Mapa de questões · 1º dia
Questão 48 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
O mundo da produção material e do trabalho na contemporaneidade é cada vez mais marcado pela especialização flexível, isto é, pela assimilação da tecnologia da informação à atividade produtiva e pela adaptação da força de trabalho a essas novas circunstâncias. A flexibilidade possibilita a satisfação das demandas de grupos de consumidores cada vez mais diferenciados no mercado de massa. A reorganização produtiva do capitalismo permite diversificar produtos para nichos de mercado cada vez mais específicos.
FRIDMAN, L. C. Vertigens pós-modernas: configurações institucionais contemporâneas.
Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000 (adaptado).
Sobre a flexibilidade, o ponto de vista apresentado no texto tem como fundamento uma
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → correntes teóricas clássicas (funcionalismo, positivismo, marxismo) aplicadas à análise do mundo do trabalho e da especialização flexível
- ⚡ Nível: Difícil — a questão não cita nenhuma escola sociológica pelo nome; exige reconhecer, só pelo vocabulário e pelo tom do texto, qual corrente teórica está implícita
- 🎯 Tema/Habilidade: Especialização flexível e pós-fordismo lidos à luz do paradigma funcionalista; habilidade de identificar pressupostos teóricos implícitos em um texto argumentativo de Ciências Humanas
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual corrente teórica das Ciências Sociais fundamenta o modo como o texto interpreta a flexibilidade produtiva?"
- Palavras-chave decisivas: especialização flexível, adaptação da força de trabalho, satisfação das demandas
- Armadilha típica: ver a palavra "capitalismo" no texto e marcar automaticamente a alternativa marxista, ou ver "consumo" e "nichos" e associar precipitadamente a "positivismo" só por soarem termos técnicos e quantitativos
- O que a resposta precisa demonstrar: que tecnologia e força de trabalho são descritas se ajustando uma à outra para que o sistema produtivo cumpra sua função — atender à demanda diversificada — o que é lógica funcionalista, e não crítica, determinista, culturalista ou estritamente positivista
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Funcionalismo (Durkheim, Parsons, Merton): entende a sociedade como um sistema de partes interdependentes que se ajustam entre si para manter o equilíbrio do todo e cumprir funções necessárias à sua reprodução. Palavras-chave do funcionalismo: adaptação, integração, ajuste, função, equilíbrio.
- Positivismo (Comte): busca leis objetivas e universais que regem os fatos sociais, tratando-os como "coisas" observáveis por método científico rigoroso, sob o lema "ordem e progresso". Foco em previsibilidade e generalização, não em ajuste funcional pontual.
- Marxismo: interpreta o capitalismo pelas categorias de exploração, luta de classes, mais-valia e alienação do trabalhador; é, por definição, uma teoria crítica das relações de produção, nunca neutra ou descritiva.
- Determinismo (tecnológico/organizacional): afirma que a tecnologia ou a estrutura organizacional dita, de forma unilateral e inevitável, um único rumo possível para a sociedade, sem espaço real de adaptação ou escolha.
- Culturalismo: explica mudanças sociais a partir de valores, símbolos, identidades e sentidos compartilhados por grupos culturais — não a partir da organização técnica da produção ou do mercado.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "assimilação da tecnologia da informação à atividade produtiva e [...] adaptação da força de trabalho a essas novas circunstâncias" → descreve um ajuste funcional recíproco: tecnologia e trabalhadores se adaptam ao sistema, sem contestá-lo ou serem por ele determinados de forma rígida
- Evidência 2: "A flexibilidade possibilita a satisfação das demandas de grupos de consumidores cada vez mais diferenciados" → a flexibilidade é apresentada como solução eficaz que cumpre uma função — atender à demanda —, em tom descritivo e não crítico
- Evidência 3: "A reorganização produtiva do capitalismo permite diversificar produtos para nichos de mercado cada vez mais específicos" → o capitalismo aparece como sistema capaz de se reorganizar e se adaptar, reforçando a ideia de equilíbrio dinâmico entre estrutura produtiva e demanda social — e não de exploração, determinação inevitável ou identidade cultural
- Síntese: as três evidências convergem para a mesma leitura — tecnologia, trabalho e mercado se ajustam mutuamente para que o sistema capitalista cumpra sua função de atender a demandas cada vez mais segmentadas. Esse é exatamente o núcleo da compreensão funcionalista.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo do argumento do texto
O texto de Fridman descreve a "especialização flexível" combinando três elementos: tecnologia da informação, adaptação da força de trabalho e reorganização produtiva do capitalismo. O verbo-chave é "adaptar". Na teoria sociológica, adaptação é um dos imperativos funcionais clássicos de um sistema social — está no cerne do esquema AGIL de Talcott Parsons (Adaptation, Goal attainment, Integration, Latency), segundo o qual todo sistema social precisa se adaptar ao ambiente para sobreviver e cumprir suas funções. Quando um texto mostra tecnologia, trabalhadores e empresas se ajustando entre si para que o sistema continue funcionando e atendendo às suas finalidades — aqui, o consumo diversificado —, a lógica subjacente é estrutural-funcionalista.
Subpasso 4.2 — Eliminar por contraste com as demais correntes
O texto NÃO realiza nenhuma das operações teóricas típicas das outras correntes: não denuncia exploração do trabalhador nem menciona mais-valia ou luta de classes (o que afastaria a leitura marxista); não trata a tecnologia como força autônoma que determina de modo inevitável e único o destino da sociedade — pelo contrário, fala em "flexibilidade" e "adaptação", conceitos incompatíveis com determinismo rígido; não analisa símbolos, identidades ou valores culturais dos consumidores, apenas seu comportamento de consumo segmentado (o que afastaria a leitura culturalista); e não formula uma lei universal e objetiva do tipo "toda sociedade evolui rumo à ordem e ao progresso" — apenas descreve, de forma neutra, um processo específico de ajuste. Resta, portanto, a leitura funcionalista, única compatível com a lógica de "as partes se adaptam para que o todo funcione bem".
Subpasso 4.3 — Verificação
Cruzando o argumento do texto com a alternativa B — "compreensão funcionalista do desenvolvimento tecnológico no trabalho" — a coerência é total: a tecnologia da informação é assimilada (função) pela produção, e a força de trabalho se adapta (função) a essa tecnologia, tudo a serviço da manutenção do sistema capitalista, que se reequilibra ao responder a novos padrões de consumo. Essa é a definição operacional de funcionalismo aplicada ao mundo do trabalho — e nenhuma outra alternativa resiste ao mesmo teste de coerência com o vocabulário do texto.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) concepção culturalista das adaptações promovidas na contemporaneidade.
❌ Incorreta: o culturalismo explicaria a flexibilidade a partir de valores, identidades e práticas simbólicas de grupos sociais. O texto não discute cultura, sentido ou identidade — discute organização técnica da produção, tecnologia e mercado. Falta todo o vocabulário culturalista.
B) compreensão funcionalista do desenvolvimento tecnológico no trabalho.
✅ Correta: o texto descreve tecnologia e força de trabalho se adaptando reciprocamente para que o sistema produtivo cumpra a função de atender à demanda diversificada — exatamente a lógica de ajuste funcional (partes se adaptando para manter o equilíbrio do todo) que define o funcionalismo sociológico.
C) interpretação determinista dos modelos organizacionais capitalistas.
❌ Incorreta: determinismo pressupõe uma trajetória única e inevitável, sem margem de ajuste — a tecnologia "obrigaria" um só caminho possível para as organizações. O texto afirma o contrário: usa os termos "flexibilidade" e "adaptação", que indicam maleabilidade e resposta a múltiplos contextos, não uma lei fixa e inescapável.
D) reflexão marxista da transformação do trabalhador em especialista.
❌ Incorreta: a leitura marxista exigiria categorias como exploração, alienação, mais-valia ou luta de classes para explicar a reorganização do capitalismo. O texto trata essa reorganização de forma descritiva e funcional, sem qualquer crítica às relações de exploração entre capital e trabalho.
E) percepção positivista da dinâmica do consumo segmentado em nichos.
❌ Incorreta: o positivismo busca leis universais e objetivas, nos moldes das ciências naturais, para prever fenômenos sociais com exatidão, sob o lema "ordem e progresso". O texto não formula uma lei geral do consumo; ele descreve um processo específico de ajuste do capitalismo contemporâneo — isso é função, não lei positiva.
🏆 Gabarito: B — o texto emprega o vocabulário e a lógica típicos do funcionalismo (adaptação, ajuste, função, equilíbrio do sistema) para explicar como tecnologia e trabalho se reorganizam a fim de atender à demanda de consumo diversificada, sem recorrer a crítica marxista, determinismo tecnológico, culturalismo ou leis positivistas.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa B nomeia corretamente a lógica de adaptação funcional presente no texto; as demais descrevem correntes teóricas cujo vocabulário próprio — exploração, lei universal, símbolo cultural, determinação inevitável — está ausente do trecho.
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente pede que o estudante reconheça uma corrente sociológica (funcionalismo, marxismo, weberianismo, positivismo) a partir de pistas textuais, sem citar o nome do autor ou da escola — a resposta está no vocabulário e no tom argumentativo do texto, não em memorização de nomes.
- Generalização: sempre que um texto de Sociologia descrever partes de um sistema (tecnologia, indivíduos, instituições) se ADAPTANDO ou se AJUSTANDO para que o sistema continue funcionando e cumprindo necessidades, pense em FUNCIONALISMO; se houver crítica à exploração e às desigualdades de classe, pense em MARXISMO; se houver busca por leis universais objetivas, pense em POSITIVISMO.
- Dica de eliminação rápida: procure termos-sintoma no enunciado — "exploração/alienação/classe" indica marxismo; "leis universais/ordem e progresso" indica positivismo; "identidade/símbolo/valor cultural" indica culturalismo; "inevitável/único caminho" indica determinismo; se nada disso aparece e o texto fala em "adaptação/ajuste/função/equilíbrio", é funcionalismo.
- Conexões: Durkheim (fato social e solidariedade orgânica), Talcott Parsons (esquema AGIL), pós-fordismo e acumulação flexível (David Harvey), toyotismo e especialização flexível (Piore e Sabel).
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