Mapa de questões · 1º dia
Questão 15 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
Harmonia do equilíbrio!
Cega dinâmica embaraçada entre linhas
De força magnética!
Em hélices seguindo e refletindo: dança de elétrons
[e prótons
Matéria-máter do mundo
Poeira do sol, poeira do som, poeira de luz
Poeira!
Poeira da memória, da memória dos homens
Que irá se perder um dia no universo
— Cada átomo possui um número infinito de
[partículas
— Cada partícula um número infinito de partículas
— Cada partícula de partícula um número…

Poeira de ausências e lembranças: poeira do
[tempo-matéria.
É desse pó luminoso, manto luzente de | corpúsculo
| corpúsculo
Que são feitas as ondas e as partículas
Num torvelinho de moídos corpos simples:
— Farinha de energias finíssimas e raras —
Selênio, Rubídio, Colúmbio, Germânio,
Samário, Rutênio, Paládio, Lutécio
CARDOZO, J. Poemas selecionados. Recife: Bagaço, 1996 (fragmento)
O fragmento remete a uma composição poética inspirada no Futurismo das vanguardas modernistas, pois
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Vanguardas europeias (Futurismo) e sua recepção no Modernismo brasileiro; leitura de poesia moderna com interseção ciência-arte.
- ⚡ Nível: Médio — o texto é acessível, mas a questão exige diferenciar conceitos próximos (ex.: "estetizar a ciência" x "romper com a racionalidade"), o que gera pegadinhas entre as alternativas A e C.
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer, em um texto poético, procedimentos estéticos que filiam a composição a uma vanguarda europeia (Futurismo) — competência de leitura literária cobrada na área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias.
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual procedimento do poema comprova sua filiação ao Futurismo das vanguardas modernistas?"
- Palavras-chave decisivas: Futurismo, vanguardas modernistas, dança de elétrons e prótons
- Armadilha típica: confundir "usar linguagem científica de forma estética" (alternativa C) com "recusar a razão" (alternativa A). O poema faz o oposto de romper com a racionalidade: ele mergulha na ciência e a celebra. Outra armadilha é ler "poeira", "ausências" e "memória" como frieza emocional (alternativa B), quando na verdade há lirismo explícito.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar CORRETAMENTE qual traço futurista aparece no fragmento — não basta reconhecer "é sobre ciência", é preciso nomear a função que essa ciência exerce no texto: matéria-prima estética, e não crítica social, nem discurso bélico, nem elogio à indústria.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Futurismo (Marinetti, 1909): vanguarda que exalta a velocidade, a máquina, a energia e a ciência como novas fontes de beleza, rompendo com a arte "passadista" em busca de uma linguagem que traduza o ritmo do mundo moderno.
- "Palavras em liberdade" (parole in libertà): no Manifesto Técnico da Literatura Futurista (1912), Marinetti propõe destruir a sintaxe tradicional e inserir sinais matemáticos e notações técnicas no poema para expressar a precisão do pensamento científico — exatamente o que o fragmento de Cardozo realiza.
- Cardozo, poeta-engenheiro: Joaquim Cardozo (1897–1978), autor do fragmento, foi poeta pernambucano e também engenheiro calculista (colaborou com Oscar Niemeyer nas estruturas de Brasília), o que explica a naturalidade com que sua poesia incorpora física, química e matemática.
- Distinção crucial: "estetizar a ciência" (Futurismo) é diferente de "negar a racionalidade" (procedimento mais ligado ao Dadaísmo e a certos recursos do Surrealismo, como o acaso e o nonsense).
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Em hélices seguindo e refletindo: dança de elétrons e prótons" → um fenômeno da física atômica (o movimento orbital de partículas subatômicas) é transformado em imagem de dança e harmonia, ou seja, em beleza — não em explicação científica.
- Evidência 2: "Selênio, Rubídio, Colúmbio, Germânio, Samário, Rutênio, Paládio, Lutécio" → uma lista de elementos químicos raros da tabela periódica é organizada em sequência quase musical ("Farinha de energias finíssimas e raras"), funcionando como sonoridade e ritmo do poema, não como conteúdo didático de Química.
- Evidência 3 (figura do enunciado): a imagem mostra, com setas de destaque, os elementos "√2" e "Campo mésico" (termo de física de partículas, ligado aos mésons), seguidos de "Etc. Etc." — o próprio símbolo matemático de raiz quadrada e um termo técnico de física entram como elementos visuais do poema, e o "etc. etc." sugere que a lista científica poderia se estender ao infinito, ecoando o verso "Cada partícula de partícula um número…".
- Síntese: as três evidências convergem para o mesmo procedimento: o poema recruta vocabulário e símbolos da ciência (física, química, matemática) como tecido verbal, rítmico e visual — não para ensinar ciência, mas para produzir uma IMAGEM POÉTICA nova. Essa é a estetização do repertório científico, o traço futurista central do fragmento.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o que se espera do candidato
O comando já entrega o movimento: "Futurismo das vanguardas modernistas". A tarefa não é reconhecer o rótulo (isso o enunciado já faz), mas identificar QUAL procedimento do texto comprova essa filiação. Os pilares do Futurismo, fundado por Marinetti em 1909, são: exaltação da velocidade, da máquina, da energia e da ciência como novas fontes de beleza, em ruptura com os temas tradicionais da poesia (natureza idealizada, sentimentalismo romântico).
Subpasso 4.2 — Rastrear como a ciência aparece no poema
O eu lírico não recorre ao repertório lírico tradicional (lua, rosa, mar, suspiro). O texto é construído com termos de física de partículas ("elétrons e prótons", "átomo", "partícula", "matéria"), com elementos químicos organizados em sequência sonora e — na figura do enunciado — até com um radical matemático (√2) e um termo de física de partículas ("Campo mésico"). Em todos os casos, o vocabulário técnico-científico não aparece como explicação, mas como IMAGEM: "dança de elétrons e prótons", "farinha de energias finíssimas e raras". A ciência vira metáfora, ritmo e música.
Subpasso 4.3 — Verificação: conectar o procedimento ao conceito de Futurismo
Transformar vocabulário técnico-científico em matéria de expressão estética é o que os futuristas propunham com as "palavras em liberdade": usar números, fórmulas e termos técnicos como material poético capaz de traduzir a velocidade e a precisão do pensamento moderno. O poema de Cardozo faz isso de forma didática — e a alternativa que sintetiza esse procedimento é a que afirma que o texto "extrai do repertório científico estética expressiva". Confirmação: gabarito C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) propõe a ruptura com a racionalidade.
❌ Incorreta: o poema faz o contrário — mergulha na racionalidade científica (física, química, matemática) e a celebra como fonte de beleza. Não há recusa da razão nem do método científico, e sim uma hipervalorização deles. "Ruptura com a racionalidade" descreveria melhor o Dadaísmo (associação livre, acaso, nonsense), não este fragmento.
B) configura um lirismo ausente de emotividade.
❌ Incorreta: há emotividade explícita — "Poeira de ausências e lembranças", "Poeira da memória, da memória dos homens / Que irá se perder um dia no universo" evocam finitude, saudade e a fragilidade da memória humana diante do cosmos. O eu lírico humaniza a matéria; não é um discurso frio, mas um lirismo expresso por imagens científicas.
C) extrai do repertório científico estética expressiva.
✅ Correta: como demonstrado nos Passos 3 e 4, o fragmento converte vocabulário de física (elétrons, prótons, átomo, partícula), de química (elementos raros) e de matemática/física (√2, campo mésico) em material rítmico, sonoro e metafórico. Esse é o procedimento futurista de transformar a linguagem da ciência em matéria estética — a "poesia-engenharia" de Cardozo.
D) sugere uma literatura a serviço da indústria emergente.
❌ Incorreta: o poema não trata de fábricas, produção ou trabalho industrial — trata de física de partículas e química elementar em chave cósmica e filosófica (matéria, tempo, memória, universo). "Literatura a serviço da indústria" exigiria elogio explícito ao processo produtivo ou ao operário, ausente no fragmento.
E) revela o desencanto do eu lírico ante o contexto de guerra.
❌ Incorreta: não há referência a guerra, conflito bélico ou desilusão histórica no fragmento. O tom predominante é de fascínio diante da matéria e do universo — o primeiro verso, "Harmonia do equilíbrio!", já é uma exclamação de admiração, não de desencanto.
🏆 Gabarito: C — o traço futurista do fragmento está em transformar o vocabulário da ciência (física, química, matemática) em material poético-estético, e não em negar a razão, eliminar a emoção, elogiar a indústria ou expressar desencanto bélico.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que descreve com precisão o procedimento do texto: usar termos, listas e símbolos científicos como matéria-prima da expressão poética, e não como conteúdo didático ou crítica social.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente pede o reconhecimento de vanguardas europeias (Futurismo, Cubismo, Dadaísmo, Surrealismo, Expressionismo) a partir de fragmentos, exigindo que o candidato identifique o PROCEDIMENTO estético, não apenas o rótulo do movimento.
- Generalização: sempre que um texto poético incorporar termos técnicos, científicos ou matemáticos como imagem (e não como explicação), pense em Futurismo — mas confirme comparando com Cubismo (fragmentação de perspectivas), Dadaísmo (nonsense e acaso) e Surrealismo (associação livre e universo onírico).
- Dica de eliminação rápida: corte alternativas com "guerra"/"desencanto" sem referência bélica explícita (elimina E); corte "ausência de emotividade" se houver palavra ligada a sentimento, memória ou perda (elimina B); corte "ruptura com a racionalidade" quando o texto, ao contrário, reverencia a ciência (elimina A).
- Conexões: Manifesto Futurista de Marinetti (1909) e Manifesto Técnico da Literatura Futurista (1912); Joaquim Cardozo, poeta-engenheiro ligado à construção de Brasília; primeira fase do Modernismo brasileiro (Semana de 22) e sua recepção crítica das vanguardas europeias.
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