Mapa de questões · 1º dia
Questão 29 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia

Esse cartaz tem como função social conquistar clientes para um evento turístico, e, por isso, seria recomendável que fosse escrito na norma-padrão da língua portuguesa. O comentário acrescentado por um interlocutor sugere que a grafia incorreta da palavra “excursão”
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Norma-padrão, adequação linguística e efeitos de sentido em gêneros publicitários
- ⚡ Nível: Médio — a resposta certa exige interpretar um trocadilho ("não vai a lugar nenhum") para além do sentido literal, e não apenas localizar o erro de grafia
- 🎯 Tema/Habilidade: Adequação da norma-padrão ao gênero textual e seus efeitos pragmáticos — reconhecer o grau de adequação da linguagem ao contexto de produção e circulação do texto (Competência de Área 1 de Linguagens)
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O comentário manuscrito, ao apontar o erro de grafia em 'excursão', sugere que esse erro provoca qual efeito sobre o anúncio?"
- Palavras-chave decisivas: grafia incorreta, comentário, sugere
- Armadilha típica: confundir o efeito pragmático/social do erro (o leitor passa a desconfiar do anunciante) com um suposto problema de compreensão (alternativa E) ou com uma explicação técnica de fonética/fala (alternativas A e B) — o enunciado não pergunta "o leitor entendeu a mensagem?", e sim "que julgamento o erro provoca sobre quem escreveu o cartaz?".
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de ler um comentário irônico e extrair dele o julgamento de valor que expressa sobre o anunciante, relacionando erro de norma-padrão a perda de credibilidade em um gênero de natureza comercial.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Norma-padrão em gênero publicitário: cartazes que vendem produtos ou serviços pertencem a um gênero em que a correção formal da escrita funciona como sinal de seriedade e profissionalismo; erros grosseiros de ortografia comprometem a imagem de quem vende, ainda que não comprometam a compreensão do texto.
- Erro ortográfico × erro fonético: uma troca de letras só "interfere na pronúncia" quando as duas grafias produzem sons diferentes. Quando duas letras representam o mesmo fonema — como o ç e o s pós-consoante em "excursão" — a troca é puramente gráfica: não muda em nada como a palavra é falada ou ouvida.
- Interferência da fala na escrita: fenômeno em que o falante grafa a palavra reproduzindo um traço real da própria pronúncia, geralmente informal ou regional (ex.: escrever "pobrema" por influência da fala de "problema"). Não é o caso do cartaz: a pronúncia-padrão de "excursão" já usa o som /s/ nessa posição, então não há nenhuma peculiaridade oral sendo transportada para o papel — é confusão entre duas letras homófonas.
- Ironia como estratégia argumentativa: o comentarista usa um trocadilho para criticar de forma indireta. O sentido literal da frase escrita é impossível (a viagem obviamente vai a algum lugar: Raposo-RJ), o que obriga o leitor a buscar o sentido figurado por trás da piada.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1 (cartaz): "EXCURÇÃO RAPOSO-RJ... VALOR 230,00... PASSAGEM E HOTEL... TRATAR C/ ROMILDA" → é um anúncio comercial real, de uma pessoa física oferecendo um pacote turístico pago antecipadamente, contexto que exige postura profissional e confiável para atrair clientes.
- Evidência 2 (comentário manuscrito): "Excurção c/ Ç NÃO VAI A LUGAR NENHUM. O correto é: EXCURSÃO" → o interlocutor não se limita a corrigir a grafia: ele a ridiculariza usando a expressão idiomática "não vai a lugar nenhum" (= não dá certo, não merece ser levado a sério), aplicada ao erro ortográfico, e não ao trajeto real da viagem.
- Síntese: o comentário não discute se as pessoas entenderam o anúncio — elas entenderam, inclusive o próprio comentarista —, nem descreve como a palavra soa ao ser pronunciada. Ele usa o deslize ortográfico como prova de desleixo, sugerindo que quem erra a grafia da própria palavra que nomeia o serviço não passa segurança para quem pensa em contratá-lo.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Classificando a natureza do erro "excurção"
A forma correta é "excursão", com "s" após o "r". Foneticamente, o "s" nessa posição (depois de consoante) e o "ç" representam exatamente o mesmo fonema, /s/, no português — por isso "excurção" e "excursão" se pronunciam de modo idêntico. Isso já descarta, de saída, qualquer alternativa que trate o erro como problema de som: a confusão é inteiramente gráfica, provavelmente motivada pela analogia com a terminação "-ção", muito mais frequente no léxico português ("nação", "estação", "canção", "condição") do que a terminação "-são" ("excursão", "pensão", "extensão", "expansão").
Subpasso 4.2 — Interpretando a função do comentário
O interlocutor poderia ter escrito apenas "está errado, o certo é com S". Em vez disso, ele constrói humor: "NÃO VAI A LUGAR NENHUM". Note o jogo de palavras: uma excursão, por definição, é uma viagem que leva pessoas a algum lugar; dizer que ela "não vai a lugar nenhum" inverte o sentido básico da própria palavra para, na verdade, comentar a confiabilidade do serviço anunciado — como quem diz "eu não confiaria em uma empresa que nem sabe escrever o nome do que vende". O riso nasce exatamente dessa ponte entre o erro ortográfico e o descrédito lançado sobre quem presta o serviço.
Subpasso 4.3 — Verificação
Cruzando essa leitura com as cinco alternativas, apenas uma delas expressa esse julgamento sobre a idoneidade do anunciante — as demais tratam de som, de origem do erro na fala, de intenção proposital ou de compreensão da mensagem, nenhuma sustentada pelas evidências do cartaz e do comentário. A alternativa que fecha exatamente com a síntese construída nos Passos 2 e 3 é a que associa o erro de grafia à perda de confiança nos serviços oferecidos pela prestadora.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) interfere na pronúncia do vocábulo
❌ Incorreta: o "ç" e o "s" pós-consoante de "excursão" representam o mesmo fonema, /s/; a palavra soa de forma idêntica nas duas grafias. Não existe qualquer interferência na pronúncia — o erro é puramente ortográfico, sem correspondente fonético.
B) reflete uma interferência da fala na escrita.
❌ Incorreta: esse fenômeno ocorre quando a grafia errada reproduz um traço real da fala (pronúncias regionais ou populares transcritas no papel). Aqui não há isso: a pronúncia-padrão da palavra já é idêntica nas duas grafias, então a troca "s"/"ç" não vem de nenhuma peculiaridade oral — é confusão entre convenções gráficas homófonas, reforçada pela alta frequência da terminação "-ção" em português.
C) caracteriza uma violação proposital para chamar a atenção dos clientes.
❌ Incorreta: nada no cartaz ou no comentário indica intenção estilística, como ocorre em grafias alteradas de propósito por marcas para chamar atenção. O próprio comentarista trata o erro como falha real, corrigindo-o e debochando dele — o tom é de crítica a um deslize, não de reconhecimento de uma estratégia criativa do anunciante.
D) diminui a confiabilidade nos serviços oferecidos pela prestadora.
✅ Correta: o trocadilho "não vai a lugar nenhum" liga diretamente o erro de grafia à falta de seriedade da empresa. Em um gênero cujo objetivo é vender confiança — pagar antecipadamente por passagem e hotel a uma pessoa física —, um erro ortográfico básico no próprio nome do produto anunciado mina a credibilidade de quem organiza a viagem. É exatamente esse julgamento que o comentário constrói.
E) compromete o entendimento do conteúdo da mensagem.
❌ Incorreta: a compreensão do anúncio permanece intacta — o próprio interlocutor entendeu perfeitamente do que se tratava, a ponto de corrigir a grafia e fazer uma piada sobre ela. O que está em jogo não é a clareza da comunicação, mas a imagem profissional de quem anuncia o serviço.
🏆 Gabarito: D — o comentário usa o trocadilho "não vai a lugar nenhum" para transformar um erro ortográfico em prova de desleixo, sugerindo que a empresa anunciante perde credibilidade justamente por errar a grafia do próprio serviço que vende.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa D explica o efeito social e pragmático do erro — a perda de confiança —, que é exatamente o que o trocadilho do comentarista constrói; as demais alternativas tratam de fonética, de fala, de intenção proposital ou de compreensão, nenhuma sustentada pelo texto.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência a relação entre norma-padrão e gênero textual, testando se o candidato entende que "errar a norma-padrão" tem consequências diferentes conforme o contexto: em um bilhete informal entre amigos, tanto faz; em uma peça publicitária, o erro fere a imagem profissional de quem vende.
- Generalização: sempre que um texto publicitário ou institucional trouxer um erro de norma-padrão comentado por terceiros, desconfie de respostas que tratam esse erro como problema de som ou de entendimento — o efeito mais cobrado pelo ENEM nesses casos é o julgamento sobre a competência e a credibilidade de quem produziu o texto.
- Dica de eliminação rápida: pergunte-se "o leitor deixou de entender a mensagem?" (se não, elimine E) e "as duas grafias soam diferente?" (se não, elimine A e B); sobra quase sempre a leitura sobre intenção (C) versus credibilidade (D) — decida observando se o texto sinaliza correção/crítica (correção = erro real = perda de credibilidade, não jogo proposital).
- Conexões: adequação da linguagem aos gêneros textuais; variação linguística e preconceito linguístico; leitura de humor e ironia em textos verbais.
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