Mapa de questões · 1º dia
Questão 46 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
Ao longo da história, os movimentos sociais são produtores de novos valores e objetivos, criando novas normas para organizar a vida social. Os movimentos sociais exercem o contrapoder construindo-se mediante um processo de comunicação autônoma, livre do controle dos que detêm o poder institucional.
CASTELLS, M. Redes da indignação e esperança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2013 (adaptado).
O contrapoder indicado no texto se expressa na
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → movimentos sociais, contrapoder e ação coletiva em rede (Manuel Castells)
- ⚡ Nível: Difícil — exige decodificar um conceito teórico específico ("contrapoder"/"comunicação autônoma") e discriminá-lo de alternativas com vocabulário sociológico parecido, mas de sentido invertido.
- 🎯 Tema/Habilidade: Movimentos sociais contemporâneos organizados em rede; leitura e análise de textos sociológicos sobre processos políticos e formas de participação coletiva.
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo o texto de Castells, de que forma concreta o contrapoder dos movimentos sociais se manifesta?"
- Palavras-chave decisivas: produtores de novos valores e objetivos, comunicação autônoma, livre do controle dos que detêm o poder institucional
- Armadilha típica: confundir "produção de novos valores" com ausência ou negação de valores (alternativa D), ou interpretar "autonomia frente ao poder institucional" como se os movimentos buscassem se aproximar do Estado (alternativa E) — trocar horizontalidade por hierarquia disfarçada.
- O que a resposta precisa demonstrar: reconhecer que o contrapoder se manifesta na forma de organização horizontal — sem hierarquia centralizada, com comunicação distribuída e decisão coletiva — e não em algum tipo de confronto direto ou institucional.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Contrapoder (Manuel Castells): capacidade dos atores sociais de desafiar e, eventualmente, transformar as relações de poder institucionalizadas na sociedade. Não é ausência de poder, mas um poder alternativo, construído "de baixo para cima", fora dos canais oficiais (Estado, partidos, grandes mídias).
- Comunicação autônoma / autocomunicação de massas: conceito-chave da obra "Redes de Indignação e Esperança" — com a internet e as redes sociais digitais, os movimentos passam a produzir e difundir informação por conta própria, sem depender da mídia tradicional nem de estruturas hierárquicas, criando um circuito de comunicação de muitos para muitos.
- Horizontalidade: modelo organizacional sem lideranças fixas e centralizadas, baseado em assembleias, rodízio de porta-vozes e decisões por consenso; é a tradução prática dos "novos valores" citados no texto — os movimentos não apenas defendem pautas específicas, mas propõem uma nova ética de convivência e de tomada de decisão.
- Movimentos sociais em rede: categoria usada por Castells para descrever fenômenos como a Primavera Árabe, o 15-M/Indignados na Espanha e o Occupy Wall Street — todos marcados por organização descentralizada e uso intensivo de redes digitais, sem comando único.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "os movimentos sociais são produtores de novos valores e objetivos, criando novas normas para organizar a vida social" → eles não reivindicam apenas uma pauta pontual, mas propõem um novo modo de viver e decidir coletivamente — ou seja, uma nova ética de organização social.
- Evidência 2: "exercem o contrapoder construindo-se mediante um processo de comunicação autônoma, livre do controle dos que detêm o poder institucional" → o contrapoder nasce de uma comunicação sem intermediário hierárquico, o que corresponde, na prática organizacional, à ausência de uma cúpula de comando fixa — isto é, à horizontalidade.
- Síntese: somando "produção de novos valores/normas" (Evidência 1) a "comunicação livre de controle institucional" (Evidência 2), chega-se exatamente à ideia de que os movimentos adotam uma ética horizontal — sem hierarquia impositiva, sem controle centralizado, com legitimidade construída coletivamente entre os próprios participantes.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o que é "contrapoder" no texto
Castells não trata o contrapoder como sinônimo de "ausência de poder" nem como confronto violento contra o Estado. Para ele, onde há poder institucional — Estado, mídia corporativa, partidos, mercado financeiro —, há também a possibilidade de resistência organizada: o contrapoder. Essa resistência não se impõe pela força ou pela conquista de cargos institucionais; ela se constrói de dentro para fora, pela própria maneira como o movimento se organiza e se comunica.
Subpasso 4.2 — Traduzir "comunicação autônoma livre de controle institucional" em termos de organização social
Se a comunicação é autônoma e livre do controle de quem detém o poder institucional, isso implica que não existe um centro de comando único ditando o que pode ou não ser dito, nem uma hierarquia que filtra as decisões antes de chegarem à base. Em termos de teoria da ação coletiva, esse modelo de organização — descentralizado, sem cúpula fixa, baseado em redes e assembleias — é descrito como horizontal, em oposição aos modelos verticais dos partidos tradicionais, dos sindicatos burocratizados ou do próprio aparelho estatal.
Subpasso 4.3 — Verificação: cruzar a conclusão com as cinco alternativas
Estabelecido que o texto descreve movimentos que (i) criam novos valores e normas e (ii) se comunicam de forma autônoma e não hierárquica, resta procurar, entre as cinco opções, a única compatível com ambos os elementos ao mesmo tempo. Apenas a alternativa que fala em "adoção de éticas horizontais" nomeia esse duplo movimento: ética (novos valores/normas) somada a horizontal (comunicação autônoma, sem controle institucional centralizado). As demais alternativas, como se vê no Passo 5, invertem ou negam algum elemento central do texto — por isso são descartadas.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) adoção de éticas horizontais.
✅ Correta: é a única alternativa que une os dois elementos do texto — produção de novos valores e normas (dimensão "ética") e comunicação autônoma sem hierarquia institucional (dimensão "horizontal"). Descreve com precisão o modo como movimentos como o 15-M, o Occupy e as redes de mobilização recentes se organizam: sem líder único, por assembleias, com decisões coletivas e distribuídas.
B) rejeição de dissidências morais.
❌ Incorreta: o texto não fala em excluir vozes discordantes — pelo contrário, movimentos horizontais em rede caracterizam-se justamente pela pluralidade interna e pela convivência com o dissenso (múltiplas pautas, múltiplas vozes, sem uma linha oficial única). "Rejeitar dissidências" é traço de organizações hierárquicas e fechadas, o oposto do que Castells descreve.
C) negação de estratégias coletivas.
❌ Incorreta: contradiz o próprio objeto do texto. Movimentos sociais são, por definição, estratégias de ação coletiva; o texto inteiro descreve como essa ação coletiva se organiza (de forma autônoma e horizontal), e não sua negação ou abandono.
D) promoção de descrenças axiológicas.
❌ Incorreta: "descrença axiológica" significaria ausência ou rejeição de valores, um niilismo em relação a normas e princípios. O texto afirma exatamente o contrário: os movimentos são "produtores de novos valores e objetivos" — ou seja, criam e afirmam valores novos, não os negam nem duvidam deles.
E) incorporação de convenções estatais.
❌ Incorreta: é a inversão direta da ideia central do texto. O contrapoder se define justamente como uma construção "livre do controle dos que detêm o poder institucional"; logo, incorporar convenções do Estado — o poder institucional por excelência — anularia o próprio conceito de contrapoder descrito por Castells.
🏆 Gabarito: A — o contrapoder descrito por Castells se expressa na adoção de éticas horizontais, pois essa é a única alternativa que une, ao mesmo tempo, a criação autônoma de novos valores e normas e a ausência de controle hierárquico-institucional sobre a comunicação dos movimentos.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que preserva simultaneamente os dois pilares do texto — produção de novos valores (ética) e comunicação livre de controle institucional (horizontalidade) — por isso é a resposta correta.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos de sociólogos contemporâneos (Castells, Bauman, Touraine) sobre movimentos sociais em rede, ativismo digital e novas formas de participação política, pedindo que o estudante reconheça conceitos como horizontalidade, autonomia e ação coletiva a partir da leitura do texto-base, sem exigir memorização prévia da teoria.
- Generalização: em questões sobre movimentos sociais contemporâneos, a alternativa correta quase sempre valoriza autonomia, organização em rede e ausência de hierarquia rígida; desconfie de alternativas que insinuem controle centralizado, negação de valores ou aproximação com o Estado e demais formas de poder institucional.
- Dica de eliminação rápida: risque de imediato qualquer alternativa que contradiga literalmente uma frase do texto (E contradiz "livre do controle... poder institucional"; D contradiz "produtores de novos valores"); entre as restantes, escolha a que descreva organização sem hierarquia, e não exclusão ou negação de outros grupos.
- Conexões: Primavera Árabe, Occupy Wall Street, Indignados/15-M (Espanha), conceitos de "autocomunicação de massas" e "sociedade em rede" de Manuel Castells, jornadas de mobilização social organizadas por redes digitais no Brasil.
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