Mapa de questões · 1º dia
Questão 17 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
Foi o caso que um homenzinho, recém-aparecido na cidade, veio à casa do Meu Amigo, por questão de vida e morte, pedir providências. Meu Amigo sendo de vasto saber e pensar, poeta, professor, ex-sargento de cavalaria e delegado de polícia. Por tudo, talvez, costumava afirmar: — “A vida de um ser humano, entre outros seres humanos, é impossível. O que vemos é apenas milagre; salvo melhor raciocínio.” Meu Amigo sendo fatalista.
Na data e hora, estava-se em seu fundo de quintal, exercitando ao alvo, com carabinas e revólveres, revezadamente. Meu Amigo, a bom seguro que, no mundo, ninguém, jamais, atirou quanto ele tão bem — no agudo da pontaria e rapidez em sacar arma; gastava nisso, por dia, caixas de balas. Estava justamente especulando: — “Só quem entendia de tudo eram os gregos. A vida tem poucas possibilidades”. Fatalista como uma louça, o Meu Amigo. Sucedeu nesse comenos que o vieram chamar, que o homenzinho o procurava.
ROSA, J. G. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1967.
Os procedimentos de construção conferem originalidade ao estilo do autor e produzem, no fragmento, efeito de sentido apoiado na
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → prosa de Guimarães Rosa; procedimentos estilísticos e efeito de ironia
- ⚡ Nível: Médio — exige perceber um efeito irônico que não é anunciado pelo narrador, construído por acúmulo de atributos e comparação inusitada
- 🎯 Tema/Habilidade: Efeito de sentido produzido por procedimentos de construção do texto literário
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que efeito de sentido os recursos de estilo de Guimarães Rosa produzem neste retrato de 'Meu Amigo'?"
- Palavras-chave decisivas: procedimentos de construção, originalidade ao estilo, efeito de sentido
- Armadilha típica: levar ao pé da letra as falas do personagem (menção aos gregos, "milagre" da vida) e marcar a alternativa que fala em "reflexão filosófica" ou "erudição", sem perceber que o narrador ironiza essas falas, não as endossa.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar COMO a linguagem é construída (enumeração excessiva + comparação rebaixadora) e QUE EFEITO isso gera — ironia sobre a suposta profundidade intelectual do personagem.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Ironia narrativa: o narrador ergue uma imagem grandiosa e séria de alguém para, na sequência, desmontá-la com um elemento incongruente.
- Acúmulo heterogêneo de atributos: empilhar qualidades incompatíveis entre si (poeta, professor, ex-sargento de cavalaria, delegado) é marca do estilo de Rosa para criar personagens ao mesmo tempo grandiosos e caricatos.
- Comparação rebaixadora (bathos): aproximar um conceito elevado (fatalismo, sabedoria grega) de um objeto trivial e frágil quebra o tom solene e expõe o exagero da pose intelectual.
- Regionalismo universalista de Rosa: expressões arcaicas ("a bom seguro", "salvo melhor raciocínio") compõem, com humor, um retrato ambíguo entre solene e risível.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Meu Amigo sendo de vasto saber e pensar, poeta, professor, ex-sargento de cavalaria e delegado de polícia." → o acúmulo de ofícios incompatíveis infla o personagem até a inverossimilhança, plantando a ironia antes mesmo de ele falar.
- Evidência 2: "Fatalista como uma louça, o Meu Amigo." → comparar uma postura filosófica a um objeto doméstico frágil é o ápice do procedimento irônico: o solene desaba sobre o trivial.
- Síntese: o narrador não endossa a sabedoria de "Meu Amigo" — caricatura um sujeito que se veste de intelectual, cuja "profundidade" é sistematicamente rebaixada. É essa a nota irônica sobre o perfil intelectual do personagem que o comando pede.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear a construção do personagem
A enumeração "de vasto saber e pensar, poeta, professor, ex-sargento de cavalaria e delegado de polícia" mistura esferas incompatíveis — arte, docência, milícia, autoridade policial. Dificilmente alguém reúne com naturalidade esse leque de papéis; o efeito, já nessa lista, é de exagero cômico, antes de qualquer comentário explícito do narrador.
Subpasso 4.2 — Observar como as falas "filosóficas" são emolduradas
"Meu Amigo" profere sentenças grandiosas — "A vida de um ser humano... é impossível... apenas milagre; salvo melhor raciocínio" e "Só quem entendia de tudo eram os gregos" — enquanto pratica tiro ao alvo obsessivamente ("gastava nisso, por dia, caixas de balas"). O clichê cartorial embutido nessa fala, colado a uma reflexão sobre a existência, já mina a pompa do discurso.
Subpasso 4.3 — Verificação: a frase que fecha o quadro irônico
A frase decisiva — "Fatalista como uma louça, o Meu Amigo" — compara o fatalismo a uma peça de louça, objeto frágil e sem nenhuma relação lógica com convicção existencial. É o golpe final: rebaixa tudo o que veio antes e confirma que o narrador trata o "saber" de Meu Amigo com ironia, não com admiração. Confrontando essa leitura com as alternativas, só uma nomeia esse efeito exato — confirma-se o gabarito C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) reflexão filosófica em torno da brevidade da vida.
❌ Incorreta: o texto fala em "impossibilidade" e "milagre" da vida, mas o foco não é a brevidade, e sim a fragilidade da sobrevivência entre humanos; sobretudo, o efeito não é de reflexão filosófica séria, e sim de ironização dessa pretensa reflexão.
B) tensão progressiva ante a chegada do estranho.
❌ Incorreta: o "homenzinho" só emoldura início e fim do fragmento ("veio... pedir providências" / "o homenzinho o procurava"), sem qualquer escalada de suspense entre esses pontos — o núcleo do texto é uma caracterização estática.
C) nota irônica do perfil intelectual do personagem.
✅ Correta: o acúmulo de atributos incompatíveis e a comparação "Fatalista como uma louça" constroem e, simultaneamente, desmontam a imagem de um homem sábio e profundo — exatamente o efeito de sentido que os procedimentos de construção do texto produzem.
D) curiosidade natural despertada pelo anonimato.
❌ Incorreta: o "homenzinho, recém-aparecido na cidade" é só o gatilho da situação; o narrador não explora mistério sobre sua identidade — toda a energia descritiva recai sobre "Meu Amigo", não sobre o desconhecido.
E) erudição sutil da alusão ao pensamento grego.
❌ Incorreta: a menção aos gregos ("Só quem entendia de tudo eram os gregos") é direta e pomposa, não sutil — é mais um item da encenação de sabedoria que o narrador ironiza logo em seguida com "Fatalista como uma louça".
🏆 Gabarito: C — o acúmulo de atributos díspares somado à comparação rebaixadora com um objeto trivial produz um efeito de ironia sobre o perfil intelectual que "Meu Amigo" ostenta.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa C nomeia o procedimento real do texto — erguer uma fachada de sabedoria para, em seguida, ironizá-la com uma comparação absurda; as demais tomam as falas ao pé da letra (A, E) ou apontam efeitos que o fragmento não constrói (B, D).
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente textos de Guimarães Rosa pedindo o efeito de sentido do estilo, não o conteúdo literal da fala das personagens — é preciso ler "por trás" do que é dito.
- Generalização: lista exagerada de qualidades ou ofícios seguida de comparação inusitada é assinatura estilística de ironia em autores como Rosa, Machado de Assis e Graciliano Ramos.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que levam a sério o discurso do personagem quando houver comparação incongruente no texto ("como uma louça"); descarte alternativas sobre suspense/mistério quando o trecho for descritivo e estático.
- Conexões: regionalismo universalista da 3ª geração modernista; ironia na caracterização de personagens em Machado de Assis.
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