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Questão 28ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia

Cuidadora humilhada por erros de português ao enviar currículo para asilo recebe ofertas de emprego

Questão 28 - ENEM PPL 2022

Nessa conversa por aplicativo, em que se evidencia uma forma de preconceito, a atendente avaliou a candidata a uma vaga de emprego pelo(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Língua Portuguesa → Sociolinguística (variação linguística, preconceito linguístico, norma-padrão × registro informal)
  • ⚡ Nível: Fácil — a atendente praticamente enuncia o próprio critério de julgamento na conversa, bastando ao candidato identificar qual alternativa sintetiza esse critério sem se prender a detalhes pontuais (a palavra errada em si) nem a elementos que não aparecem no texto (pontuação, corretor automático).
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer manifestações de preconceito linguístico em textos multimodais do cotidiano digital, relacionando variação linguística e contexto social de uso da língua (Competência de Área 1 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias).
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Segundo a conversa, qual foi o critério que a atendente usou para julgar a candidata à vaga de emprego?"
  • Palavras-chave decisivas: avaliou, candidata a uma vaga de emprego, pelo(a)
  • Armadilha típica: confundir o erro pontual e isolado ("agente" em vez de "a gente", "Encomendar" em vez de "incomodar") com a ideia de que um corretor automático do celular teria causado o problema (alternativa E), ou tratar o bate-papo como se fosse formalmente uma "entrevista de emprego" (alternativa C) — nenhuma dessas leituras corresponde ao que está escrito no diálogo.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o julgamento da atendente recaiu sobre o domínio da norma-padrão da língua, e que esse julgamento ocorreu justamente em uma situação de candidatura a emprego — os dois elementos precisam aparecer juntos na alternativa correta.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Preconceito linguístico: conceito difundido por Marcos Bagno — julgar a inteligência, a competência ou o caráter de uma pessoa a partir de "erros" de escrita ou fala, tratando a variação linguística como deficiência moral, e não como fenômeno natural de toda língua viva.
  • Norma-padrão × variação linguística: toda língua varia de acordo com região, escolaridade, faixa etária e situação comunicativa; a norma-padrão é uma convenção socialmente prestigiada — não "mais correta" do ponto de vista linguístico, mas cobrada em contextos formais e profissionais.
  • Gênero e registro digital: a conversa por WhatsApp é, por natureza, um gênero informal (aceita "rs", abreviações, ausência de acentuação); porém, quando usada para fins profissionais — como o envio de um currículo —, o interlocutor passa a exigir um padrão mais formal, e é esse deslocamento de contexto que a atendente explora para humilhar a candidata.
  • Linguagem como capital simbólico no mercado de trabalho: no Brasil, o domínio da norma-padrão é usado (equivocadamente) como medida de competência profissional, reforçando desigualdades sociais sob o disfarce de "zelo pela língua".

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: a candidata digita "Encomendar" e, percebendo o lapso, se corrige de imediato: "É incomodar rs" → mostra que ela tem consciência linguística e se autocorrige — não há descaso nem ausência de autocorreção.
  • Evidência 2: logo depois, ela escreve "Porque agente nunca sabe dia de amanhã", grafando "agente" (substantivo, "aquele que age") em vez do pronome "a gente" (equivalente informal de "nós") → um desvio comum da fala coloquial rápida, digitada no celular, sem qualquer prejuízo de compreensão.
  • Evidência 3: a atendente responde: "E também não existe AGENTE é A GENTE" e completa com "seria bom você fazer um curso de português, pode ser que seja por isso que você não consegue uma vaga de trabalho" → aqui está o núcleo da questão: a atendente transforma um deslize ortográfico em diagnóstico sobre a empregabilidade da candidata.
  • Síntese: a humilhação não incide sobre pontuação, sobre um corretor automático ou sobre uma "entrevista" formal — incide exatamente sobre o uso da norma-padrão ("agente"/"a gente") no momento em que a candidata buscava uma vaga de trabalho, confirmando a alternativa D.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Reconstituir a situação comunicativa

O print retrata uma conversa de WhatsApp entre a atendente de um asilo (instituição que recebe idosos) e uma mulher que havia enviado seu currículo para concorrer a uma vaga — de cuidadora, conforme indica a manchete da reportagem de origem ("Cuidadora humilhada por erros de português ao enviar currículo para asilo recebe ofertas de emprego"). A atendente inicia repreendendo o envio não solicitado do documento: "Você se esqueceu de um pequeno detalhe. Da próxima vez, pergunte antes se a empresa está precisando deste tipo de serviço", "É só uma dica, antes de enviar tudo se nem pedimos", "Fica feio" e "E não estamos precisando". Até esse ponto, a crítica é sobre etiqueta profissional, não sobre a língua.

Subpasso 4.2 — Localizar o ponto de virada: do protocolo para a língua

A candidata reage se desculpando ("Desculpa", "Nossa desculpa") e, ao digitar rápido, comete os dois deslizes já citados. É nesse momento que o tom da conversa muda: a atendente deixa de falar sobre "pedir antes de enviar currículo" e passa a corrigir a escrita da candidata em letras maiúsculas — "não existe AGENTE é A GENTE" — associando diretamente esse erro à dificuldade dela em conseguir emprego.

Subpasso 4.3 — Verificação: isolando o critério avaliativo

Ao reler a fala final da atendente, dois elementos aparecem simultaneamente: (1) um julgamento sobre o uso da língua fora da norma-padrão ("não existe AGENTE é A GENTE... curso de português") e (2) a vinculação explícita desse julgamento à busca de emprego ("pode ser que seja por isso que você não consegue uma vaga de trabalho"). Comparando com as cinco alternativas, apenas a alternativa D reúne com precisão esses dois elementos — "padrões linguísticos" (o quê) + "contexto de busca por emprego" (onde/quando) —, confirmando-a como resposta.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) ausência de autocorreção durante um diálogo.

❌ Incorreta: o texto mostra exatamente o oposto — a candidata se autocorrige de forma explícita ao escrever "Encomendar" e, na sequência, "É incomodar rs". Afirmar "ausência de autocorreção" contraria o próprio diálogo transcrito.

B) desleixo com a pontuação adequada durante um bate-papo.

❌ Incorreta: em nenhum momento a atendente comenta vírgulas, pontos finais ou qualquer sinal de pontuação. A crítica recai sobre a forma da palavra ("AGENTE" vs. "A GENTE"), uma questão de norma gramatical/ortográfica — não de pontuação.

C) desprezo pela linguagem utilizada em entrevistas de emprego.

❌ Incorreta: o texto não é uma entrevista de emprego, e sim uma conversa informal por aplicativo de mensagens após o envio (não solicitado) de um currículo. Além disso, a atendente não "despreza" a norma-padrão — ao contrário, ela a exige e a valoriza, cobrando da candidata que a domine.

D) descuido com os padrões linguísticos no contexto de busca por emprego.

✅ Correta: descreve com exatidão o critério da atendente — o "descuido" refere-se ao uso de "agente" em vez de "a gente", e esse descuido é avaliado justamente "no contexto de busca por emprego", já que a atendente conclui que esse é o motivo de a candidata não conseguir uma vaga.

E) negligência com a correção automática de palavras pelo corretor de textos do celular.

❌ Incorreta: o corretor ortográfico automático do celular não é mencionado nem sugerido em nenhum trecho da conversa; o desvio é da própria digitação/fala da candidata, não de uma falha de software.

🏆 Gabarito: D — a atendente avaliou a candidata pelo descuido com os padrões linguísticos (a grafia de "agente" em vez de "a gente") manifestado justamente no momento em que ela buscava uma vaga de emprego, o que caracteriza um episódio típico de preconceito linguístico.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa que une, ao mesmo tempo, o objeto do julgamento (padrões linguísticos — não pontuação, não corretor automático) e o contexto em que ele ocorre (busca por emprego — não uma entrevista formal).
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz prints de conversas reais (WhatsApp, redes sociais, comentários) em que alguém é humilhado por desvios da norma-padrão, pedindo ao candidato que reconheça esse episódio como preconceito linguístico, e não como "correção pedagógica legítima".
  • Generalização: sempre que a questão apresentar um diálogo em que uma pessoa é ridicularizada por "erros" de escrita, procure a alternativa que relacione a variação linguística ao contexto social específico do texto (emprego, escolaridade, classe) — e descarte alternativas que reduzam o fenômeno a aspectos técnicos isolados (pontuação, acentuação, ferramentas automáticas).
  • Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas que citam elementos ausentes do texto (corretor automático nunca aparece → fora E; o gênero não é entrevista → fora C); em seguida, decida entre as restantes verificando se descrevem exatamente o par "o quê + onde" que a fala da atendente expõe.
  • Conexões: Marcos Bagno (Preconceito Linguístico: o que é, como se faz); variação linguística; letramento digital; sociolinguística; relação entre linguagem e mercado de trabalho.

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