Mapa de questões · 1º dia
Questão 68 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
O testemunho nunca é um relato exato do que aconteceu. Na verdade, ao expor seu passado, o sujeito está sempre procedendo a uma reelaboração pela qual memórias tidas como negativas podem, consciente ou inconscientemente, ser esquecidas. Em certos momentos, simplesmente para seguir em frente, é preciso esquecer.
VASCONCELOS, C. B. As análises da memória: balanço e possibilidades.
Estudos Históricos, n. 43, jan.-jun. 2009 (adaptado).
O texto ressalta um aspecto fundamental da produção de memória ao identificá-la como
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → epistemologia da memória e do testemunho como fonte histórica (dialoga com Sociologia e Filosofia)
- ⚡ Nível: Médio — o texto dá pistas lexicais fortes ("reelaboração", "esquecidas", "preciso esquecer"), mas exige inferir delas o conceito-síntese de seletividade, que não aparece de forma literal.
- 🎯 Tema/Habilidade: A memória como reconstrução seletiva do passado — habilidade de "analisar a produção da memória pelas sociedades humanas" (H20 da matriz do ENEM).
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual traço da produção da memória o texto aponta como fundamental?"
- Palavras-chave decisivas: reelaboração, esquecidas (consciente ou inconscientemente), é preciso esquecer
- Armadilha típica: confundir "reelaboração" com invenção arbitrária (intuição, alternativa A) ou achar que o esquecimento rompe o vínculo do relato com seu contexto original (alternativa B) — o texto fala de escolha entre lembrar e esquecer, não de desconexão com o vivido.
- O que a resposta precisa demonstrar: entender que memória não é gravação passiva e completa do passado, mas processo ativo de triagem — reter parte, descartar parte.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Memória como reconstrução, não reprodução: para Maurice Halbwachs, lembrar é reconstruir o passado a partir dos "quadros sociais" do presente — não existe memória pura, isolada do momento em que é evocada.
- Esquecimento seletivo: Michael Pollak mostra que memórias traumáticas ou "negativas" podem ser silenciadas ou deslocadas ("memória subterrânea"), consciente ou inconscientemente, como estratégia de sobrevivência psíquica.
- Testemunho como fonte mediada: na historiografia, testemunhos não são cópias neutras do vivido; passam por filtros de linguagem, emoção e tempo, por isso exigem crítica, não coleta ingênua.
- Seletividade: conceito-síntese dos três anteriores — a memória se produz elegendo o que preservar e o que apagar; é esse recorte, e não a totalidade do vivido, que constitui o relato final.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "O testemunho nunca é um relato exato do que aconteceu" → descarta a leitura de memória como cópia fiel/objetiva, eliminando alternativas que sugiram exatidão ou uniformidade.
- Evidência 2: "memórias tidas como negativas podem, consciente ou inconscientemente, ser esquecidas" → mostra que a memória opera por escolha, mesmo não deliberada — parte do vivido é preservada, parte descartada: seletividade em ato.
- Evidência 3: "para seguir em frente, é preciso esquecer" → revela a função do esquecimento, reforçando que selecionar o que fica e o que sai é constitutivo da memória, não um defeito dela.
- Síntese: as evidências convergem para um único eixo — a memória se produz por escolhas ativas de reelaboração e esquecimento, ou seja, é fundamentalmente seletiva.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a tese central do texto
Vasconcelos abre negando o senso comum sobre testemunho: "o testemunho nunca é um relato exato do que aconteceu". Se a memória não é cópia fiel do passado, o texto precisa dizer o que ela é — a resposta vem a seguir: um processo de "reelaboração" do vivido.
Subpasso 4.2 — Entender o mecanismo da reelaboração
O texto detalha o mecanismo: memórias "tidas como negativas" podem ser esquecidas, "consciente ou inconscientemente". Há uma triagem ativa — parte do passado permanece na narrativa, parte é descartada. Isso é, por definição, um processo seletivo.
Subpasso 4.3 — Verificação com a frase de fechamento
"Em certos momentos, simplesmente para seguir em frente, é preciso esquecer" confirma a tese: o esquecimento é parte funcional da memória, não uma falha. Cruzando essa conclusão com as alternativas, só uma nomeia com precisão esse mecanismo de escolha entre lembrar e esquecer — a que fala em "seletividade das lembranças", alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) constituída de intuições do narrador.
❌ Incorreta: o texto descreve "reelaboração" e "esquecimento" — processos de seleção —, não "intuições", que remeteriam a percepções espontâneas. O texto não discute como o narrador "sente" o passado, e sim o que ele escolhe preservar dele.
B) dissociada do contexto de surgimento.
❌ Incorreta: é o oposto do argumento. A reelaboração depende justamente do contexto (emocional, temporal, social) em que o sujeito relembra — é esse contexto que determina o que será esquecido ou mantido.
C) marcada pela seletividade das lembranças.
✅ Correta: sintetiza o argumento do texto. "Reelaboração" e "esquecimento" (consciente ou inconsciente) de memórias negativas são expressões de um único fenômeno — a seleção do que será lembrado e do que será apagado. É essa seletividade que o texto aponta como aspecto fundamental da produção de memória.
D) caracterizada pela uniformidade dos relatos.
❌ Incorreta: "uniformidade" sugere relatos padronizados; o texto descreve o contrário — relatos variáveis, sujeitos a reelaborações e esquecimentos distintos. Memória uniforme não deixaria espaço para a seleção subjetiva que o texto destaca.
E) resultado do compartilhamento das vivências.
❌ Incorreta: compartilhamento remeteria à dimensão coletiva da memória (como em Halbwachs), mas o trecho foca no processo individual e interno de reelaboração e esquecimento do próprio sujeito que testemunha.
🏆 Gabarito: C — o texto define a produção da memória pelo mecanismo de reelaboração e esquecimento (consciente ou inconsciente) de conteúdos negativos, o que equivale, em termos conceituais, à seletividade das lembranças.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa C nomeia corretamente o mecanismo descrito — escolher o que lembrar e o que esquecer —, sem inverter o sentido (D), deslocar para o coletivo (E), banalizar como intuição (A) ou negar o contexto (B).
- Padrão de cobrança: o ENEM traz recorrentemente textos de historiadores e sociólogos sobre a natureza da memória e do testemunho como fonte, muitas vezes ligados à memória da ditadura militar e ao trabalho de comissões da verdade.
- Generalização: sempre que um texto disser que a memória "reconstrói", "reelabora" ou "filtra" o passado, a resposta caminha para seletividade, subjetividade ou reconstrução — nunca para fidelidade, uniformidade ou objetividade.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas com "exatidão", "uniformidade" ou "fidelidade" — contradizem a ideia de "reelaboração"; aqui isso já elimina D, e o mesmo raciocínio afasta B.
- Conexões: Maurice Halbwachs (memória coletiva); Michael Pollak (memória subterrânea e trauma); testemunhos em comissões da verdade e políticas de memória.
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