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Mapa de questões · 1º dia
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Questão 8ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia

Conseguindo, porém, escapar à vigilância dos interessados, e depois de curtir uma noite, a mais escura de sua vida, numa espécie de jaula com grades de ferro, Amaro, que só temia regressar à “fazenda”, voltar ao seio da escravidão, estremeceu diante de um rio muito largo e muito calmo, onde havia barcos vogando em todos os sentidos, à vela, outros deitando fumaça, e lá cima, beirando a água, um morro alto, em ponta, varando as nuvens, como ele nunca tinha visto…

[…] todo o conjunto da paisagem comunicava-lhe uma sensação tão forte de liberdade e vida, que até lhe vinha vontade de chorar, mas chorar francamente, abertamente, na presença dos outros, como se estivesse enlouquecendo… Aquele magnífico cenário gravara-se-lhe na retina para toda a existência; nunca mais o havia de esquecer, oh! Nunca mais! Ele, o escravo, “o negro fugido”, sentia-se verdadeiramente homem, igual aos outros homens, feliz de o ser, grande como a natureza, em toda a pujança viril da sua mocidade, e tinha pena, muita pena dos que ficavam na “fazenda” trabalhando, sem ganhar dinheiro, desde a madrugadinha té… sabe Deus!

CAMINHA, A. Bom Crioulo. São Paulo: Martin Claret, 2008.

A situação descrita no fragmento aproxima-o dos padrões estéticos do Naturalismo em função da

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Naturalismo brasileiro (determinismo do meio sobre o indivíduo)
  • ⚡ Nível: Médio — exige diferenciar o mecanismo naturalista real (paisagem → resiliência) de armadilhas emocionalmente parecidas (fragilidade, trauma irresolúvel)
  • 🎯 Tema/Habilidade: Características estéticas do Naturalismo + leitura de texto literário relacionando forma, contexto histórico e efeitos de sentido
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual traço da cena narrada aproxima o texto da estética naturalista?"
  • Palavras-chave decisivas: padrões estéticos do Naturalismo, situação descrita no fragmento, em função da
  • Armadilha típica: confundir a "vontade de chorar" de Amaro com fragilidade emocional (alternativa A) ou supor que a escravidão o deixou preso a um trauma insuperável (alternativa C) — o texto mostra exatamente o oposto disso.
  • O que a resposta precisa demonstrar: o reconhecimento do mecanismo textual específico — o meio (a paisagem) agindo sobre o psiquismo do indivíduo — e não apenas a repetição de um conceito teórico genérico do movimento.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Naturalismo: desdobramento radical do Realismo (Brasil, 1880-1890) que importa para a literatura o Positivismo e o Cientificismo: o ser humano vira produto do meio, da raça e do momento histórico — a tríade de Hippolyte Taine.
  • Determinismo do meio: o "meio" (ambiente físico, social, geográfico) não é cenário decorativo; é força ativa que molda sentimentos, comportamento e destino das personagens.
  • Bom Crioulo (1895), Adolfo Caminha: narra Amaro, ex-escravo fugido que se torna marinheiro. O trecho registra o instante em que ele avista, pela primeira vez, a paisagem da Baía de Guanabara logo após escapar.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "todo o conjunto da paisagem comunicava-lhe uma sensação tão forte de liberdade e vida" → o sujeito da ação é a paisagem ("comunicava"); Amaro só recebe ("-lhe") o efeito. É o meio que age, não uma decisão interior do personagem.
  • Evidência 2: "sentia-se verdadeiramente homem, igual aos outros homens... grande como a natureza, em toda a pujança viril da sua mocidade" → o vigor e a dignidade de Amaro nascem do contato com o cenário grandioso; ele se define por comparação direta com a "natureza".
  • Evidência 3: o contraste entre "a noite mais escura de sua vida", numa "jaula com grades de ferro" (cativeiro), e o deslumbramento diante do rio e do morro (liberdade) mostra que a guinada emocional é disparada exclusivamente pela mudança do ambiente físico.
  • Síntese: é o contato com a paisagem — e não uma virtude interior ou a superação racional do trauma — que dá a Amaro força emocional para suportar a condição de fugitivo. A paisagem produz nele a capacidade de resistir e seguir adiante: resiliência provocada pelo meio.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Delimitar o que o comando pede

A questão não pergunta "o que é o Naturalismo"; pergunta qual elemento da cena aproxima o texto dessa estética. É preciso localizar, no fragmento, um mecanismo concreto entre paisagem e personagem — não apenas a alternativa que "soa" mais grave.

Subpasso 4.2 — Isolar o mecanismo narrativo central

Em "a paisagem comunicava-lhe", o sujeito é a paisagem; Amaro é o alvo do efeito, que é duplo e progressivo. Primeiro, uma "sensação tão forte de liberdade e vida" — impacto emocional imediato. Depois, esse impacto vira autopercepção de força: "sentia-se verdadeiramente homem... grande como a natureza". É essa progressão — a paisagem alimentando a capacidade de Amaro de se reerguer após a fuga e a noite na jaula — que configura resiliência.

Subpasso 4.3 — Verificação

Regra geral do Naturalismo: personagem = produto do meio. Aplicando ao texto: meio (paisagem da baía) → efeito (fortalecimento psicológico de Amaro). Essa relação é nomeada com exatidão pela alternativa B — "influência da paisagem sobre a capacidade de resiliência". Nenhuma outra alternativa descreve esse par causa-efeito. Resultado confirmado: B.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) fragilidade emocional atribuída ao indivíduo oprimido.

❌ Incorreta: o texto menciona "vontade de chorar", mas o narrador não trata isso como fraqueza — logo em seguida, Amaro é descrito como "grande como a natureza", com "pujança viril". Chorar de emoção diante da liberdade reconquistada é explosão de força contida, não fragilidade.

B) influência da paisagem sobre a capacidade de resiliência.

✅ Correta: é o mecanismo comprovado nos Passos 3 e 4 — a paisagem (rio, barcos, morro) atua sobre Amaro e o capacita emocionalmente a suportar e superar sua condição de fugitivo. Esse é o traço propriamente naturalista da cena: o meio como força determinante do estado psíquico do indivíduo.

C) impossibilidade de superação dos traumas da escravidão.

❌ Incorreta: o trecho narra o oposto — Amaro supera, naquele instante, o peso da escravidão; sente-se livre, "verdadeiramente homem", e sente apenas "pena" (não desespero) dos que ficaram na fazenda. Não há trauma irresolúvel; há libertação emocional efetiva.

D) correlação de causalidade entre força física e origem étnica.

❌ Incorreta: o texto não relaciona raça ou etnia à força física de Amaro; a "pujança viril" é atribuída à juventude e ao impacto da paisagem, não a uma característica étnico-biológica. A alternativa empresta ao trecho um determinismo racial que a teoria de Taine prevê, mas que não é mobilizado neste recorte.

E) condição moral do indivíduo vinculada aos papéis de gênero.

❌ Incorreta: o adjetivo "viril" qualifica vigor físico e vital, sem estabelecer comparação ou hierarquia entre papéis masculino e feminino; o fragmento não discute moral atrelada a gênero.

🏆 Gabarito: B — a paisagem grandiosa da baía é o agente que, ao "comunicar" liberdade a Amaro, fortalece sua capacidade de resistir emocionalmente à condição de fugitivo: determinismo do meio em ação, marca central do Naturalismo.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa que nomeia com precisão o par causa-efeito das evidências: a paisagem (causa/meio) fortalecendo a resiliência emocional de Amaro (efeito/indivíduo).
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra o Naturalismo quase sempre em trechos onde o ambiente determina visivelmente o comportamento ou o estado psicológico de uma personagem — O Cortiço, de Aluísio Azevedo, é o exemplo mais recorrente; Bom Crioulo exige a mesma chave de leitura.
  • Generalização: diante de qualquer trecho naturalista, pergunte: "o que, no texto, atua sobre a personagem (meio, corpo, instinto, raça, momento histórico) e que efeito produz nela?" — a alternativa correta quase sempre nomeia essa relação de causa e efeito.
  • Dica de eliminação rápida: elimine alternativas cujo tom emocional contradiz o trecho ("fragilidade" e "impossibilidade de superação" colidem com uma cena de exaltação e libertação); elimine também as que introduzem temas ausentes do recorte, como raça associada à força física ou papéis de gênero.
  • Conexões: Aluísio Azevedo (O Cortiço); Hippolyte Taine (tríade raça-meio-momento); Émile Zola (Naturalismo francês); Realismo x Naturalismo no ENEM.

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