Mapa de questões · 1º dia
Questão 63 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
A um príncipe, portanto, não é necessário ter de fato todas as qualidades, mas é indispensável parecer tê-las. Aliás, ousarei dizer que, se as tiver e utilizar sempre, serão danosas, enquanto, se parecer tê-las, serão úteis. Assim, deves parecer clemente, fiel, humano, íntegro, religioso — e sê-lo, mas com a condição de estares com o ânimo disposto a, quando necessário, não o seres, de modo que possas e saibas como tornar-te o contrário.
MAQUIAVEL, N. O príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2004 (adaptado).
Segundo o autor, a conquista e a conservação do poder político exigem a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Política; Maquiavel e o realismo político
- ⚡ Nível: Médio — texto direto, mas exige traduzir a linguagem do século XVI para um conceito filosófico abstrato (separação entre ética e política)
- 🎯 Tema/Habilidade: O nascimento da política moderna em Maquiavel; competência de comparar diferentes concepções de poder, Estado e moral na filosofia política
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo Maquiavel, o que é indispensável para conquistar e conservar o poder político?"
- Palavras-chave decisivas: não é necessário ter... mas é indispensável parecer tê-las, ânimo disposto a... não o seres, saibas como tornar-te o contrário
- Armadilha típica: ler "parecer clemente, fiel, humano, íntegro, religioso" como defesa da moral cristã (B) ou como elogio a uma liberdade sem limites (E). Em ambos os casos o candidato ignora que Maquiavel descreve uma técnica de adaptação do comportamento, não um valor fixo nem a ausência total de regras.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o príncipe alterna entre parecer virtuoso e agir de modo oposto, conforme a necessidade política — uma moral instrumental e mutável, não permanente.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Realismo político: corrente inaugurada por Maquiavel que descreve a política como ela funciona de fato (disputa por poder, cálculo de consequências), rompendo com tratados anteriores que desenhavam o "príncipe ideal" a partir de virtudes morais abstratas.
- Autonomia da política: a esfera política tem lógica própria, independente da moral e da religião; uma ação pode ser eficaz mesmo sendo condenável eticamente, pois o critério de julgamento é o resultado (manter o Estado), não a pureza da intenção.
- Virtù: não é a virtude moral/cristã (bondade, humildade), mas a habilidade e a capacidade de adaptação do governante às circunstâncias — inclui saber simular e dissimular quando necessário.
- Flexibilidade moral: decorrência da virtù — o príncipe não pode ficar preso a um único código de conduta; precisa "tornar-se o contrário" do que aparenta sempre que a conservação do poder exigir.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "não é necessário ter de fato todas as qualidades, mas é indispensável parecer tê-las" → a virtude tem valor político como imagem projetada, não como disposição interior fixa; importa o efeito sobre súditos e aliados, não a coerência moral do governante.
- Evidência 2: "com a condição de estares com o ânimo disposto a, quando necessário, não o seres... tornar-te o contrário" → o príncipe deve estar pronto para abandonar, a qualquer momento, a postura clemente, fiel e íntegra — uma moral adaptável às circunstâncias, não um conjunto de princípios estáveis.
- Síntese: as evidências convergem: o poder não se conquista nem se conserva com virtude fixa (moral, religiosa ou racional), mas com a capacidade de alternar entre parecer bom e agir conforme a necessidade — exatamente flexibilidade moral.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Núcleo argumentativo do texto
Maquiavel nega uma expectativa: o leitor do século XVI esperaria que o bom governante devesse de fato possuir as virtudes clássicas — clemência, fé, humanidade, integridade, religiosidade. O autor inverte a lógica: exercer tais qualidades "sempre" seria "danoso" ao poder, enquanto parecer possuí-las é "útil". Aí está o primeiro sinal do realismo político: a moral deixa de ser um fim em si e passa a ser avaliada por sua utilidade para a conservação do Estado.
Subpasso 4.2 — Traduzindo o conceito filosófico
A frase final do trecho é a chave: o príncipe deve manter "o ânimo disposto" a deixar de ser clemente, fiel ou íntegro quando a situação exigir, "de modo que possas e saibas como tornar-te o contrário". Não é imoralidade pura nem ausência de regras — é a capacidade calculada de mudar de comportamento moral conforme a conjuntura. Esse comportamento adaptável, que abandona princípios fixos em nome da eficácia, é a flexibilidade moral: a moral do governante não é dogma, é instrumento de governo.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando essa síntese com as alternativas, só a opção A nomeia esse comportamento — "flexibilidade moral do monarca" —, sem introduzir elementos ausentes do texto (religião, participação popular, ética kantiana) nem distorcer a adaptação em "liberdade incondicional". A leitura converge para a alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) flexibilidade moral do monarca.
✅ Correta: é o que o texto descreve — o príncipe deve parecer virtuoso, mas estar pronto a agir de modo contrário quando a conservação do poder exigir. Essa alternância calculada entre aparência e ação é o núcleo do realismo político maquiaveliano.
B) retomada dos valores cristãos.
❌ Incorreta: o texto faz o movimento oposto — clemência, fé, integridade e religiosidade são citadas como aparências manipuláveis, não como valores a serem vividos com autenticidade. Maquiavel rompe com a subordinação da política à moral cristã medieval, não propõe seu retorno.
C) consulta periódica dos cidadãos.
❌ Incorreta: não há no trecho menção a participação popular, deliberação coletiva ou legitimação pelo povo. O Príncipe trata da ação individual do governante, que concentra em si o cálculo e a decisão — consulta cidadã pertence a tradições posteriores, como o contratualismo e o liberalismo democrático.
D) adoção do imperativo categórico.
❌ Incorreta: o imperativo categórico é conceito da ética kantiana — agir segundo máxima universalizável, independentemente das consequências. É o oposto do raciocínio do texto, consequencialista e situacional: a ação vale pelo resultado (manter o poder), não por obedecer a uma regra moral universal.
E) liberdade incondicional do estadista.
❌ Incorreta: o texto não descreve liberdade sem limites. O príncipe está condicionado pela necessidade política — precisa "saber como" agir, calculando o momento de parecer virtuoso ou de "tornar-se o contrário". É liberdade funcional e calculada, subordinada à conservação do poder, não incondicional.
🏆 Gabarito: A — o texto defende que o príncipe deve alternar entre parecer virtuoso e agir de modo oposto conforme a necessidade política, o que configura a flexibilidade moral do monarca como condição para conquistar e conservar o poder.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa A traduz com precisão a lógica do texto — adaptação calculada do comportamento moral às exigências da política — sem acrescentar elementos estranhos ao trecho (religião, democracia, Kant) nem exagerar a adaptação em ausência total de limites.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorre com frequência a trechos de O Príncipe para testar o realismo político, quase sempre contrapondo a "política tal como é" (Maquiavel) à "política tal como deveria ser" (tradição moral e religiosa anterior).
- Generalização: quando um texto de Maquiavel contrastar "parecer" e "ser", ou "virtude" e "necessidade", a resposta correta gira em torno de pragmatismo, separação entre ética e política, ou flexibilidade do governante — nunca de moral fixa, religião ou participação popular.
- Dica de eliminação rápida: elimine alternativas com fundamentação religiosa, consulta popular/democracia ou conceitos de outras correntes (Kant, contratualismo) — são as pegadinhas clássicas para confundir Maquiavel com pensadores de tradições opostas.
- Conexões: conceitos de virtù e fortuna; razão de Estado; contraste com o contratualismo de Hobbes, Locke e Rousseau, que fundamentam o poder no consentimento, não apenas na eficácia.
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