Mapa de questões · 1º dia
Questão 60 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
O povo alimentava-se de peixe fresco, pegado diariamente pelos múltiplos e engenhosos processos recebidos dos indígenas, ou salgado, como o pirarucu, a tainha e o peixe-boi; de tartaruga, mais abundante à medida que se caminhava para o oeste, ou porque assim estivesse distribuída originariamente, ou por se não ter adiantado tanto por aquelas bandas a obra de devastação.
ABREU, C. Capítulos de história colonial. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisa Social, 2009 (adaptado).
De acordo com o texto, durante a ocupação da Amazônia no século XVIII, a dieta alimentar dos moradores de povoados dependia da
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil colonial; ocupação da Amazônia; relações entre colonizadores e povos indígenas
- ⚡ Nível: Médio — o texto entrega a resposta de forma quase explícita, mas esconde uma armadilha clássica: confundir "saberes indígenas de subsistência" com "extrativismo florestal"
- 🎯 Tema/Habilidade: Amazônia colonial e o papel dos saberes indígenas na sobrevivência dos colonizadores — leitura e interpretação de fonte historiográfica
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo o texto de Capistrano de Abreu, o que sustentava a alimentação da população dos povoados amazônicos?"
- Palavras-chave decisivas: "múltiplos e engenhosos processos recebidos dos indígenas", peixe fresco/salgado, tartaruga
- Armadilha típica: associar Amazônia automaticamente a "extração de produtos florestais" (as famosas drogas do sertão), ignorando que o texto fala especificamente de pesca, salga de peixe e captura de tartaruga — atividades ligadas aos rios, não à floresta
- O que a resposta precisa demonstrar: que a origem do conhecimento técnico usado para obter o alimento é indígena, e não outra atividade econômica, como pecuária, transporte, extrativismo vegetal ou trabalho escravo
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Colonização da Amazônia: ocupada de forma mais tardia e rarefeita que o litoral açucareiro, a Amazônia colonial (séculos XVII-XVIII) organizou-se em torno de missões religiosas e fortes militares, num povoamento que dependeu da incorporação do modo de vida indígena, já que a agricultura de moldes europeus não se adaptava ao ambiente amazônico.
- Saberes indígenas de subsistência: técnicas de pesca (arpão, timbó, cercados), captura de tartaruga e de peixe-boi, e conservação de alimentos pela salga — um repertório desenvolvido por gerações de povos originários e apropriado pelos colonizadores como condição de sobrevivência na floresta.
- "Drogas do sertão" (o contraponto que gera a armadilha): cacau, cravo, canela e salsaparrilha eram produtos florestais extraídos na Amazônia colonial para exportação — tema recorrente em história, mas que não é o assunto deste texto, centrado na alimentação cotidiana, não no comércio externo.
- Capistrano de Abreu: em "Capítulos de História Colonial" (1907), o autor percorre região por região a ocupação portuguesa e destaca como, na Amazônia, foi o colonizador quem precisou se adaptar ao indígena, e não o contrário — inclusive na língua (o "nheengatu") e nos hábitos alimentares.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "peixe fresco, pegado diariamente pelos múltiplos e engenhosos processos recebidos dos indígenas" → a obtenção do alimento mais básico da dieta dependia diretamente de métodos criados e ensinados pelos povos indígenas.
- Evidência 2: "ou salgado, como o pirarucu, a tainha e o peixe-boi" → até a conservação do alimento segue o mesmo repertório técnico de manejo da fauna amazônica, reforçando que o que garante a dieta é a técnica, não apenas a existência do animal.
- Evidência 3: "de tartaruga, mais abundante à medida que se caminhava para o oeste" → a dieta se ajustava à disponibilidade regional de fauna aquática, mas sempre por meio das mesmas técnicas de captura herdadas dos indígenas.
- Síntese: o texto inteiro gira em torno de um único fio condutor — o "processo" (a técnica) de obtenção do alimento — e esse processo é explicitamente atribuído aos indígenas. A dieta dos povoados, portanto, dependia da utilização de técnicas nativas.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo da pergunta
A questão pergunta do que a dieta alimentar "dependia" — não pergunta o que o povo comia (peixe, tartaruga), e sim qual é o fator estrutural que tornava essa alimentação possível. É preciso ler a frase até o fim: o peixe era "pegado diariamente pelos múltiplos e engenhosos processos recebidos dos indígenas". O núcleo da resposta está nesse trecho: processos = técnicas; recebidos dos indígenas = de origem nativa.
Subpasso 4.2 — Rastrear a origem de cada elemento da dieta
- Peixe fresco → capturado por processos indígenas.
- Peixe salgado (pirarucu, tainha, peixe-boi) → conservado por técnicas também associadas ao mesmo repertório de manejo da fauna amazônica.
- Tartaruga → capturada com a mesma lógica técnica, com abundância crescente rumo ao oeste, mas sempre dependente do mesmo saber-fazer.
Em nenhum momento o texto menciona currais de gado, embarcações comerciais, plantações ou mão de obra escrava como base da alimentação — ele menciona apenas processos, ou seja, técnicas.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando a alternativa B ("utilização de técnicas nativas") com o texto: ela é a única que nomeia exatamente o que a fonte primária afirma — "processos... recebidos dos indígenas" equivale a técnicas nativas. As demais alternativas descrevem atividades econômicas (pecuária, transporte, extrativismo, escravidão) que simplesmente não aparecem no trecho transcrito. A resposta está confirmada: B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) criação de gado bovino.
❌ Incorreta: a pecuária bovina existiu na Amazônia colonial, sobretudo em áreas de campo como a ilha de Marajó, mas o texto não menciona gado em momento algum — toda a dieta descrita é baseada em fauna aquática silvestre (peixe, tartaruga, peixe-boi), obtida por captura, e não por criação.
B) utilização de técnicas nativas.
✅ Correta: é exatamente o que o texto afirma ao dizer que o peixe era "pegado diariamente pelos múltiplos e engenhosos processos recebidos dos indígenas". A dieta dependia do conhecimento técnico indígena de pesca, captura e conservação de alimentos, incorporado pelos colonizadores como estratégia de adaptação ao ambiente amazônico.
C) introdução do transporte fluvial.
❌ Incorreta: o texto não trata de deslocamento, embarcações ou logística — trata da obtenção do alimento em si. O transporte fluvial até foi importante para a circulação de mercadorias na Amazônia colonial, mas não é o que sustenta a dieta descrita no trecho.
D) extração de produtos florestais.
❌ Incorreta: é a armadilha mais perigosa da questão, pois remete às "drogas do sertão" (cacau, cravo, salsaparrilha), tema clássico da Amazônia colonial. Porém, o texto fala de recursos aquáticos — peixe, tartaruga, peixe-boi —, não de produtos extraídos da floresta; confundir esses dois universos é o erro mais comum nesta questão.
E) exploração do trabalho escravo.
❌ Incorreta: o verbo do texto é "recebidos", que indica transmissão de saber, e não imposição de trabalho forçado; não há qualquer menção a escravidão indígena ou africana no trecho. A relação descrita é de aprendizado e apropriação cultural, não de exploração de mão de obra.
🏆 Gabarito: B — o texto atribui explicitamente aos indígenas os "múltiplos e engenhosos processos" de obtenção e conservação do alimento, confirmando que a dieta dos povoados amazônicos dependia da utilização de técnicas nativas.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa B nomeia diretamente o que o texto aponta como base da alimentação — o conjunto de técnicas indígenas de pesca, captura e conservação de alimentos.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma explorar a Amazônia colonial para mostrar que, ali, ao contrário do litoral açucareiro, foi o colonizador europeu quem precisou se adaptar aos saberes e ao modo de vida indígena, e não o inverso.
- Generalização: em interpretação histórica, a alternativa correta costuma parafrasear literalmente um trecho-chave do texto — priorize a evidência textual explícita em vez do conhecimento prévio sobre o tema.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara as alternativas que citam elementos ausentes do texto (gado, transporte, escravidão); entre as duas restantes (B e D), a palavra "processos" aponta para técnica/conhecimento, não para "produto extraído" — isso já isola a B.
- Conexões: herança indígena na cultura brasileira (língua, alimentação, medicina popular) e contraste entre os modelos de colonização portuguesa (açucareiro-escravista, pecuarista e extrativista-fluvial na Amazônia).
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