso projetar, para três populações ao mesmo tempo, o efeito indireto de uma pressão que atinge diretamente apenas uma delas
- 🎯 Tema/Habilidade: Cascata trófica provocada pela sobrepesca de um predador de topo; leitura e interpretação de gráficos que representam dinâmica populacional ao longo do tempo
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "A partir do início da pesca de tubarões (tempo zero), qual gráfico mostra corretamente o que aconteceu, ao mesmo tempo, com o número de tubarões, arraias e moluscos?"
- Palavras-chave decisivas: declínio de 90%, explodisse, colapso
- Armadilha típica: supor que, como a pesca é uma "tragédia ambiental", todas as três populações devem cair juntas — ignorando que o texto descreve explicitamente um crescimento (o das arraias) e não apenas perdas
- O que a resposta precisa demonstrar: entendimento de que retirar um predador de topo não afeta só ele — o efeito se propaga em cascata pela cadeia trófica, com sinais alternados (queda → aumento → queda) em cada nível
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Cadeia trófica: sequência de transferência de matéria e energia entre organismos. Aqui: tubarão (predador de topo) → arraia (mesopredador, presa do tubarão e predadora do molusco) → molusco (presa da arraia).
- Relação predador-presa: o predador controla naturalmente o tamanho da população da presa. Quando a densidade de predadores cai, a pressão de predação diminui e a presa tende a crescer — fenômeno conhecido como "liberação do predador" (predator release).
- Cascata trófica (top-down): alteração que se propaga de um nível trófico superior para os inferiores. Reduzir o predador de topo não estabiliza o ecossistema: desencadeia uma reação em cadeia, com efeitos opostos em níveis alternados (o nível imediatamente abaixo do que foi afetado se beneficia; o próximo nível é prejudicado).
- Sobrepesca (overfishing): exploração pesqueira acima da capacidade de reposição da população, causando colapso de estoques — no caso, dos tubarões, mas com efeito colateral inesperado sobre um recurso econômico distante (os mariscos).
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "declínio de 90% dos indivíduos de 11 espécies de tubarões... causado pelo excesso de pesca" → a curva do tubarão despenca logo após o tempo zero e permanece baixa e praticamente constante depois, já que a pressão de pesca continua e nada indica recuperação.
- Evidência 2: "a população de uma arraia... explodisse para 40 milhões de indivíduos" → a curva da arraia é crescente ao longo de todo o período, um aumento contínuo e acentuado — o oposto do que ocorre com o predador.
- Evidência 3: "essa horda de arraias é capaz de devorar 840 mil toneladas de moluscos por ano, o que provavelmente explica o colapso da... pesca de mariscos" → a curva do molusco é decrescente, resultado indireto do aumento das arraias (o colapso da pesca de mariscos é consequência, não causa).
- Síntese: o texto descreve três trajetórias diferentes e conectadas causalmente: tubarão cai e estaciona em nível baixo; arraia sobe continuamente; molusco cai por ser mais predado. O gráfico correto precisa mostrar exatamente essas três direções simultâneas — não apenas quedas generalizadas.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Traçar a trajetória do predador de topo (tubarão)
O tempo zero marca o início da pesca. A partir daí, a população de tubarões sofre uma queda abrupta (declínio de 90% já registrado) e se mantém baixa/quase constante, pois a atividade pesqueira que a reduziu não é interrompida no período narrado. Não há elemento no texto que sugira recuperação da espécie.
Subpasso 4.2 — Rastrear o efeito indireto sobre o mesopredador (arraia)
Com menos tubarões predando, a arraia perde seu principal fator de controle populacional. Livre dessa pressão, sua população cresce de forma contínua e acentuada — o texto usa o termo "explodisse", reforçando um crescimento não linear e vigoroso, até atingir a marca de 40 milhões de indivíduos.
Subpasso 4.3 — Rastrear o efeito sobre a presa da arraia (molusco) e verificar
Mais arraias significam mais predação sobre os moluscos, que respondem com queda populacional — daí o colapso da pesca comercial de mariscos na Baía de Chesapeake. Reunindo os três traçados: tubarão baixo/estável, arraia em ascensão, molusco em queda. Comparando com as alternativas, esse padrão de três curvas com sentidos diferentes (uma estável em baixa, uma subindo, uma descendo) corresponde exatamente à alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Tubarões, arraias e moluscos todos em declínio
❌ Incorreta: ignora a informação central do texto — a de que a arraia, ao contrário das outras duas espécies, teve sua população aumentada ("explodisse"). Um gráfico com as três curvas caindo trata a cadeia trófica como se todos os elos sofressem igualmente a mesma pressão, quando na verdade o efeito é indireto e alternado entre os níveis.
B) Moluscos em alta, arraias e tubarões baixos
❌ Incorreta: inverte a relação causal do texto. Se a arraia estivesse em baixa (junto com o tubarão), não haveria motivo para o colapso da pesca de mariscos — pelo contrário, os moluscos deveriam prosperar sem predador abundante. A alternativa contraria diretamente a evidência 2 e a evidência 3.
C) Tubarões baixos/quase constantes, arraias crescentes, moluscos em queda
✅ Correta: reproduz fielmente a cascata trófica descrita — queda sustentada do predador de topo, explosão do mesopredador liberado da predação e colapso da presa final por aumento da pressão predatória. É o único padrão compatível simultaneamente com as três evidências do texto.
D) Moluscos altos, arraias e tubarões subindo
❌ Incorreta: o texto é explícito quanto ao tubarão sofrer declínio contínuo por excesso de pesca — fazer a curva do tubarão subir contraria a premissa da questão. Além disso, se arraias e moluscos subissem juntos, não haveria explicação para o colapso da pesca de mariscos.
E) Moluscos altos e arraias em queda
❌ Incorreta: inverte exatamente o mecanismo relatado. O texto afirma que a arraia cresceu (não caiu) e que, por consequência, os moluscos entraram em colapso (não permaneceram altos). Essa alternativa trocaria as posições de arraia e molusco no gráfico.
🏆 Gabarito: C — é o único gráfico que representa corretamente a cascata trófica: tubarão em declínio sustentado, arraia em crescimento explosivo e molusco em colapso, exatamente como descrito no texto.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa C é a única em que as três curvas têm sentidos coerentes com o texto — uma queda estabilizada, um crescimento contínuo e uma queda por predação aumentada — sem inverter nenhuma relação causal descrita.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa casos reais de cascata trófica (lontras-marinhas e ouriços-do-mar em kelp forests, lobos e alces em Yellowstone, tubarões e arraias em Chesapeake) para testar se o estudante entende que ecossistemas são redes interligadas, não cadeias isoladas.
- Generalização: em questões de cascata trófica, ao remover ou reduzir um predador de topo, o nível imediatamente abaixo tende a crescer, e o nível seguinte (presa desse mesopredador) tende a diminuir — os sinais se alternam a cada elo da cadeia.
- Dica de eliminação rápida: identifique no texto qual população cresce e qual colapsa; qualquer alternativa em que o predador de topo volte a crescer ou em que a presa intermediária caia junto com o predador pode ser eliminada de imediato.
- Conexões: compare com outros clássicos de cascata trófica (lontras-ouriços-algas na costa do Pacífico; lobos-alces-vegetação em Yellowstone) e revise o conceito de controle "top-down" versus "bottom-up" em cadeias alimentares.
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