Mapa de questões · 1º dia
Questão 40 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
Uma polêmica relacionada à covid-19 com clara relação com a Educação Física foi a discussão sobre a reabertura ou não das academias de ginástica em plena pandemia. Entre os argumentos apresentados pelos que defendiam a abertura estava o de que o exercício teria um efeito protetor contra a covid-19, pelo fortalecimento do sistema imunológico. A realização dessas práticas pode ser importante para a saúde, inclusive com foco na melhoria/manutenção da saúde mental, mas em muitas recomendações há mais um sentido de “ter que fazer”, com caráter “obrigatório”. Outro ponto ignorado diz respeito ao aconselhamento para a realização de exercícios físicos em casa durante a pandemia, considerando aspectos como a habilidade das pessoas para realizarem essas atividades, suas preferências, as condições das residências etc. Entendemos que essas recomendações, algumas vezes de caráter persecutório e descontextualizadas da realidade de muitas pessoas, não favorecem um olhar mais ampliado sobre a saúde.
LOCH, M. R. et al. A urgência da saúde coletiva na formação em Educação Física: lições com a covid-19. Ciência & Saúde Coletiva, n. 25, 2020 (adaptado).
Segundo o texto, no contexto da pandemia, a relação entre exercício físico e saúde deveria considerar a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Educação Física → saúde coletiva e determinantes sociais da saúde; Língua Portuguesa → leitura crítica de texto argumentativo
- ⚡ Nível: Médio — o texto é claro, mas a alternativa B cria uma armadilha sofisticada ao repetir uma palavra literal do texto ("preferências") de forma incompleta
- 🎯 Tema/Habilidade: Compreensão de texto argumentativo sobre saúde coletiva na pandemia; competência de reconhecer o posicionamento crítico do autor e diferenciar argumentos citados de argumentos defendidos
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo o autor do texto, o que deveria orientar a relação entre exercício físico e saúde durante a pandemia?"
- Palavras-chave decisivas: habilidade das pessoas, condições das residências, descontextualizadas da realidade, olhar mais ampliado
- Armadilha típica: confundir "preferências individuais" (um único elemento, citado de passagem no texto) com o conceito mais amplo de "realidade social", que reúne habilidade, preferência e condições de moradia em um só argumento
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de sintetizar vários elementos espalhados no texto em um conceito-síntese coerente, sem se prender a um fragmento isolado nem reproduzir um argumento que o próprio autor está criticando
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Saúde coletiva: campo que entende saúde como resultado de condições sociais, econômicas e culturais de vida, e não apenas como ausência de doença — por isso rejeita receitas padronizadas e "universais" de comportamento saudável.
- Determinantes sociais da saúde: fatores como moradia, habilidade física, rotina e acesso a espaços que influenciam diretamente a capacidade real das pessoas de seguir uma recomendação; ignorá-los produz orientações que funcionam só no papel.
- Discurso normativo/persecutório de saúde: quando uma orientação assume tom de obrigação moral ("ter que fazer"), cobrando o indivíduo sem considerar suas condições concretas — é exatamente o que o texto de Loch et al. denuncia ao falar em recomendações de "caráter persecutório".
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "aconselhamento para a realização de exercícios físicos em casa durante a pandemia, considerando aspectos como a habilidade das pessoas para realizarem essas atividades, suas preferências, as condições das residências etc." → o texto enumera três fatores concretos — habilidade, preferência e moradia — que juntos formam a "realidade social" de cada pessoa. Nenhum deles isolado resume o argumento; é a soma dos três que importa.
- Evidência 2: "recomendações, algumas vezes de caráter persecutório e descontextualizadas da realidade de muitas pessoas, não favorecem um olhar mais ampliado sobre a saúde" → a crítica final do autor não mira um único item (nem a obrigatoriedade, nem a preferência isolada), mas a falta geral de contextualização social. "Olhar mais ampliado" é, na prática, sinônimo de considerar a realidade social do sujeito.
- Síntese: o texto constrói um argumento cumulativo: saúde ligada ao exercício físico não deve ser pensada como imposição genérica (crítica à obrigatoriedade) nem como resposta puramente biológica (crítica ao "efeito protetor" imunológico), mas como algo que só faz sentido quando adaptado às condições reais de vida de cada grupo social — exatamente o que a alternativa C descreve.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear os dois argumentos que o texto desmonta
O texto apresenta e desconstrói duas posições que circularam durante a pandemia. A primeira é a defesa da reabertura das academias com base no "efeito protetor" do exercício contra a covid-19: o autor relativiza esse argumento ao lembrar que ele carrega um sentido de "ter que fazer", de caráter "obrigatório". A segunda é o aconselhamento genérico para exercícios em casa, feito sem considerar quem de fato deveria segui-lo. Repare que, nos dois casos, o texto não está afirmando essas posições como corretas — está expondo o que elas ignoram.
Subpasso 4.2 — Localizar a proposta positiva do autor
Depois de desmontar os dois argumentos, o texto chega a uma conclusão explícita: essas recomendações "não favorecem um olhar mais ampliado sobre a saúde". Esse é o ponto de virada da questão. O "olhar ampliado" que falta nas recomendações citadas é justamente levar em conta a realidade social e as condições concretas de vida — moradia, habilidade, contexto —, e não apenas o desejo individual de cada pessoa ou uma regra fixa aplicada a todos igualmente.
Subpasso 4.3 — Verificação por eliminação lógica
Testando a alternativa C contra o texto: "adaptar as atividades físicas à realidade social dos sujeitos" cobre, ao mesmo tempo, os três fatores citados (habilidade, preferência e condições da residência) e ainda acomoda a crítica ao caráter obrigatório e à defesa isolada das academias — porque todas essas posturas pecam justamente por ignorar o contexto social. É a única alternativa que sintetiza o argumento completo do texto, em vez de reproduzir apenas um fragmento dele ou um argumento que o autor está criticando.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) necessidade de que as academias se mantivessem abertas para orientação das práticas corporais.
❌ Incorreta: o texto cita esse argumento apenas para expor sua fragilidade — "entre os argumentos apresentados pelos que defendiam a abertura estava..." é a tese de um grupo específico, problematizada pelo autor logo em seguida, e não a conclusão do texto.
B) recomendação de que as atividades físicas atendessem às preferências individuais.
❌ Incorreta: é a armadilha mais sofisticada da questão. "Preferências" realmente aparece no texto, mas como apenas um entre três fatores citados (junto de habilidade e condições da residência). Isolar a "preferência individual" como resposta reduz um argumento sociológico e coletivo a uma escolha pessoal, o que empobrece e distorce a crítica do autor.
C) relevância de adaptar as atividades físicas à realidade social dos sujeitos.
✅ Correta: sintetiza com precisão os três elementos citados pelo texto (habilidade, preferência, condições de moradia) sob o conceito de "realidade social", dialogando diretamente com a crítica final do autor a recomendações "descontextualizadas da realidade" que impedem um "olhar mais ampliado sobre a saúde".
D) obrigatoriedade de adotar o hábito de praticar atividades físicas em casa.
❌ Incorreta: contraria diretamente o texto, que critica de forma explícita o caráter "obrigatório" ("ter que fazer") presente em muitas recomendações de exercício físico durante a pandemia.
E) importância de melhorar as defesas orgânicas contra a doença.
❌ Incorreta: retoma o argumento imunológico usado pelos defensores da reabertura das academias — argumento que o texto relativiza logo no início ("a realização dessas práticas pode ser importante... mas") e não adota como sua conclusão central.
🏆 Gabarito: C — o texto critica visões reducionistas (imunológica, individualista ou impositiva) da relação entre exercício e saúde, defendendo que essa relação só é coerente quando considera a realidade social concreta dos sujeitos.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que engloba a totalidade dos fatores citados pelo texto (habilidade, preferência, moradia) sob o conceito unificador de "realidade social", em vez de isolar um único aspecto ou repetir um argumento que o texto está rejeitando.
- Padrão de cobrança: questões de Educação Física no ENEM raramente cobram regras técnicas de treino ou fisiologia — em geral, exploram textos de saúde coletiva que criticam visões biologicistas, individualistas ou impositivas de saúde, pedindo que o estudante identifique o posicionamento crítico do autor.
- Generalização: em textos argumentativos que "desmontam" um senso comum (aqui, "exercício = proteção automática" e "exercício = obrigação"), a resposta correta quase sempre está na síntese final do autor, e não nos argumentos que ele cita apenas para refutar.
- Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas que repetem literalmente argumentos criticados no texto (A = defesa das academias; D = obrigatoriedade; E = efeito imunológico) — sobram B e C, e a diferença entre elas está em perceber se o texto fala de um fator isolado (preferência) ou de um conceito mais amplo que os engloba (realidade social).
- Conexões: determinantes sociais da saúde (Biologia/Sociologia); saúde mental na pandemia; letramento em saúde pública; textos argumentativos de estrutura tese-antítese-síntese.
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