Mapa de questões · 1º dia
Questão 81 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
Quando as elites de cada região do país procuraram estabelecer sua autonomia em relação ao governo central, elas se confrontaram com o espectro de uma anarquia social. Em uma sociedade escravocrata, a possibilidade de tal desordem ameaçava tudo. Líderes locais apoderaram-se da legitimidade que a Monarquia oferecia como uma tábua de salvação, e o Estado monárquico central que eles construíram os trouxe à terra firme. Os vínculos que se seguiram entre as várias regiões levaram a um sentimento de solidariedade. O Estado, portanto, fomentou a emergência de uma nação única: o Brasil.
GRAHAM, R. Construindo uma nação no Brasil do século XIX:
visões novas e antigas sobre classe, cultura e Estado. Diálogos (UEM), n. 1, 2001 (adaptado).
A aliança entre as elites regionais e o Estado monárquico resultou na
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil Império; construção do Estado Nacional brasileiro
- ⚡ Nível: Médio — a resposta está quase explícita na frase final do texto, mas eliminar com segurança as demais alternativas exige situar cronologicamente partidos, revoltas regenciais e leis abolicionistas dentro do Império.
- 🎯 Tema/Habilidade: Formação da identidade nacional brasileira a partir da centralização monárquica; compreensão dos processos de construção do Estado e do território no Brasil do século XIX.
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo o texto, qual foi o efeito da aliança entre as elites regionais e a Monarquia?"
- Palavras-chave decisivas: espectro de uma anarquia social, tábua de salvação, sentimento de solidariedade, nação única
- Armadilha típica: confundir o contexto que motivou a aliança (sociedade escravocrata, medo de desordem) com o resultado pedido pelo comando, marcando alternativas sobre escravidão (D) ou revoltas (E) — que descrevem a causa ou o problema, não a consequência da aliança.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de separar, dentro de um texto historiográfico argumentativo, a cadeia de causa e efeito, identificando exatamente o elo final apontado pelo autor.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Construção do Estado Nacional brasileiro: processo pelo qual, ao longo do século XIX, o Império manteve a unidade territorial herdada da colônia — em contraste com a América espanhola, fragmentada em várias repúblicas após suas independências.
- Espectro da anarquia social: temor constante das elites, sobretudo proprietárias de escravizados, de que a fragmentação do poder político abrisse espaço para revoltas sociais e raciais, alimentado pelo receio de uma repetição da Revolução do Haiti (1791-1804).
- Centralização monárquica: o Poder Moderador, a nomeação de presidentes de província pelo Imperador, o Conselho de Estado e a Guarda Nacional funcionavam como mecanismos que davam às elites locais a garantia de que a ordem seria mantida em escala nacional.
- Identidade nacional: sentimento de pertencimento a uma pátria comum, construído por meio de símbolos e instituições (como o IHGB, fundado em 1838) e de vínculos econômicos e políticos entre as províncias — resultado indireto, e não objetivo inicial, da centralização monárquica.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "elas se confrontaram com o espectro de uma anarquia social. Em uma sociedade escravocrata, a possibilidade de tal desordem ameaçava tudo" → revela a causa: o medo da desordem movia as elites regionais, pois numa economia escravista qualquer instabilidade política ameaçava a hierarquia social vigente.
- Evidência 2: "Líderes locais apoderaram-se da legitimidade que a Monarquia oferecia como uma tábua de salvação" → revela o mecanismo: foram as próprias elites que buscaram na Coroa a legitimidade capaz de conter essa ameaça, e não uma imposição de fora para dentro.
- Evidência 3: "Os vínculos que se seguiram entre as várias regiões levaram a um sentimento de solidariedade. O Estado, portanto, fomentou a emergência de uma nação única: o Brasil" → é a evidência decisiva: nomeia diretamente o resultado pedido pelo comando — solidariedade entre regiões culminando em nação única.
- Síntese: o parágrafo narra uma cadeia causal — medo da anarquia → aliança com a Monarquia → vínculos entre regiões → solidariedade → nação una. O comando pede exatamente o último elo dessa cadeia, isto é, o efeito final, não o ponto de partida.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar o que está sendo perguntado
O comando pede a consequência da aliança entre elites regionais e Estado monárquico, não a causa nem o cenário em que ela ocorreu. É preciso, portanto, deixar de lado informações de contexto (escravidão, medo de anarquia) que apenas justificam por que a aliança aconteceu, e concentrar-se no trecho que descreve seu desfecho.
Subpasso 4.2 — Reconstruir a cadeia lógica do texto
Reorganizando o parágrafo em ordem de causa e efeito:
1) as elites regionais temem a anarquia social (contexto/causa);
2) buscam legitimidade na Monarquia central (mecanismo escolhido);
3) o Estado monárquico se consolida com o apoio dessas elites (meio);
4) os vínculos entre as regiões se fortalecem (efeito intermediário);
5) surge um sentimento de solidariedade entre as províncias (efeito intermediário);
6) o Estado fomenta a emergência de uma nação única, o Brasil (efeito final — é isto que o comando pergunta).
O elo 6 corresponde, em outras palavras, a "promoção da identidade brasileira".
Subpasso 4.3 — Verificação com o conhecimento histórico
Historiadores como José Murilo de Carvalho e Ilmar Rohloff de Mattos descrevem o mesmo fenômeno de outros ângulos: a elite política formada em Coimbra e organizada em torno da figura do Imperador conseguiu, ao longo do Império, evitar a fragmentação territorial que atingiu a América espanhola, construindo progressivamente um sentimento de nação. Esse conhecimento externo confirma que o resultado da aliança elites-monarquia foi mesmo a construção de uma identidade nacional comum, validando a alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) predominância do Partido Conservador.
❌ Incorreta: o Partido Conservador (os "Saquaremas") de fato ganhou força após o Regresso Conservador (1837) e no período da Conciliação, mas o texto não trata de disputa entre partidos — liberais e conservadores se revezaram no poder ao longo de todo o Segundo Reinado. A alternativa recorre a um dado histórico real, porém estranho ao que o parágrafo efetivamente aponta como resultado.
B) consolidação dos ideais republicanos.
❌ Incorreta: contradiz frontalmente o texto, que descreve o fortalecimento do Estado monárquico, não sua superação. O republicanismo só ganhou relevância política a partir do Manifesto Republicano de 1870, décadas depois do processo narrado, e como reação contrária à Monarquia — nunca como produto dessa aliança.
C) promoção da identidade brasileira.
✅ Correta: reproduz com fidelidade a conclusão do autor — "o Estado... fomentou a emergência de uma nação única: o Brasil" —, ou seja, a aliança entre elites regionais e Coroa gerou vínculos e solidariedade interprovincial que resultaram na construção de uma identidade nacional comum.
D) elaboração das leis abolicionistas.
❌ Incorreta: a escravidão aparece no texto apenas como pano de fundo do medo de desordem ("sociedade escravocrata"), não como pauta de reforma. As leis abolicionistas (Eusébio de Queirós, Ventre Livre, Sexagenários, Lei Áurea) resultaram de pressões distintas — movimento abolicionista, diplomacia britânica, transformações econômicas — décadas mais tarde; a aliança elites-monarquia buscava, na verdade, preservar a ordem escravista, não extingui-la.
E) eclosão de revoltas regenciais.
❌ Incorreta: inverte a relação de causa e efeito. Revoltas como Cabanagem, Sabinada, Balaiada, Farroupilha e a Revolta dos Malês ocorreram durante a Regência (1831-1840), justamente como manifestação do "espectro da anarquia" que ameaçava a unidade nacional — são parte do problema que a aliança buscou resolver, não sua consequência.
🏆 Gabarito: C — a aliança entre elites regionais e Estado monárquico gerou vínculos e solidariedade entre as províncias que resultaram, segundo o texto, na promoção de uma identidade nacional brasileira única.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que traduz o efeito final explicitado pelo autor — a formação de uma nação única — sem inverter causa e consequência nem introduzir temas (partidos, abolição, revoltas) que o texto não relaciona ao resultado da aliança.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência o tema "construção do Estado Nacional brasileiro", quase sempre em contraste com a fragmentação da América espanhola, destacando o papel do Poder Moderador, das elites agrárias regionais e da centralização monárquica na manutenção da unidade territorial.
- Generalização: em textos historiográficos argumentativos, a resposta costuma estar na frase de fechamento do parágrafo, que normalmente sintetiza a tese central do autor — leia o final do texto com atenção redobrada antes de decidir.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que contradizem o regime político descrito no texto (aqui, "república" em um texto sobre monarquia) e alternativas que invertem a cronologia dos fatos (revoltas regenciais antecedem, não sucedem, a consolidação do poder central).
- Conexões: Segundo Reinado e Poder Moderador; Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e a construção da memória nacional; historiografia de José Murilo de Carvalho ("A Construção da Ordem") e Ilmar Rohloff de Mattos ("O Tempo Saquarema").
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