Mapa de questões · 1º dia
Questão 21 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
Domésticas, de Fernando Meirelles e Nando Olival (2001)
Drama de trabalhadoras domésticas na cidade de São Paulo, mostradas a partir do cotidiano de Cida, Roxane, Quitéria, Raimunda e Créo. Uma quer se casar; a outra é casada, mas sonha com um marido melhor; uma sonha em ser artista de novela e a outra acredita que tem por missão na Terra servir a Deus e à sua patroa. Todas têm sonhos distintos, mas vivem a mesma realidade: trabalhar como empregada doméstica. Conduzido com humor (e uma trilha musical dos hits populares do Brasil brega dos anos 1970), o filme de Meirelles e Olival retrata o universo particular dessa categoria de trabalhadoras domésticas. É curioso que, em nenhum momento, aparecem patrões ou patroas. A narrativa de Domésticas se desenvolve segundo a ótica contingente das classes subalternas, dos de baixo, com seus anseios e sonhos, expectativas e frustrações. Não aparecem situações de luta social por direitos, o que sugere que o filme se detém na epiderme da consciência de classe contingente, expressando, desse modo, a fragmentação das perspectivas de vida e trajetórias das domésticas (quase como um destino, como observa na palavra final a doméstica Roxane). Do mesmo modo, ao retratar Zé Pequeno (em Cidade de Deus), Meirelles tratou sua sina de bandido quase como destino. É baseado na peça de teatro de Renata Melo (2005).
Disponível em: www.telacritica.org. Acesso em: 25 ago. 2017 (adaptado)
A sinopse, para convencer o leitor a assistir ao filme Domésticas, lança mão da seguinte estratégia de linguagem:
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de texto; estratégias de persuasão no gênero sinopse crítica
- ⚡ Nível: Médio — a alternativa C funciona como armadilha sofisticada, exigindo que o candidato distinga o recurso de linguagem (citar outro filme) da sua função retórica (elogiar por associação)
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de estratégias argumentativas veladas em textos de divulgação cultural — leitura crítica de gêneros híbridos e função conativa da linguagem
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que recurso a sinopse usa, de forma indireta, para convencer o leitor a assistir ao filme?"
- Palavras-chave decisivas: "convencer o leitor", "lança mão", "estratégia de linguagem"
- Armadilha típica: marcar "referência à mídia cinematográfica" (C) só porque o texto cita Cidade de Deus, sem perceber que essa citação tem função avaliativa — elogiar por comparação, não apenas informar.
- O que a resposta precisa demonstrar: a distinção entre o recurso em si (comparação com outro filme) e sua função persuasiva (avaliação positiva disfarçada).
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Sinopse crítica: gênero híbrido, publicado em portais especializados (como o citado "telacritica.org"), que concilia o resumo do enredo (função referencial) com a avaliação da obra (função apelativa disfarçada de informativa).
- Avaliação disfarçada: técnica argumentativa em que o autor evita afirmar diretamente "o filme é bom" — o que soaria como propaganda — e sugere esse juízo por meios indiretos, como comparações e alusões.
- Prestígio por associação: aproximar a obra analisada de outra já consagrada faz o leitor transferir, por associação, o valor da segunda para a primeira — recurso clássico de crítica e marketing cultural.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Do mesmo modo, ao retratar Zé Pequeno (em Cidade de Deus), Meirelles tratou sua sina de bandido quase como destino." → o conectivo "do mesmo modo" cria uma equivalência direta entre o tratamento autoral de Domésticas e o de Cidade de Deus, filme de Meirelles aclamado internacionalmente.
- Evidência 2: "a narrativa de Domésticas se desenvolve segundo a ótica contingente das classes subalternas (...) quase como um destino" → o vocabulário analítico aproxima a sinopse de uma crítica especializada, preparando o terreno para a comparação valorizadora que vem a seguir.
- Síntese: o texto nunca afirma "Domésticas é um bom filme" — mas, ao equipará-lo esteticamente a Cidade de Deus, sugere que carrega a mesma qualidade autoral de uma obra já consagrada pela crítica e pelo público. É a avaliação positiva "disfarçada" de simples comparação.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — A dupla função do gênero sinopse crítica
O texto começa como uma sinopse "neutra": apresenta diretor, ano, personagens (Cida, Roxane, Quitéria, Raimunda e Créo) e o conflito central — sonhos distintos, mesma realidade de trabalho doméstico. Até aí, predomina a função referencial. A partir de "É curioso que, em nenhum momento, aparecem patrões ou patroas", porém, o texto muda de registro e passa a interpretar escolhas narrativas do diretor — comportamento típico de crítica cinematográfica, não de sinopse comercial comum.
Subpasso 4.2 — O mecanismo argumentativo central: a comparação com Cidade de Deus
A frase decisiva do texto é: "Do mesmo modo, ao retratar Zé Pequeno (em Cidade de Deus), Meirelles tratou sua sina de bandido quase como destino." Cidade de Deus é um dos filmes brasileiros mais premiados e reconhecidos internacionalmente, indicado a quatro prêmios Oscar. Ao afirmar que o mesmo recurso narrativo — tratar a trajetória de um personagem "quase como destino" — aparece nos dois filmes, a sinopse não está apenas informando sobre outra obra: está sugerindo que Domésticas tem a mesma assinatura autoral e o mesmo valor estético de um filme já consagrado. Comparar, aqui, é uma forma de elogiar sem parecer que está elogiando.
Subpasso 4.3 — Verificação
Se o objetivo declarado é convencer o leitor a assistir ao filme, uma comparação que aproxima Domésticas de uma obra-prima do mesmo diretor cumpre exatamente essa função persuasiva — sem parecer propaganda explícita, pois vem embrulhada em linguagem analítica ("ótica contingente das classes subalternas", "fragmentação das perspectivas"). Confrontando esse raciocínio com as cinco alternativas, apenas uma nomeia com precisão esse duplo movimento (comparar para elogiar): a alternativa B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Reflexão sobre a língua utilizada pelas personagens do filme.
❌ Incorreta: não há, em nenhum trecho, comentário sobre sotaque, dialeto, gírias ou registro de fala das personagens. A alternativa confunde "língua" (variação linguística) com "linguagem" (estratégia comunicativa do texto) — a sinopse não trata do primeiro conceito em nenhum momento.
B) Avaliação positiva do filme disfarçada de comparação.
✅ Correta: a comparação com Cidade de Deus não é gratuita — funciona como elogio indireto, sugerindo que Domésticas compartilha da qualidade autoral de um filme já consagrado pela crítica e pelo público. Esse duplo movimento (comparar para elogiar sem parecer propaganda) é exatamente o que convence o leitor a assistir.
C) Referência à mídia cinematográfica.
❌ Incorreta: é a alternativa mais tentadora, porque é parcialmente verdadeira — há, de fato, uma referência a outro filme. Mas ela descreve apenas a forma do recurso (citar um filme), ignorando sua função persuasiva. A comparação com Cidade de Deus poderia ser neutra, meramente informativa — mas não é: ela avalia positivamente Domésticas por associação de prestígio. Ficar só na "referência" é não responder ao comando, que pergunta pela estratégia de convencimento.
D) Descrição de cenas do filme.
❌ Incorreta: o texto sintetiza temas e personagens (sonhos, conflitos, ausência de patrões em cena) de forma genérica e conceitual, sem descrever nenhuma cena concreta — não há indicação de diálogos, enquadramentos ou sequências específicas do filme.
E) Apelação ao leitor.
❌ Incorreta: apelação exigiria interpelação direta ao leitor — vocativo, segunda pessoa, imperativo ("não perca", "venha conferir", "você vai se emocionar"). Nada disso ocorre; a persuasão aqui é inteiramente indireta, construída pela comparação analítica, não por apelo direto.
🏆 Gabarito: B — a sinopse convence o leitor ao equiparar Domésticas a Cidade de Deus, elogiando indiretamente a obra por meio de uma comparação que sugere a mesma qualidade autoral, sem recorrer a propaganda explícita.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa que capta tanto o recurso textual (comparação com outro filme) quanto sua função retórica real (avaliação positiva velada) — as demais descrevem recursos ausentes no texto (A, D, E) ou ficam na superfície do recurso sem captar seu efeito de sentido (C).
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente testa a leitura de gêneros híbridos — resenhas, sinopses, editoriais, textos publicitários — pedindo o reconhecimento de estratégias de persuasão construídas por recursos indiretos, como comparação, ironia e seleção lexical.
- Generalização: sempre que um texto crítico ou de divulgação cultural comparar a obra analisada a outra já consagrada (do mesmo autor, gênero ou tema), desconfie: quase sempre a função é elogiar por associação de prestígio, não apenas informar.
- Dica de eliminação rápida: descarte primeiro as alternativas que descrevem recursos ausentes no texto (aqui, A e E — não há reflexão sobre a fala das personagens nem vocativo/apelo direto); depois, entre as alternativas "quase certas" (B e C), pergunte se o recurso citado tem função avaliativa ou é puramente informativo — se avalia, a resposta captura o efeito de sentido, não só a forma superficial.
- Conexões: funções da linguagem (conativa/apelativa vs. referencial); gênero resenha crítica; intertextualidade como estratégia argumentativa; discurso publicitário disfarçado de análise.
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