Mapa de questões · 1º dia
Questão 51 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
Nações se comprometeram a reduzir as emissões de carbono para reduzir o aquecimento global na 3ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-3), realizada em 1997, em Kyoto, Japão. Na ocasião, foi assinado o Protocolo de Kyoto, que criou a possibilidade de um país compensar suas emissões comprando créditos de outras nações. Esses créditos são gerados por ações que reduzem a quantidade de gases causadores do efeito estufa na atmosfera, como a recuperação de áreas degradadas de floresta. Uma empresa ou uma organização não governamental que recupera determinada área pode calcular a quantidade de CO2 que ela retirou da atmosfera e vender esse crédito a empresário da pecuária que precisa compensar emissões. O mesmo vale para um país que mede o conjunto de suas emissões e as balanceia com captura de CO2 ou compra de créditos.
O que é carbono neutro e por que você deve se preocupar com isso.
Disponível em: www.cnnbrasil.com.br. Acesso em: 8 nov. 2021 (adaptado).
Para os mecanismos de uso do espaço geográfico, o sistema compensatório descrito representa um processo econômico que proporciona a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Geografia → Geografia Ambiental e Economia Verde (mercado de carbono)
- ⚡ Nível: Médio — exige articular um conceito abstrato (mercantilização da natureza) com o mecanismo econômico concreto descrito no texto motivador.
- 🎯 Tema/Habilidade: Mercado de carbono, capitalismo verde e mercantilização da natureza — relação sociedade-natureza e impactos socioambientais da organização produtiva do espaço geográfico.
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O sistema de compra e venda de créditos de carbono descrito no texto representa qual processo econômico ligado ao uso do espaço geográfico?"
- Palavras-chave decisivas: compensar suas emissões comprando créditos, calcular a quantidade de CO2... e vender esse crédito, sistema compensatório
- Armadilha típica: confundir "compensar" emissões com "eliminar" a poluição — o candidato apressado associa "créditos de carbono" a "menos poluição" e marca a alternativa C, ignorando que o texto descreve um balanceamento contábil, não uma redução física de CO2 emitido.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que o texto descreve a transformação de um serviço ecológico (captura de carbono por florestas recuperadas) em mercadoria negociável — isto é, a extensão da lógica de mercado a um elemento da natureza.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Protocolo de Kyoto (1997): tratado da COP-3 que fixou metas de redução de gases de efeito estufa para países desenvolvidos e criou mecanismos de flexibilização, entre eles o comércio de créditos de carbono.
- Crédito de carbono: unidade que representa uma tonelada de CO2 (ou equivalente) deixada de emitir ou retirada da atmosfera; gerada por ações como reflorestamento, é certificada, comprada e vendida em um mercado próprio.
- Mercantilização (ou financeirização) da natureza: processo pelo qual funções e serviços ecológicos — antes tratados como "bens comuns" fora do circuito de mercado — passam a ter preço e valor de troca, sendo comprados e vendidos como qualquer mercadoria.
- Capitalismo verde: modelo que concilia acumulação capitalista e discurso ambiental por meio de instrumentos de mercado (créditos, certificações), sem alterar a lógica estrutural de crescimento e consumo.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "criou a possibilidade de um país compensar suas emissões comprando créditos de outras nações" → mostra que a poluição pode ser "paga" via aquisição de um ativo financeiro, e não necessariamente reduzida na fonte emissora.
- Evidência 2: "pode calcular a quantidade de CO2 que ela retirou da atmosfera e vender esse crédito" → a recuperação ambiental — um processo ecológico — é medida, transformada em número e colocada à venda, exatamente como uma mercadoria comum.
- Evidência 3: "vender esse crédito a empresário da pecuária que precisa compensar emissões" → confirma a existência de vendedor, comprador e motivação econômica (necessidade de compensar), ou seja, um mercado específico em funcionamento.
- Síntese: as três evidências, juntas, descrevem um circuito completo de mercado — produção (recuperação de área degradada), mensuração (cálculo de CO2 capturado), certificação (emissão do crédito) e comercialização (compra e venda) — aplicado a um elemento da natureza. Esse circuito é a própria definição de mercantilização da natureza.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificando o mecanismo econômico central
O texto descreve o funcionamento do mercado de créditos de carbono, criado a partir do Protocolo de Kyoto (1997). Um país, uma empresa ou uma ONG que reduz emissões ou recupera áreas degradadas de floresta pode calcular quanto CO2 deixou de ser lançado — ou foi retirado — da atmosfera e transformar esse resultado em um crédito. Esse crédito é vendido a quem ultrapassa suas metas de emissão, como o "empresário da pecuária" citado no texto, permitindo que ele "compense" seu excesso de poluição sem necessariamente reduzi-lo na origem.
Subpasso 4.2 — Conectando ao conceito de "mecanismos de uso do espaço geográfico"
Em Geografia, os mecanismos de uso do espaço tratam de como a sociedade se apropria da natureza e a organiza para fins econômicos. Historicamente, essa apropriação envolvia sobretudo a extração direta de recursos — madeira, minérios, água. O mercado de carbono representa um salto nessa lógica: não é o recurso natural em si que é vendido, mas a própria função ecológica de captura e estocagem de carbono — um serviço antes considerado "bem comum", sem valor de troca definido. Ao transformar esse serviço em ativo mensurável, certificável e comercializável, o sistema descrito amplia a fronteira da mercantilização para dentro da natureza em si.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando o mecanismo identificado com a definição de mercantilização da natureza — converter processos naturais em mercadorias sujeitas à lógica de compra, venda e lucro —, a correspondência é direta: floresta recuperada → CO2 calculado → crédito certificado → venda a quem precisa compensar emissões. Não há, em nenhum trecho do texto, evidência de acordo entre concorrentes para fixar preços (cartel), concentração da oferta em um único agente (monopólio), fim efetivo da poluição (supressão) ou regularização de posse de terras (legalização de territórios). Isso confirma que apenas a alternativa E é sustentada por todas as evidências.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) formação de cartéis.
❌ Incorreta: cartel é o acordo entre empresas concorrentes do mesmo setor para fixar preços ou dividir mercado, restringindo a concorrência. O mercado de créditos de carbono é pulverizado, com múltiplos vendedores (países, empresas, ONGs) e múltiplos compradores, sem indício de conluio para controlar preços.
B) criação de monopólio.
❌ Incorreta: monopólio é a concentração da oferta nas mãos de um único agente econômico. O texto descreve o oposto — um mercado com diversos ofertantes de créditos (qualquer empresa ou ONG que recupere áreas pode gerar e vender crédito) e diversos demandantes, característica de livre concorrência.
C) supressão da poluição.
❌ Incorreta: o texto usa o termo "compensar", não "eliminar" ou "suprimir". Quem compra o crédito não deixa de emitir CO2 — apenas equilibra contabilmente sua emissão com a captura registrada em outro local, muitas vezes distante. A poluição pode continuar ocorrendo na fonte original; o que muda é o balanço formal de emissões, não a quantidade física de gases lançados.
D) legalização de territórios.
❌ Incorreta: o texto não menciona regularização fundiária, titulação de terras ou reconhecimento jurídico de posse. O foco do mecanismo é a comercialização de um serviço ambiental, independentemente da situação legal da área recuperada.
E) mercantilização da natureza.
✅ Correta: o texto detalha como a capacidade de um ecossistema de capturar e estocar carbono é medida, certificada e convertida em mercadoria — comprada e vendida entre empresas, ONGs e países. Esse processo, no qual uma função ecológica passa a ter valor de troca e circula como qualquer produto no mercado, é o que a Geografia define como mercantilização (ou financeirização) da natureza, associado ao "capitalismo verde".
🏆 Gabarito: E — o sistema de créditos de carbono transforma a captura de CO2 em mercadoria negociável, o que caracteriza, por definição, a mercantilização da natureza.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa E integra todas as evidências do texto — cálculo, certificação, compra e venda de um serviço ambiental —, sendo a única capaz de nomear corretamente esse processo econômico.
- Padrão de cobrança: o ENEM explora recorrentemente temas de economia verde, desenvolvimento sustentável e geopolítica ambiental (COPs, Protocolo de Kyoto, Acordo de Paris), frequentemente pedindo que o candidato reconheça a lógica de mercado por trás de discursos ambientais aparentemente neutros.
- Generalização: sempre que um enunciado descrever um recurso natural ou serviço ecológico sendo medido, certificado e comercializado (verbos como "comprar", "vender", "compensar", "crédito"), a resposta tende a apontar para "mercantilização da natureza" ou termos equivalentes, como "financeirização da natureza" e "capitalismo verde".
- Dica de eliminação rápida: localize os verbos de mercado no texto ("comprar", "vender", "compensar") — eles já eliminam "cartel" (exige acordo entre concorrentes) e "monopólio" (exige concentração da oferta); em seguida, diferencie "compensar" de "eliminar" para descartar a supressão da poluição.
- Conexões: Protocolo de Kyoto, Acordo de Paris, Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), geopolítica ambiental.
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