Mapa de questões · 1º dia
Questão 88 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
TEXTO I
A sociedade cultiva a violência, inculcando-a nos indivíduos como virtude do homem forte, do homem corajoso, do homem honrado, que se arrisca a morrer para defender os “valores” que dão sentido à sua vida.
MULLER, J. M. O princípio da não violência: uma trajetória filosófica. São Paulo: Palas Athena, 2007.
TEXTO II
A ideia de a humanidade tomar seu destino nas próprias mãos somente faz sentido se atribuirmos consciência e propósito à espécie; as espécies são apenas correntes na flutuação aleatória dos genes.
GRAY, J. Cachorros de palha: reflexões sobre humanos e outros animais. São Paulo: Record, 2002.
Os textos articulam argumentos em torno de dois modelos explicativos da condição humana. Esses dois modelos caracterizam-se, respectivamente, por valorizar como determinantes dessa condição elementos
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → concepções da condição humana (cultura × natureza)
- ⚡ Nível: Difícil — exige comparar dois textos filosóficos abstratos e extrair, por trás de vocabulários diferentes, o mesmo par conceitual
- 🎯 Tema/Habilidade: Modelos explicativos da condição humana (determinismo cultural × determinismo biológico) — competência de leitura comparada de textos filosóficos
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Os Textos I e II explicam a condição humana a partir de dois tipos diferentes de elementos determinantes — quais são eles, na ordem em que os textos aparecem?"
- Palavras-chave decisivas: sociedade cultiva, inculcando, flutuação aleatória dos genes
- Armadilha típica: confundir o eixo da questão com julgamentos morais dos textos (por exemplo, achar que o Texto I fala de "ética" porque menciona violência e valores, ou que o Texto II fala de "ciência" em sentido genérico, sem perceber que o termo técnico correto é "biológico")
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que o Texto I atribui a condição humana a um processo de socialização (algo aprendido, transmitido, cultural) e que o Texto II a atribui a um processo genético (algo herdado, biológico, sem propósito consciente) — e que a ordem das alternativas deve respeitar a ordem "Texto I, depois Texto II"
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Determinismo cultural: corrente de pensamento (presente em autores como Clifford Geertz e nas ciências sociais em geral) segundo a qual o comportamento humano — inclusive a violência — não é inato, mas ensinado, reproduzido e legitimado pela sociedade através de instituições, valores e símbolos.
- Determinismo biológico: corrente segundo a qual traços e destinos humanos decorrem primariamente de processos naturais e genéticos, anteriores e alheios à vontade ou à consciência — a espécie humana é vista como resultado de mecanismos evolutivos aleatórios, não de um "projeto" ou "destino" intencional.
- Dicotomia cultura × natureza: um dos eixos mais clássicos da filosofia e da antropologia para explicar o comportamento humano; questões do ENEM frequentemente contrapõem um texto que enfatiza a construção social (cultura, educação, história) a outro que enfatiza a base biológica (genes, instinto, evolução).
- Não-violência ativa (Muller): o filósofo Jean-Marie Muller argumenta que a violência não é natural ao ser humano, mas um comportamento ensinado e valorizado socialmente — daí termos como "cultiva" e "inculcando", que remetem a processos pedagógicos e culturais.
- Naturalismo cético (Gray): o filósofo John Gray, em Cachorros de palha, critica a ideia humanista de que a humanidade controla seu destino, afirmando que as espécies (inclusive a humana) são produto da "flutuação aleatória dos genes" — ou seja, de processos biológicos sem propósito.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "A sociedade cultiva a violência, inculcando-a nos indivíduos" → o verbo "cultivar" e o termo "inculcar" indicam um processo de ensino e transmissão social; a violência não nasce com o indivíduo, é implantada pela sociedade — isso é a marca do determinismo cultural.
- Evidência 2: "as espécies são apenas correntes na flutuação aleatória dos genes" → a expressão "flutuação aleatória dos genes" remete diretamente à genética e à evolução biológica sem direção ou propósito — isso é a marca do determinismo biológico.
- Síntese: o Texto I explica a condição humana (aqui, especificamente a violência) por meio de um processo cultural e social; o Texto II explica a condição humana (aqui, o destino da espécie) por meio de um processo biológico e genético. Como a questão pede os dois modelos "respectivamente" — ou seja, na ordem Texto I, depois Texto II — a resposta precisa trazer primeiro o elemento cultural, depois o biológico.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar o que cada texto atribui como causa da condição humana
No Texto I, Muller não diz que o ser humano nasce violento: ele diz que a violência é "cultivada" pela sociedade, que a "inculca" nos indivíduos como se fosse uma virtude (coragem, honra). Isso é uma afirmação sobre educação, valores e instituições sociais — portanto, sobre cultura. No Texto II, Gray rejeita a ideia de que a humanidade tenha "consciência e propósito" coletivos, afirmando que as espécies resultam de "flutuação aleatória dos genes" — uma afirmação sobre hereditariedade, evolução e acaso biológico — portanto, sobre biologia.
Subpasso 4.2 — Respeitar a ordem "respectivamente"
O enunciado pede os elementos "respectivamente", isto é, na mesma ordem de apresentação dos textos: primeiro o que caracteriza o Texto I, depois o que caracteriza o Texto II. Logo, a resposta correta deve seguir o padrão [elemento do Texto I] e [elemento do Texto II] — ou seja, cultural (Texto I) e biológico (Texto II), nessa ordem exata.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando com as alternativas, apenas uma traz exatamente o par "culturais e biológicos" na ordem correta: a alternativa C. Nenhuma outra alternativa usa esse vocabulário técnico compatível com os dois textos ao mesmo tempo — as demais erram porque descrevem apenas parcialmente um dos textos, misturam categorias (estética, ética, misticismo) que não aparecem nos trechos, ou invertem o eixo da discussão (voluntarismo × possibilismo, que é um debate geográfico sobre relação homem-meio, não sobre cultura × genética).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) estéticos e éticos.
❌ Incorreta: nenhum dos dois textos discute critérios de beleza (estética) e, embora o Texto I mencione "valores" e "honra", ele não está fazendo uma reflexão ética sobre o certo e o errado — está descrevendo um mecanismo social de transmissão de comportamento. O Texto II tampouco trata de ética.
B) místicos e científicos.
❌ Incorreta: o Texto I não fala de misticismo, religião ou transcendência — fala de um processo social concreto (educação, cultura). Atribuir "científico" ao Texto II até faz sentido em parte (Gray usa linguagem biológica), mas como o par completo exige que o Texto I seja "místico", a alternativa já se invalida na primeira metade.
C) culturais e biológicos.
✅ Correta: o Texto I atribui a violência a um processo de socialização — a sociedade "cultiva" e "inculca" —, o que caracteriza um determinismo cultural. O Texto II atribui o destino da espécie humana à "flutuação aleatória dos genes", o que caracteriza um determinismo biológico. A ordem "culturais, biológicos" corresponde exatamente à ordem "Texto I, Texto II" pedida pelo enunciado.
D) emocionais e racionais.
❌ Incorreta: o Texto I não descreve a violência como fruto de emoções individuais, mas como um produto de construção social; o Texto II não atribui à espécie humana um comportamento racional — pelo contrário, nega que exista propósito ou consciência coletiva guiando a evolução, o que é o oposto de "racional".
E) voluntaristas e possibilistas.
❌ Incorreta: voluntarismo e possibilismo são categorias típicas da geografia (relação entre ação humana e meio ambiente), não do debate filosófico proposto pelos textos. Nenhum dos dois trechos discute a capacidade humana de agir livremente sobre a natureza (voluntarismo) nem os limites e possibilidades que o meio oferece à ação humana (possibilismo).
🏆 Gabarito: C — os textos contrapõem, respectivamente, um modelo que explica a condição humana por meio da cultura (Texto I: violência "cultivada" e "inculcada" pela sociedade) e um modelo que a explica por meio da biologia (Texto II: espécies como resultado da "flutuação aleatória dos genes").
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa C reproduz, na ordem certa e com vocabulário preciso, o par conceitual presente nos dois textos: cultura (Texto I) e biologia (Texto II).
- Padrão de cobrança: o ENEM recorre com frequência à dicotomia cultura × natureza (ou cultura × biologia) para testar se o estudante consegue identificar, em textos filosóficos ou antropológicos, se a explicação de um comportamento humano é social/histórica ou biológica/genética.
- Generalização: sempre que dois textos filosóficos discutirem "o que determina o ser humano", procure marcadores linguísticos: verbos como "ensinar", "cultivar", "transmitir", "educar" indicam explicação cultural; termos como "genes", "instinto", "evolução", "espécie" indicam explicação biológica.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas com vocabulário que não aparece em nenhum dos dois textos (estética, misticismo, voluntarismo/possibilismo) — elas quase sempre são "ruído" criado para testar se o candidato realmente leu os trechos ou apenas associou palavras soltas.
- Conexões: debate cultura × natureza na antropologia (Clifford Geertz, Claude Lévi-Strauss); crítica ao humanismo antropocêntrico em John Gray; a ideia de "banalidade da violência ensinada" em pensadores da não violência, como Jean-Marie Muller e Mahatma Gandhi.
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