Mapa de questões · 1º dia
Questão 85 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
A abertura dos portos brasileiros em 1808 inaugurou a possibilidade, para viajantes europeus de diversas nacionalidades, de percorrer áreas até então dificilmente acessíveis à sua curiosidade. Os relatos de inúmeras expedições, a maioria de caráter científico, foram publicados na Europa, para leitores ávidos de notícias sobre um Brasil até então desconhecido, terra cujos segredos haviam sido velados por uma Coroa portuguesa ciumenta e possessiva.
DUARTE, R. H. Olhares estrangeiros: viajantes no vale do Rio Mucuri.
Revista Brasileira de História, n. 44, 2002 (adaptado).
Os relatos de viagens ao Brasil, publicados na Europa, contribuíram para a construção da identidade europeia na medida em que
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → viajantes europeus no Brasil pós-1808; Iluminismo; construção da identidade e da alteridade
- ⚡ Nível: Difícil — exige interpretar o texto além da superfície descritiva e reconhecer um conceito abstrato (identidade por contraste) que a questão não nomeia explicitamente
- 🎯 Tema/Habilidade: O olhar europeu sobre o Brasil colonial/joanino e seu papel na afirmação da própria identidade europeia; habilidade de relacionar informações e posicionar-se criticamente diante de fontes históricas
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que os relatos de viagem sobre o Brasil revelam e reforçam a respeito da própria Europa que os produziu e consumiu?"
- Palavras-chave decisivas: identidade europeia, curiosidade, desconhecido/segredos velados
- Armadilha típica: ler a pergunta como "o que os relatos disseram sobre o Brasil" e escolher alternativas que descrevem bem o conteúdo dos relatos (natureza, miscigenação, povos indígenas) — mas o comando pede o efeito desses relatos na autoimagem europeia, não a fidelidade da descrição do Brasil.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o relato de viagem funciona como espelho invertido — ao classificar o Brasil como exótico e misterioso, a Europa se define, por oposição, como racional, científica e civilizada.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Identidade por alteridade: nenhum grupo define quem é apenas olhando para si mesmo; ele também se afirma em contraste com o "outro" — descrever o estrangeiro como diferente ou misterioso é uma forma indireta de dizer "nós somos o oposto disso".
- Iluminismo e a ideia de civilização: desde o século XVIII, a Europa constrói uma narrativa de si mesma centrada na razão, na ciência e no progresso — a "civilização" — usada como régua para julgar e hierarquizar outros povos e territórios.
- Cientificismo das expedições do século XIX: viajantes como Spix, Martius, Saint-Hilaire e Rugendas vinham financiados por academias europeias, catalogando fauna, flora e costumes com métodos de classificação científica, o que dava autoridade ao olhar exotizante sobre o Brasil.
- Exotismo como categoria discursiva: apresentar o outro como estranho e misterioso ("segredos velados") não é neutro — é uma estratégia narrativa que reforça a distância cultural entre observador (civilizado) e observado (exótico).
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "viajantes europeus... percorrer áreas até então dificilmente acessíveis à sua curiosidade" → o Brasil é tratado como objeto de curiosidade externa, não como sujeito que fala de si mesmo; quem descreve e classifica é sempre o europeu.
- Evidência 2: "relatos... a maioria de caráter científico" → a legitimidade científica emoldura o olhar, transformando impressões culturais em "dados" supostamente objetivos, carregados da visão de mundo iluminista europeia.
- Evidência 3: "leitores ávidos de notícias sobre um Brasil até então desconhecido, terra cujos segredos haviam sido velados" → o vocabulário de mistério e revelação constrói o Brasil como terra exótica, oposto simbólico da Europa "esclarecida" que agora pode "desvendá-la".
- Síntese: viajante europeu observa → relato científico classifica o Brasil como exótico e misterioso → leitor europeu consome essa imagem e, por contraste, reafirma sua própria identidade como parte de uma civilização racional.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o mecanismo pedido pela questão
A pergunta não quer uma lista do que os relatos descreveram sobre o Brasil; quer saber como essa descrição "construiu a identidade europeia". Construir identidade é um processo relacional: só existe "civilizado" se houver, em contraponto, um "não civilizado" para comparação. A resposta correta precisa envolver esse contraste entre Europa e Brasil, não uma descrição isolada do Brasil.
Subpasso 4.2 — Aplicar o conceito de Iluminismo ao texto
O Iluminismo forneceu à Europa o repertório de valores que ela usava para se autodefinir: razão, ciência, progresso — resumidos na palavra "civilização". Quando os relatos, "de caráter científico", descreviam o Brasil como terra de "segredos velados" e curiosidade a ser saciada, colocavam o país do lado oposto dessa régua: o lado do exótico, do ainda-não-racionalizado. Esse exotismo funcionava como negativo fotográfico da civilização iluminista, e é esse contraste que reforça, na Europa, a sensação de identidade civilizada.
Subpasso 4.3 — Verificação com as alternativas
Buscando uma alternativa que combine "exotismo da sociedade colonial" com "contraposição à ideia iluminista de civilização", encontra-se exatamente a alternativa C — o par conceitual exotismo do colonizado × civilização do colonizador que dá origem à identidade europeia por diferença.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) destacaram a exuberância da natureza tropical, elaborando uma visão heroica da conquista.
❌ Incorreta: o texto fala de expedições científicas movidas por "curiosidade" e catalogação, não de narrativas de conquista militar — essa chave de leitura é típica das crônicas coloniais dos séculos XVI-XVII, não do olhar naturalista-científico do XIX descrito no enunciado.
B) defenderam a legitimidade da escravidão africana, aprovando-a como fator de humanização.
❌ Incorreta: o texto-base não trata do tema da escravidão, e "aprovar a escravidão como fator de humanização" inverte qualquer crítica possível sobre o tema — a alternativa insere um assunto ausente da fonte para confundir o candidato.
C) enfatizaram o exotismo da sociedade colonial, contrapondo-a à ideia iluminista de civilização.
✅ Correta: é exatamente o mecanismo descrito no texto — relatos científicos que apresentam o Brasil como terra de "segredos velados" e objeto de "curiosidade" reforçam, por oposição, a autoimagem europeia de civilização racional herdada do Iluminismo.
D) analisaram a miscigenação dos grupos raciais, atribuindo um caráter positivo a esse processo.
❌ Incorreta: o texto não menciona miscigenação; além disso, o pensamento europeu do período costumava tratar a mistura racial como sinal de degeneração, não como algo positivo — a alternativa contraria a fonte e o contexto das teorias raciais então em formação.
E) descreveram a diversidade das etnias indígenas, contribuindo para a preservação de suas culturas.
❌ Incorreta: o interesse dos viajantes era catalogar e classificar para o consumo científico e editorial europeu, não preservar culturas indígenas — o efeito de "preservação" não é mencionado nem é objetivo dos relatos, que tratavam os povos como curiosidade a ser descrita.
🏆 Gabarito: C — os relatos de viagem, ao enfatizarem o exotismo da sociedade colonial brasileira sob uma roupagem de ciência iluminista, reforçaram por contraste a autoimagem europeia de civilização racional e desenvolvida.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C nomeia o par conceitual correto — exotismo colonial versus civilização iluminista — mecanismo relacional exigido pelo comando da questão.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente explora o "olhar estrangeiro" sobre o Brasil colonial e imperial (viajantes naturalistas, pintores-viajantes, cronistas), testando se o candidato entende que essas fontes dizem tanto sobre quem observa quanto sobre quem é observado.
- Generalização: quando uma questão pergunta como um discurso sobre "o outro" contribuiu para a identidade de "quem fala", a resposta correta quase sempre envolve contraste/alteridade, não descrição neutra do objeto observado.
- Dica de eliminação rápida: elimine alternativas que atribuam julgamento positivo ao colonizado (D e E, com "caráter positivo" e "preservação") — o olhar europeu do período era hierarquizante, não valorizador; elimine também alternativas com tema ausente do texto-base (B, sobre escravidão).
- Conexões: iconografia de Debret e Rugendas sobre o Brasil joanino; expedição científica de Spix e Martius; conceito de alteridade e "Orientalismo" de Edward Said aplicado ao olhar europeu sobre territórios coloniais.
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