Pular para o conteúdo
MemorizeMemorize
Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaMédio

Questão 87ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia

O escravo tinha de prover diretamente ao senhor e a si próprio no ganho de rua. Do ganho dependia inclusive sua chance de comprar a liberdade. O próprio ganho vinha muitas vezes de fontes ocultas, do batuque, da capoeira, da adivinhação. Não eram poucos os escravos que viviam de adivinhar, curar feitiço ou fabricar amuletos muçulmanos, ocupações lucrativas que na Bahia favoreceram muitas alforrias.

REIS, J. J. Greve negra de 1857 na Bahia. Revista USP, n. 18, 1993 (adaptado).

Conforme descritas no texto, algumas práticas culturais afro-brasileiras atuais surgiram em nossa história como estratégias para

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → escravidão urbana no Brasil; cultura afro-brasileira; estratégias de resistência e sobrevivência
  • ⚡ Nível: Médio — o texto é claro e guia o raciocínio, mas exige interpretar o conceito historiográfico de "brecha" dentro de um sistema de dominação, e não confundi-lo com resistência aberta ou reivindicação de direitos
  • 🎯 Tema/Habilidade: Escravidão urbana, trabalho de ganho e origem de práticas culturais afro-brasileiras (H6/H13 — analisar processos de dominação e resistência social e cultural na história do Brasil)
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "As práticas culturais afro-brasileiras citadas no texto (batuque, capoeira, adivinhação, curas, amuletos) surgiram, historicamente, como estratégia para fazer o quê dentro do sistema escravista?"
  • Palavras-chave decisivas: ganho de rua, ocupações lucrativas, favoreceram muitas alforrias
  • Armadilha típica: ler essas práticas como protesto explícito contra a escravidão (A) ou celebração identitária da cultura africana (B) — o texto fala de uma lógica econômica dentro do próprio sistema, não de denúncia ou valorização simbólica
  • O que a resposta precisa demonstrar: que os escravizados usaram brechas do próprio regime escravista (o trabalho de ganho) para gerar renda e comprar a alforria, sem confrontar diretamente a estrutura de poder

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Escravidão urbana e "escravo de ganho": nas cidades do século XIX, sobretudo na Bahia, senhores permitiam que seus escravizados trabalhassem nas ruas — como vendedores, carregadores, artesãos — desde que repassassem parte do lucro ("o ganho"). O excedente podia, em alguns casos, ficar com o próprio escravizado.
  • Pecúlio e alforria: esse excedente formava um pecúlio (poupança) usado para comprar a própria liberdade ou a de parentes — o mecanismo que Reis descreve como via de alforria.
  • Frestas do sistema (conceito historiográfico): historiadores como João José Reis e Sidney Chalhoub mostram que a escravidão era rígida, mas não hermética — havia espaços de negociação e tolerância que os escravizados souberam explorar a seu favor, sem ruptura revolucionária com a ordem vigente.
  • Cultura afro-brasileira como fonte de renda: capoeira, batuque, adivinhação e amuletos (muitos de matriz islâmica, ligados aos escravizados malês) não eram só manifestações identitárias — funcionavam como serviços procurados e pagos, logo, fonte de renda na economia informal urbana.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "O escravo tinha de prover diretamente ao senhor e a si próprio no ganho de rua." → o trabalho de ganho é obrigação estrutural do sistema escravista urbano — o escravizado opera dentro das regras impostas pelo senhor, não fora delas.
  • Evidência 2: "Do ganho dependia inclusive sua chance de comprar a liberdade." → conecta a atividade econômica informal diretamente à alforria: o caminho para a liberdade passa por dentro do sistema.
  • Evidência 3: "ocupações lucrativas que na Bahia favoreceram muitas alforrias" → confirma que práticas culturais afro-brasileiras viraram atividade lucrativa, e essa lucratividade é apontada como causa direta de alforrias.
  • Síntese: sistema impõe o trabalho de ganho → escravizados percebem que práticas culturais de origem africana são procuradas e pagas → essa renda extra vira instrumento de alforria. Isso é, por definição, aproveitar uma fresta da própria estrutura de dominação, sem contestá-la abertamente.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o fenômeno histórico central

O texto trata da escravidão urbana baiana e do "escravo de ganho", categoria em que o cativo circulava pela cidade prestando serviços e repassando parte do lucro ao senhor. Esse arranjo, embora imposto pelo sistema, abria uma fresta: o que excedia a cota do senhor podia, em certos casos, ser acumulado pelo próprio escravizado.

Subpasso 4.2 — Conectar cultura afro-brasileira à lógica econômica do texto

O trecho cita que parte desse ganho vinha "de fontes ocultas, do batuque, da capoeira, da adivinhação" e que escravizados que "viviam de adivinhar, curar feitiço ou fabricar amuletos muçulmanos" tinham "ocupações lucrativas". Manifestações culturais de matriz africana e afro-islâmica — hoje reconhecidas como patrimônio cultural brasileiro — nasceram, nesse contexto, também como meio de gerar renda num mercado informal tolerado, ainda que à margem da lei e da moral dominante.

Subpasso 4.3 — Verificação: qual estratégia resume o processo?

O texto não descreve confronto, denúncia pública ou reivindicação política — descreve aproveitamento inteligente de um espaço de tolerância dentro do próprio sistema escravista para gerar renda e, com ela, comprar a liberdade. Esse comportamento corresponde exatamente a aproveitar as frestas do sistema vigente, confirmando a alternativa C.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) denunciar a rigidez da estrutura social.

❌ Incorreta: o texto não descreve denúncia ou protesto público. As práticas citadas são discretas, voltadas à obtenção de renda e alforria, não à exposição ou crítica aberta da estrutura escravista.

B) expor a riqueza da herança africana.

❌ Incorreta: confunde efeito atual (o reconhecimento contemporâneo dessas práticas como herança cultural) com a intenção histórica original. No século XIX descrito por Reis, o objetivo imediato era gerar renda e viabilizar a alforria, não afirmar identidade cultural.

C) aproveitar as frestas do sistema vigente.

✅ Correta: o trabalho de ganho, incluindo práticas culturais afro-brasileiras transformadas em serviços pagos, era um espaço de tolerância dentro do próprio sistema escravista que os cativos souberam explorar para acumular pecúlio e comprar a liberdade — a definição exata de aproveitar uma brecha da estrutura de dominação.

D) contestar o preconceito da religião dominante.

❌ Incorreta: o texto não trata de disputa religiosa nem de contestação a um credo dominante. A menção a "amuletos muçulmanos" é sobre uma prática lucrativa (fabricar e vender amuletos), não sobre embate religioso.

E) incorporar a disciplina do trabalho compulsório.

❌ Incorreta: é o oposto do sentido do texto. As práticas descritas geram renda à margem do trabalho compulsório imposto pelo senhor, usadas para escapar dessa condição pela alforria, não para reforçá-la.

🏆 Gabarito: C — o texto descreve como o trabalho de ganho e as práticas culturais afro-brasileiras funcionaram como uma brecha econômica dentro do próprio sistema escravista, permitindo aos cativos acumular recursos e comprar a liberdade sem enfrentar diretamente a estrutura de dominação.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa C traduz com precisão a relação de causa e efeito do texto: prática cultural lucrativa → renda extra → alforria, um uso inteligente das brechas do sistema, não confronto nem afirmação identitária.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente explora a historiografia da "escravidão urbana" e do "escravo de ganho" (Reis, Chalhoub) para mostrar que a experiência escrava não era só sujeição passiva, mas também negociação e agência dentro dos limites do sistema.
  • Generalização: quando um texto histórico descrever grupos subalternos obtendo vantagens práticas — dinheiro, autonomia parcial, mobilidade — sem romper frontalmente com a estrutura de poder, a resposta costuma apontar para "brechas", "negociação" ou "estratégias de sobrevivência", não para "resistência aberta" ou "denúncia".
  • Dica de eliminação rápida: elimine alternativas com "denunciar", "contestar" ou "expor" quando o texto só menciona atividades lucrativas e discretas — esses verbos remetem a ação política explícita ausente no enunciado. Elimine também opções que descrevam adesão ao sistema, pois o texto mostra o caminho inverso: rumo à liberdade.
  • Conexões: João José Reis e a Revolta dos Malês (1835); capoeira e candomblé como patrimônio cultural imaterial do Brasil.

Comunidade Memorize · Grátis

Não perca nenhuma live, aula ou material.

Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.