Mapa de questões · 1º dia
Questão 6 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
O povo indígena Wajãpi utiliza o Kusiwa — reconhecido como bem imaterial da humanidade em 2003 — como repertório codificado de padrões gráficos que decora e colore o corpo e os objetos. Para além de enfeitar, Kusiwa aparece como “arte”, “marca”, “pintura” e “desenho”. Esses grafismos ultrapassam a noção estética e alcançam a cosmologia e as crenças religiosas.
ALMEIDA, C. S.; CARDOSO, P. B. Arte coussiouar, perspectivas históricas de alteridade e reconhecimento. Espaço Ameríndio, n. 1, jan.-jul. 2021.
O povo Wajãpi, que vive na Serra do Tumucumaque, entre Amapá, Pará e Guiana Francesa, vivencia práticas culturais que
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Artes → arte e cultura indígena; patrimônio cultural imaterial
- ⚡ Nível: Fácil — a resposta está quase parafraseada no próprio texto, bastando identificar a ideia central sem exigir conhecimento prévio aprofundado
- 🎯 Tema/Habilidade: Concepção ampliada de arte em culturas indígenas; competência de leitura e reconhecimento de manifestações culturais na diversidade linguística e artística
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que o texto revela sobre as práticas culturais do povo Wajãpi?"
- Palavras-chave decisivas: Para além de enfeitar, ultrapassam a noção estética, cosmologia e crenças religiosas
- Armadilha típica: confundir "grafismo" com simples representação figurativa (desenho realista de algo do mundo) ou com decoração superficial do corpo, ignorando que o texto explicitamente nega essas leituras reducionistas
- O que a resposta precisa demonstrar: que o Kusiwa é uma manifestação artística que extrapola a função de ornamento e alcança dimensões simbólicas, religiosas e cosmológicas
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Kusiwa: sistema codificado de grafismos do povo Wajãpi — padrões gráficos aplicados ao corpo e a objetos, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2003.
- Patrimônio Cultural Imaterial: categoria de bem cultural que não se limita ao objeto físico, mas reside na prática, no saber-fazer e no significado social e simbólico transmitidos entre gerações.
- Arte para além do estético: em muitas cosmovisões indígenas, a produção artística não separa "belo" de "sagrado" — a mesma pintura corporal pode ser, ao mesmo tempo, adorno, identidade social, crença e representação do universo.
- Cosmologia indígena: conjunto de saberes sobre a origem, a organização e o sentido do mundo próprios de um povo; quando o texto diz que o grafismo "alcança a cosmologia", indica que a arte comunica essa visão de mundo, e não apenas embeleza.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Para além de enfeitar, Kusiwa aparece como 'arte', 'marca', 'pintura' e 'desenho'" → o próprio texto rejeita a ideia de que o grafismo serve só para decorar; ele acumula múltiplos sentidos e funções sociais.
- Evidência 2: "Esses grafismos ultrapassam a noção estética e alcançam a cosmologia e as crenças religiosas" → afirmação central e mais literal da questão: a arte Wajãpi tem alcance que vai muito além do belo, tocando o sagrado e a visão de mundo do povo.
- Síntese: as duas evidências convergem para uma mesma ideia — o Kusiwa não é arte "para enfeitar", mas arte como linguagem cosmológica e religiosa. A alternativa correta precisa expressar exatamente essa ampliação do conceito de arte.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a tese do texto
O texto de base apresenta o Kusiwa em duas camadas: primeiro descreve o que ele é (repertório codificado de padrões gráficos que decora e colore corpo e objetos); depois, crucialmente, afirma o que ele significa culturalmente — "para além de enfeitar", ele é arte, marca, pintura, desenho, e ultrapassa a estética para alcançar a cosmologia e a religiosidade. A tese, portanto, não é sobre a técnica do grafismo, mas sobre sua função ampliada na cultura Wajãpi.
Subpasso 4.2 — Traduzir a tese em critério de resposta
Como o comando pede o que as práticas culturais Wajãpi "revelam", a alternativa correta deve afirmar uma concepção de arte que não se restrinja ao belo ou ao ornamental. Isso elimina, de partida, qualquer alternativa que reduza o Kusiwa a decoração, a representação literal do mundo visível, ou que o generalize para "os indígenas" como um todo — o texto fala especificamente do povo Wajãpi e de seu sistema próprio de grafismos.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando o critério construído ("arte que vai além da função estética, incorporando cosmologia e religião") com as cinco alternativas, apenas uma reproduz fielmente essa ideia sem acrescentar nem inverter informação: a que afirma que as práticas culturais "revelam uma concepção de arte para além de funções estéticas". Essa é a única formulação que espelha, quase como paráfrase, o trecho "ultrapassam a noção estética e alcançam a cosmologia e as crenças religiosas".
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) perdem significado quando desprovidas de elementos gráficos.
❌ Incorreta: o texto não discute o que aconteceria "sem" os grafismos; ele afirma o oposto — que a presença do grafismo carrega múltiplos significados. Essa alternativa introduz uma condição hipotética (perda de sentido na ausência do elemento gráfico) que não tem respaldo no texto.
B) revelam uma concepção de arte para além de funções estéticas.
✅ Correta: é a paráfrase direta de "ultrapassam a noção estética e alcançam a cosmologia e as crenças religiosas". O texto mostra que, para os Wajãpi, arte não é sinônimo de mero embelezamento — ela comunica cosmovisão e religiosidade, ou seja, cumpre função muito mais ampla do que a estética.
C) funcionam como elementos de representação figurativa de seu mundo.
❌ Incorreta: "representação figurativa" remete a um desenho que retrata literalmente objetos ou cenas do mundo visível (como uma pintura realista). O Kusiwa é descrito como repertório "codificado" de padrões gráficos — ou seja, simbólico e abstrato, não uma reprodução figurativa da realidade.
D) padronizam uma mesma identidade gráfica entre diferentes povos indígenas.
❌ Incorreta: o texto trata exclusivamente do povo Wajãpi e de seu sistema próprio, o Kusiwa. Não há qualquer menção a uma identidade gráfica compartilhada entre "diferentes povos indígenas" — essa generalização extrapola e distorce a informação do texto, que é específica de uma etnia.
E) primam pela utilização dos grafismos como contraposição ao mundo imaginário.
❌ Incorreta: inverte o sentido do texto. Os grafismos não se opõem ("contraposição") ao imaginário/cosmológico — pelo contrário, eles alcançam e expressam a cosmologia e as crenças religiosas, isto é, dialogam diretamente com esse universo simbólico, não o negam.
🏆 Gabarito: B — o texto afirma explicitamente que o Kusiwa ultrapassa a função estética e alcança a cosmologia e a religiosidade, o que corresponde exatamente à ideia de uma "concepção de arte para além de funções estéticas".
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa B é a única que traduz sem distorção a afirmação central do texto — a arte Wajãpi vai além do estético e alcança dimensões cosmológicas e religiosas.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos sobre culturas indígenas e patrimônio imaterial para testar se o estudante reconhece que "arte", em diferentes cosmovisões, pode ter função identitária, religiosa e social — não apenas decorativa.
- Generalização: em questões de interpretação sobre culturas tradicionais, a resposta correta costuma ser aquela que amplia o conceito ocidental de "arte pelo prazer estético" para incluir função simbólica, coletiva e espiritual — desconfie de alternativas que reduzem a cultura descrita a um único aspecto (só decoração, só técnica, só imagem).
- Dica de eliminação rápida: corte alternativas que generalizem para "povos indígenas" no plural quando o texto fala de um único povo específico (como em D), e corte alternativas que invertam o sentido do texto usando palavras de oposição como "contraposição" quando o texto na verdade descreve conexão (como em E).
- Conexões: patrimônio cultural imaterial (UNESCO); diversidade cultural e identidade étnica; funções sociais da arte em sociedades tradicionais.
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