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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 59ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia

Pensar o corpo como algo produzido pela cultura é, simultaneamente, um desafio e uma necessidade. Um desafio porque rompe, de certa forma, com o olhar naturalista sobre o qual muitas vezes o corpo é observado, explicado, classificado e tratado. Uma necessidade porque, ao desnaturalizá-lo, revela, sobretudo, que o corpo é histórico. Isto é, mais do que um dado natural cuja materialidade nos presentifica no mundo, o corpo é uma construção sobre a qual são conferidas diferentes marcas em diferentes tempos, espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais e étnicos.

LOURO, G. L.; FELIPE, J.; GOELLNER, S. V. (Org.). Corpo, gênero e sexualidade:
um debate contemporâneo na educação. Petrópolis: Vozes, 2013 (adaptado).

A que valor da contemporaneidade o entendimento sobre o corpo expresso no texto é correlato?

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Corpo, cultura e estudos de gênero
  • ⚡ Nível: Médio — exige diferenciar valores contemporâneos próximos entre si (diversidade, igualdade, liberdade, individualidade, fraternidade) a partir de um texto teórico denso, sem que a palavra-resposta apareça literalmente no enunciado
  • 🎯 Tema/Habilidade: O corpo como construção histórico-cultural; leitura crítica de texto sociológico e associação a valores da cidadania contemporânea
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que valor da sociedade atual corresponde à ideia de que o corpo não é um dado natural fixo, mas uma construção que muda conforme tempo, espaço, economia, grupo social e etnia?"
  • Palavras-chave decisivas: desnaturaliza, diferentes marcas, diferentes tempos, espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais e étnicos
  • Armadilha típica: confundir diversidade com igualdade. As duas soam como "valores sociais positivos", mas têm lógicas opostas: igualdade busca equivalência de tratamento; o texto insiste justamente na diferença entre as marcas conferidas ao corpo.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que a pluralidade de formas de significar o corpo, a depender do contexto histórico e social, corresponde ao reconhecimento contemporâneo da diversidade.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Olhar naturalista sobre o corpo: tradição que trata o corpo como fato biológico universal e a-histórico — o mesmo sentido, válido para qualquer época, cultura ou grupo.
  • Desnaturalização/construção cultural do corpo: perspectiva central nos estudos de gênero — campo em que atua Guacira Lopes Louro, organizadora do texto-base, ao lado de referências como Judith Butler — segundo a qual o corpo é produzido por discursos, práticas e relações de poder que variam entre grupos e épocas.
  • Historicidade do corpo: o corpo não é ponto de partida "puro" da experiência humana, mas resultado de processos históricos; por isso varia no tempo e no espaço, sem uma única lógica biológica fixa que o explique.
  • Diversidade como valor contemporâneo: reconhecimento e valorização político-social da pluralidade de identidades, corpos e formas de vida, em oposição a um único padrão "normal" ao qual todos deveriam se ajustar.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "rompe [...] com o olhar naturalista sobre o qual muitas vezes o corpo é observado, explicado, classificado e tratado" → a visão naturalista reduz o corpo a um padrão único e fechado, sem espaço para diferença entre sujeitos e grupos.
  • Evidência 2: "o corpo é uma construção sobre a qual são conferidas diferentes marcas em diferentes tempos, espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais e étnicos" → uma vez desnaturalizado, o corpo se revela plural: múltiplas marcas, múltiplos sentidos, todos legítimos em seus contextos.
  • Síntese: o texto realiza um movimento argumentativo do UM (corpo natural, universal, fixo) para o MÚLTIPLO (corpos histórica e socialmente diversos). Esse deslocamento é o raciocínio que sustenta, na contemporaneidade, o valor da diversidade.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Localizar o núcleo argumentativo

O trecho de Louro, Felipe e Goellner — referências centrais nos estudos brasileiros sobre corpo, gênero e sexualidade na educação — defende que pensar o corpo "pela cultura" é, ao mesmo tempo, desafio e necessidade. Desafio porque rompe com o senso comum naturalista, que trata o corpo como dado biológico puro e universal. Necessidade porque essa ruptura revela que o corpo é histórico: mais do que matéria que simplesmente "nos coloca no mundo", carrega sentidos que a sociedade lhe atribui — e esses sentidos mudam.

Subpasso 4.2 — Conectar "múltiplas marcas" a um valor da contemporaneidade

Se o corpo recebe "diferentes marcas em diferentes tempos, espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais e étnicos", não existe um corpo-modelo válido para todos os contextos, mas uma pluralidade de corpos igualmente legítimos, moldados por fatores históricos, econômicos, sociais e étnicos distintos. Valorizar essa pluralidade — em vez de hierarquizá-la a partir de um padrão único considerado "natural" — é exatamente o que a contemporaneidade nomeia diversidade: o direito de existir com diferença, seja de gênero, etnia, sexualidade ou classe, sem que isso represente desvio.

Subpasso 4.3 — Verificação por eliminação lógica

Se o valor fosse igualdade, o argumento insistiria em tratamento equivalente entre os corpos — mas o texto sublinha diferenças. Se fosse liberdade, o eixo seria a autonomia individual de escolha sobre o próprio corpo — mas o texto fala de determinações histórico-sociais sobre grupos inteiros. Se fosse individualidade, o foco recairia sobre a singularidade de um sujeito — mas o texto opera com categorias coletivas ("grupos sociais e étnicos"). Se fosse fraternidade, esperaríamos vocabulário de solidariedade e união — ausente do trecho. Resta diversidade como única alternativa coerente com a ênfase na pluralidade de marcas corporais.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) Individualidade.

❌ Incorreta: remete à singularidade e à autonomia de um sujeito isolado, tomado em sua particularidade pessoal. O texto fala em marcas conferidas a "grupos sociais e étnicos" — lógica coletiva, não a afirmação da individualidade de uma pessoa específica.

B) Fraternidade.

❌ Incorreta: associa-se a laços de solidariedade e ajuda mútua entre pessoas ou povos. Não há no texto referência a união ou vínculo afetivo; o argumento trata de como o corpo é significado de formas plurais conforme o contexto, não de solidariedade entre grupos.

C) Diversidade.

✅ Correta: o texto descreve o corpo recebendo "diferentes marcas em diferentes tempos, espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais e étnicos" — a própria definição sociológica de pluralidade de formas de existência corporal. Reconhecer que não há um único corpo "natural" válido, mas múltiplos corpos construídos por diferentes contextos, é o núcleo do valor da diversidade.

D) Igualdade.

❌ Incorreta: pressupõe equivalência ou tratamento idêntico entre sujeitos e grupos. O texto enfatiza o oposto — a diferenciação de marcas conforme tempo, espaço, economia, grupo social e etnia. Diversidade e igualdade são valores distintos: uma celebra a diferença entre os corpos, a outra buscaria equipará-los sob um mesmo critério.

E) Liberdade.

❌ Incorreta: relaciona-se à autonomia do sujeito e à ausência de coação sobre suas escolhas individuais. O texto discute como fatores históricos, econômicos e sociais moldam coletivamente o corpo — o eixo é a pluralidade de determinações culturais sobre grupos, não a capacidade de escolha livre de um indivíduo.

🏆 Gabarito: C — A descrição de um corpo marcado de formas diferentes conforme tempo, espaço, economia, grupo social e etnia expressa diretamente o valor contemporâneo da diversidade: o reconhecimento de que múltiplas formas de existência corporal são histórica e culturalmente construídas, e por isso igualmente legítimas.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a pluralidade de "marcas" corporais descrita no texto só encontra correspondência coerente no valor da diversidade — as demais alternativas remetem a eixos conceituais (unicidade do sujeito, solidariedade, equivalência, autonomia individual) ausentes ou secundários no trecho.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos de sociologia e estudos culturais sobre corpo, gênero, sexualidade e etnia para testar se o candidato associa a desnaturalização de categorias sociais ao valor da diversidade — eixo estruturante da matriz de Ciências Humanas em questões de identidade e cidadania.
  • Generalização: quando um texto sociológico enfatizar "multiplicidade", "pluralidade" ou "diferentes marcas/identidades" atravessando grupos sociais, a resposta correlata tende a ser diversidade; se enfatizar tratamento equivalente perante direitos, é igualdade; se enfatizar autonomia de escolha do sujeito, é liberdade.
  • Dica de eliminação rápida: grife no enunciado a palavra que sinaliza multiplicidade (aqui, "diferentes"); ela aponta para diversidade, eliminando de imediato igualdade (sinaliza uniformidade) e liberdade/individualidade (sinalizam o indivíduo isolado, não o grupo).
  • Conexões: performatividade de gênero (Judith Butler); racismo estrutural e representações do corpo negro; padrões de beleza hegemônicos versus movimentos de corpo positivo.

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