Mapa de questões · 1º dia
Questão 84 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
Em primeiro lugar, é preciso libertar-se do preconceito segundo o qual a filosofia é apenas uma disciplina particular, apenas o trabalho de um círculo restrito de pessoas que dedicam sua atividade a refletir e a indagar sobre certos tipos de problemas. A filosofia é isso também, mas não só. Deve haver uma filosofia como ato existencial, que faz do homem um ente que pergunta, duvida, teme e age para dominar o futuro.
ABBAGNANO, N. Introdução ao existencialismo. São Paulo: Martins Fontes, 2001 (adaptado).
De acordo com a corrente de pensamento do século XX da qual o texto trata, o tema fundamental da filosofia é o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Existencialismo (correntes filosóficas do século XX)
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer o existencialismo por pistas contextuais (o texto não nomeia a corrente explicitamente no corpo) e diferenciá-lo de outras subáreas da filosofia usadas como distratores.
- 🎯 Tema/Habilidade: O objeto de investigação do existencialismo: a existência humana concreta, seu sentido e suas possibilidades.
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é o tema central investigado pela corrente filosófica do século XX descrita no texto?"
- Palavras-chave decisivas: ato existencial, pergunta, duvida, teme e age, dominar o futuro
- Armadilha típica: confundir o "tema fundamental" dessa corrente com temas de outras subáreas legítimas da filosofia (física, lógica, estética, epistemologia) que aparecem disfarçadas nas alternativas B, C, D e E — todas corretas enquanto definições, mas estranhas ao recorte do texto.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar a corrente filosófica (existencialismo) a partir do vocabulário e da atitude descritos no texto, associando-a corretamente ao seu objeto central de reflexão — e não a qualquer outro ramo da filosofia.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Existencialismo: corrente filosófica consolidada no século XX (com raízes no pensamento de Kierkegaard, no XIX) que desloca o centro da reflexão filosófica para a existência concreta do indivíduo — não o "homem" abstrato e universal das metafísicas clássicas, mas o sujeito situado, que vive, escolhe e se angustia diante do tempo.
- "Existência precede a essência": fórmula sartriana que resume o cerne do movimento — o ser humano não nasce com uma natureza pronta e fixa; ele se define pelas escolhas que faz ao longo da vida, o que o torna radicalmente livre e responsável por si mesmo.
- Liberdade, angústia e possibilidade: por não ter essência predeterminada, o indivíduo é lançado num campo aberto de possibilidades; escolher é inevitável, e essa inevitabilidade gera angústia — mas é também o que permite, como diz o texto, "dominar o futuro".
- Abbagnano e o "existencialismo positivo": o filósofo italiano Nicola Abbagnano, autor do texto-base, desenvolveu uma leitura do existencialismo mais otimista que a de Sartre ou Heidegger, entendendo a existência como um campo de possibilidades a ser realizado por meio de escolhas racionais e responsáveis — daí a ênfase do trecho em "dominar o futuro", e não apenas em sofrer passivamente a angústia da liberdade.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "é preciso libertar-se do preconceito segundo o qual a filosofia é apenas uma disciplina particular (...) o trabalho de um círculo restrito de pessoas" → o texto recusa a ideia de filosofia como especialidade técnica isolada, restrita a problemas acadêmicos específicos (como os de lógica ou epistemologia).
- Evidência 2: "Deve haver uma filosofia como ato existencial, que faz do homem um ente que pergunta, duvida, teme e age para dominar o futuro" → aqui está o núcleo do texto: a filosofia é redefinida como uma dimensão da própria vida humana — o homem é caracterizado por verbos de experiência concreta (perguntar, duvidar, temer, agir), não por proposições lógicas, leis físicas ou operações do conhecimento.
- Síntese: as pistas textuais convergem para uma filosofia cujo objeto não é o mundo físico, nem a estrutura formal do raciocínio, nem a arte, nem o conhecimento isolado em si — mas a condição humana em sua concretude: como o indivíduo existe, se projeta no tempo e constrói sentido diante da incerteza do futuro.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificando a corrente filosófica
O trecho de Abbagnano não usa a palavra "existencialismo" em seu corpo, mas a referência bibliográfica entrega a pista decisiva: "Introdução ao existencialismo". Isso confirma que a corrente discutida é o existencialismo do século XX. O reconhecimento também é possível apenas pelo vocabulário: "ato existencial" e os verbos "pergunta, duvida, teme e age" remetem diretamente à experiência subjetiva da existência — marca registrada dessa corrente, presente em autores como Sartre, Heidegger, Jaspers e no próprio Abbagnano.
Subpasso 4.2 — Traduzindo o texto no conceito pedido
A questão pede o "tema fundamental" dessa filosofia. O texto afirma que ela não deve se restringir a "certos tipos de problemas" tratados por especialistas, mas deve ser um "ato existencial" que atravessa a vida de qualquer ser humano. Logo, o objeto dessa filosofia é a própria existência humana: o sujeito que se interroga sobre si mesmo, que duvida, que teme diante do desconhecido e que age para construir — "dominar" — seu futuro. Essa é exatamente a definição de um pensamento centrado na realidade humana, em seu sentido (a busca de significado para a própria existência) e em suas possibilidades (a abertura ao futuro garantida pela liberdade de escolha).
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando essa síntese com o vocabulário-chave do existencialismo — liberdade, escolha, angústia, temporalidade, projeto, sentido da existência —, percebe-se que todos esses termos giram em torno da realidade humana concreta. A alternativa que expressa esse núcleo com precisão é a que fala em "realidade humana, seu sentido e possibilidades": ela cobre tanto a dimensão subjetiva (sentido) quanto a dimensão da liberdade e do futuro (possibilidades) presentes no texto. Nenhuma outra alternativa dialoga com os verbos "pergunta, duvida, teme e age" ou com a ideia de "dominar o futuro".
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) realidade humana, seu sentido e possibilidades.
✅ Correta: sintetiza o objeto próprio do existencialismo — a existência concreta do ser humano (não uma essência abstrata e universal), a busca de sentido nessa existência e as possibilidades abertas pela liberdade de escolha. Esses três elementos (realidade humana, sentido, possibilidades) traduzem exatamente os verbos do texto (perguntar, duvidar, temer, agir) e a ideia de "dominar o futuro".
B) mundo físico, sua essência e leis reguladoras.
❌ Incorreta: descreve o objeto da filosofia da natureza (cosmologia) ou mesmo das ciências naturais, preocupada com leis universais que regem a matéria — um recorte objetivo e externo ao sujeito, o oposto do giro subjetivo proposto pelo existencialismo, que desloca o eixo do mundo físico para a vivência humana.
C) lógica, suas inferências e estudos de validade.
❌ Incorreta: refere-se à lógica formal — o estudo da estrutura válida do raciocínio, tema caro à filosofia analítica e ao positivismo lógico. É um problema técnico-formal, sem relação com o "ato existencial" vivencial descrito no texto.
D) imaginação, seus objetos e contribuições.
❌ Incorreta: corresponde a um problema da estética/filosofia da arte (como a teoria da imaginação criadora em Kant ou no Romantismo). O texto não trata da faculdade imaginativa, mas da existência concreta e da ação humana diante do futuro.
E) conhecimento, sua natureza e condições.
❌ Incorreta: define o objeto da epistemologia (teoria do conhecimento), central em Descartes, Kant, racionalistas e empiristas — investiga como e até onde é possível conhecer. O existencialismo, embora dialogue com essa questão, tem como eixo não o "conhecer", mas o "existir": o texto fala de agir e temer, não de comprovar ou justificar crenças.
🏆 Gabarito: A — o texto descreve a filosofia como um "ato existencial" que faz do homem um ser que pergunta, duvida, teme e age para dominar o futuro; esse é o retrato do existencialismo, cujo tema fundamental é a realidade humana, seu sentido e suas possibilidades.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A capta o núcleo do existencialismo, pois é a única que fala em "realidade humana" — exatamente o que o texto descreve com os verbos "pergunta, duvida, teme e age" e a expressão "dominar o futuro".
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma apresentar textos-fonte de correntes filosóficas sem nomear a corrente diretamente no corpo do trecho, exigindo que o estudante a reconheça pelo vocabulário e pelo tipo de problema tratado — no caso do existencialismo, isso normalmente envolve liberdade, escolha, angústia, autenticidade e a fórmula "existência precede a essência".
- Generalização: para identificar correntes filosóficas em provas, observe o campo semântico dominante do texto (fala de mundo físico? de raciocínio formal? de arte? de conhecimento? de existência humana?) — isso indica de imediato a subárea da filosofia em jogo e permite eliminar rapidamente alternativas de outras subáreas.
- Dica de eliminação rápida: quando as alternativas trazem substantivos técnicos de subáreas filosóficas específicas e claramente distintas do humano — "mundo físico" (metafísica da natureza), "lógica" (raciocínio formal), "imaginação" (estética), "conhecimento" (epistemologia) — elas quase sempre são distratores; o existencialismo é identificado por girar em torno de existência, liberdade, sentido e escolha.
- Conexões: Jean-Paul Sartre ("O Existencialismo é um Humanismo"); Martin Heidegger (Ser e Tempo, "ser-no-mundo"); Søren Kierkegaard (precursor do existencialismo, angústia e fé); Nicola Abbagnano (existencialismo positivo, foco nas possibilidades concretas da existência).
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